Artigo

A política de terra arrasada de Trump e o “puxa-saquismo” da FIFA engolem o espírito da Copa do Mundo

Reprodução / Redes Sociais / Instagram / @gianni_infantino
Copa do Mundo de 2026 se transforma em um cenário de xenofobia, alianças políticas, e ofusca a celebração do futebol  |   Bnews - Divulgação Reprodução / Redes Sociais / Instagram / @gianni_infantino
Cauan Borges

por Cauan Borges

cauan.borges@bnews.com.br

Publicado em 14/06/2026, às 06h00



A Copa do Mundo, conhecida por representar a capacidade do futebol de transcender fronteiras políticas, culturais e geográficas, unir bilhões de pessoas ao redor do globo, e promover um intercâmbio de identidades onde rivalidades diplomáticas e diferenças sociais dão lugar à maior linguagem universal do planeta, tornou-se o palco perfeito para expor a podridão de uma aliança promíscua entre o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e o mandatário norte-americano, Donald Trump.

📲 Clique aqui e inscreva-se no canal do BNews no Youtube!

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

Google News Bnews

Na edição histórica de 2026, sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, com a maior parte dos jogos em solo estadunidense, o que deveria ser uma festa global do maior esporte do mundo, transformou-se em um exercício cruel de xenofobia, exclusão e bajulação política pública.

O republicano achava que perderia a chance de desfilar no maior palco esportivo do mundo, lamentando em 2018, quando os EUA ganharam o direito de co-organizar a Copa do Mundo de 2026 daquele ano, que "não estaria aqui" devido aos limites de mandato presidencial. O destino, ou a fragilidade das instituições americanas, tratou de corrigir a frustração do magnata.

Entretanto, o retorno político histórico, que o tornou apenas o segundo presidente a vencer dois mandatos não consecutivos, garantiu-lhe mais tempo na política e um papel no gigantesco evento de futebol. Trump sempre teve um talento especial para se inserir no espírito da época global. 

📲 Clique aqui e leia a última matéria da coluna de cultura!

Então, o bilionário aproveitou a oportunidade e exibiu com orgulho uma réplica reluzente da Copa do Mundo que complementava a decoração dourada de seu Salão Oval, acolheu o magnata do futebol em sua órbita global MAGA e, após entregar o troféu ao Chelsea em um torneio de clubes da FIFA nos EUA no ano passado, comemorou com o time como se tivesse marcado o gol da vitória.

Mas o Mundial deste ano, que começou na última quinta-feira (11), pode servir para destacar a discórdia de sua política mais do que seu entusiasmo pelo futebol. Embora Trump possa estar buscando uma nova oportunidade para promover sua onipresença global, muitos críticos no exterior provavelmente se sentirão alienados por declarações que personificam a turbulência e a discórdia de seu segundo mandato.

O maior exemplo disso foi a atribuição do Prêmio da Paz da FIFA ao líder dos EUA por Infantino, depois de seu ‘amigo’ ter sido preterido na disputa pelo Prêmio Nobel. O momento foi amplamente debatido e, definitivamente, posto na prateleira de situações constrangedoras.

Enquanto isso, o presidente lança ataques militares contra outra nação classificada para a Copa do Mundo, o Irã. Em Gaza, um dos conflitos que, segundo promessas atribuídas à capacidade de negociação do presidente dos Estados Unidos, estaria próximo do fim, os confrontos seguem em curso com novos ataques israelenses. O Hamas, que perderia força e seria desarmado após o acordo de cessar-fogo repetidamente rompido, demonstra sinais de reorganização.

Enquanto isso, os palestinos que, dentro da visão de reconstrução defendida pelo entorno do republicano, viveriam em uma espécie de “Riviera do Oriente Médio”, continuam enfrentando a pobreza extrema e o cenário de destruição deixado pela guerra. O plano de reconstrução, associado a propostas idealizadas pelo genro do ex-presidente do país, permanece distante da realidade vivida no território.

O cenário que se descortina é de uma hipocrisia brutal

As políticas de imigração linha-dura de Trump, que fizeram com que alguns torcedores estrangeiros se sentissem indesejados nos Estados Unidos, ofuscaram a contagem regressiva para os jogos de abertura. Mesmo que seja senso comum, o óbvio precisa ser dito: o governo Trump não quer estrangeiros, a menos que sejam detentores de terras ou possam render fotos ao lado do presidente. 

Antes do início da competição, quase todos os grandes eventos esportivos são assolados por manchetes negativas sobre política, comercialização e acesso. Mas a hiperpolitização da Copa, co-organizada com Canadá e México em um momento de antagonismo no Hemisfério Ocidental, tem um ingrediente adicional que quase garante a polarização, que é Donald Trump. 

A bajulação de Infantino ao ‘laranjão’ pode ter efeito contrário, já que a tendência do presidente dos EUA de gerar reações extremamente positivas e negativas tem direcionado a atenção para a decisão de Infantino de se alinhar tão estreitamente com o líder americano. 

O líder da entidade máxima do futebol tem sido presença constante em Washington e em Mar-a-Lago. O careca da FIFA até compareceu à cúpula de paz de Trump sobre Gaza, no Egito, no ano passado. Após o comício de posse do presidente americano para seu segundo mandato, ele declarou no Instagram: "Juntos, faremos não apenas a América grande novamente, mas também o mundo inteiro." 

Essa declaração, por si só, deveria render a Infantino uma investigação por violação dos estatutos da entidade. A aparente demonstração de apoio parece entrar em conflito com os estatutos da FIFA, que enfatizam sua neutralidade em questões políticas. No entanto, Infantino defendeu sua amizade com Trump em um encontro na Irlanda do Norte no ano passado. 

Acho absolutamente crucial para o sucesso de uma Copa do Mundo ter uma relação próxima com o presidente. Sem o compromisso e o envolvimento (de Donald Trump), teria sido impossível organizar uma Copa nos Estados Unidos", disse Infantino, segundo a Agence France Presse. 

A frase, como demonstrado posteriormente, revela um pensamento tacanho e submisso. Para Infantino, o sucesso de uma Copa se mede pela proximidade com o homem forte da vez, não pela qualidade do evento, pela segurança dos torcedores ou pelo princípio da universalidade do esporte. 

Infantino poderia dizer: 'O que eu preciso fazer como presidente desta organização para garantir apoio político e garantir que tudo corra bem?'”, disse Alexander Cooley, pesquisador sênior não residente do Conselho de Assuntos Globais de Chicago. 

Futebol e política devem ser discutidos

Infelizmente, na edição deste ano, o clichê de que o "futebol sempre vence", morreu na porta do aeroporto. Ao chegar nos Estados Unidos, atletas e comissão de Senegal, como citado anteriormente, foram submetidos a uma inspeção detalhada ainda na pista. Toda a equipe da seleção africana foi revistada e passou por detectores de metal. Assim como eles, o Uzbequistão passou pelo mesmo tipo de procedimento.

Outra federação que teve problemas foi o Iraque, quando o herói da classificação do país ao Mundial, Aymen Hussein, foi confundido pelas autoridades por um cidadão iraniano. Até o imbróglio ser resolvido, o jogador foi interrogado e retido por sete horas. Sete horas de tortura psicológica para um atleta profissional conhecido mundialmente. 

Além disso, um dos casos que mais repercutiu na mídia internacional foi o visto negado ao árbitro somali Omar Artan. O juiz apitou em jogos do Campeonato Africano das Nações, a final da Champions League do continente e eleito pela Confederação Africana de Futebol (CAF) como o melhor juiz. Ao retornar à sua terra natal, Omar foi recebido com muita festa e carinho pelos cidadãos.

É também uma infelicidade o que aconteceu com o árbitro da Somália, mas não temos controle sobre tudo. Tentamos, conversamos e discutimos, mas às vezes é bom também se acalmar e relaxar. Estamos trabalhando em tudo, tentando resolver todas as questões”, disse o presidente da FIFA.

A fala de Infantino é um primor de irresponsabilidade, ao tratar um árbitro de classe mundial com a entrada negada por um país-sede, e a resposta do maior dirigente do futebol é pedir para "se acalmar e relaxar". É, no mínimo, patético.

O Irã é provavelmente a seleção que está com mais problemas com os Estados Unidos – por motivos óbvios. A equipe está treinando em Tijuana, no México, na fronteira com a Califórnia, por conta dos conflitos políticos com o “país da Liberdade”.

Após o fim dos jogos, os jogadores iranianos terão que sair imediatamente dos EUA e retornar à ‘base’. Ou seja, o estado receptor das partidas de um torneio como a Copa do Mundo trata uma nação classificada como um inimigo que deve ser contido, não como um participante de uma festa esportiva, que clima gostoso de Copa, né?. 

Na esteira desse processo, a comercialização abjeta transformou o sonho do torcedor em produto de luxo. De forma um tanto quanto absurda, um ingresso, com preços originais estipulados diretamente nos lotes da FIFA para a grande final, fica entre US$10.990 e US$32.970. Isso não é esporte, é extorsão escrachada e pouco sutil. A federação introduziu o preço dinâmico para arrancar o máximo de dinheiro possível, enquanto alega, hipocritamente, querer popularizar o futebol. 

E a expansão do torneio para 48 seleções, longe de ser um ato de generosidade esportiva ou uma forma de ampliar os horizontes do maior campeonato entre seleções, é uma manobra política de Infantino para comprar votos de federações menores e se perpetuar no poder. 

Calma, a lista de absurdos não para

O Haiti teve que modificar seus uniformes porque a FIFA vetou uma ilustração da revolução que levou à abolição da escravidão, alegando manifesto político. A camisa da seleção da América Central carregava uma estampa que trazia uma ilustração da Batalha de Vertières de 1803, conflito decisivo para a independência do país contra o domínio colonial francês. Ao mesmo tempo, Infantino entrega um prêmio da paz para Trump, que chama imigrantes de criminosos. 

Enquanto o Haiti é obrigado a apagar sua história de camisa na Copa, Trump exibe o troféu da Copa no Salão Oval como se fosse seu, engraçado, não? O futebol, nessa história mal contada, é apenas o pano de fundo para um espetáculo de exclusão, arrogância e subserviência. 

*Texto reflete exclusivamente a opinião do colunista e não representa, necessariamente, a posição editorial do BNews. 

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp


Cadastre-se na Newsletter do Bnews (Beta)