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Durante grande parte do século XX, o cinema esteve integrado à dinâmica urbana de Salvador. As salas ocupavam ruas movimentadas, praças e bairros tradicionais, atraíam públicos de diferentes classes sociais e funcionavam como espaços de convivência, circulação cultural e acesso popular ao audiovisual. Antes da consolidação dos shoppings centers e dos multiplex, ir ao cinema significava atravessar o Centro da cidade, ocupar calçadas, encontrar conhecidos e transformar a experiência cinematográfica em parte da vida urbana.
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As primeiras exibições na capital baiana aconteceram ainda no século XIX. Em 1897, o Teatro Polytheama recebeu a primeira sessão cinematográfica de Salvador, em uma época em que os filmes ainda eram mudos. Pouco depois, o Cinema Lumière foi inaugurado na Rua Carlos Gomes, com o intuito inicial de estabelecer uma sala fixa de exibição na cidade, mas fechou cerca de dois meses depois. Nas décadas seguintes, o cinema deixou os teatros e passou a ocupar edifícios próprios, o que consolidou uma rede de salas espalhadas por diferentes regiões de Salvador.
Ao longo do século XX, as telonas nas ruas de Salvador participaram diretamente da formação cultural da capital. Não eram apenas locais de exibição, mas equipamentos urbanos integrados ao cotidiano da cidade. O deslocamento para assistir a um filme envolvia bares, lanchonetes, praças, comércio popular e circulação de pessoas pelas ruas. Em tese, a ida ao cinema fazia parte da ocupação do espaço público, uma extensão daquilo que as pessoas acreditavam.
O modelo citado começou a ruir na segunda metade do século XX, com o deslocamento do eixo econômico de Salvador para regiões como Iguatemi e Avenida Tancredo Neves, que provocou o esvaziamento gradual do Centro Histórico. Ao mesmo tempo, os shoppings passaram a concentrar lazer, alimentação, consumo e segurança privada em ambientes fechados. O cinema deixou de ocupar a cidade e passou a funcionar como extensão das praças de alimentação e das vitrines comerciais – mais um tentáculo do sistema mercadológico, que já estava em forte expansão nos Estados Unidos.
A substituição dos antigos cinemas pelos multiplex não alterou apenas a estrutura física das salas. O processo também modificou a lógica de consumo do audiovisual. Com isso, o espaço antes dedicado à permanência e à convivência passou a operar sob a dinâmica de rotatividade dos centros comerciais. Em vez de integrar a experiência urbana, o ato de ir à uma sala de projeção cinematográfica foi absorvido pelo circuito de consumo rápido, submetido à lógica de franquias internacionais, grandes distribuidoras e concentração excessiva do capital.
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Em entrevista à coluna de cultura do BNews, a roteirista, crítica de cinema e professora da Universidade Salvador e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Amanda Aouad, explicita que os cinemas de rua tinham uma função cultural que ultrapassava a simples exibição de filmes.
O cinema de rua é parte do cenário cultural de qualquer cidade, é um espaço de troca, destinado àquela arte, quem vai a um cinema de rua para ver um filme, descobrir novas obras, conversar com pessoas que também gostam daquela arte. E a cidade de Salvador sempre teve seus espaços tradicionais, sendo um centro cultural e artístico. Ao contrário dos complexos de shoppings que são apenas mais um entretenimento naquele espaço de consumo. Além disso, é um espaço que costuma ser mais acessível e democrático que os shoppings”, comentou Amanda.
Segundo a professora, a transformação urbana e econômica da cidade tornou inviável a permanência da maior parte dessas salas. O avanço dos shoppings e dos conglomerados internacionais de exibição criou um cenário de concorrência desigual para cinemas independentes e estruturas menores.
O movimento de mudança dos hábitos de compra, com o crescimento dos shoppings com toda a praticidade e promessa de segurança que eles vendem. Além disso, o crescimentos dos complexos de multiplex com grandes marcas internacionais que trazem atrativos como salas mais modernas, telas e som de última geração e quantidade de opções. É difícil para um cinema de rua com uma, duas salas competir com um conglomerado com doze salas e investimento estrangeiro”, acrescentou Amanda.
Entre as décadas de 1970 e 1990, Salvador assistiu ao fechamento sucessivo de salas históricas. Algumas foram demolidas, enquanto outras acabaram descaracterizadas, transformadas em igrejas, estacionamentos, depósitos, lojas de colchões ou cinemas pornôs, que é o caso do Cine Tupy, localizado no bairro da Baixa de Sapateiros, conhecido como o “último cinema pornô” da capital baiana.
Em muitas circunstâncias, restaram apenas fachadas escondidas atrás de placas publicitárias, estruturas deterioradas e prédios abandonados no Centro da cidade. A substituição do cinema de rua pelos multiplex coincidiu com a perda de espaços públicos de convivência e com o enfraquecimento da vida cultural fora dos ambientes privados de consumo.
Os cinemas que marcaram Salvador
Durante décadas, Salvador manteve uma rede extensa de cinemas de rua distribuídos por diferentes regiões da cidade. Muitas dessas salas funcionavam diariamente, reuniam milhares de espectadores por ano e ocupavam edifícios construídos especificamente para exibição cinematográfica.
Entre os principais espaços estavam o Cine Jandaia, inaugurado em 1931, em Nazaré, com capacidade para 2.100 pessoas; o Cine Pax, fundado em 1939, na Baixa dos Sapateiros, com 1.778 lugares; e o Cine Roma, aberto em 1948, com capacidade para 1.850 espectadores.
O circuito também incluía salas como Cine Excelsior, Cine Glória, Cine Aliança, Cine Guarany, Cinema Liceu, Cinema Popular, Cinema Bonfim, Cinema Itapagipe, Cinema Liberdade, Cine Capri, Cine Oceania, Cine São Caetano, Cine Brasil e Cine Itapoan.
O antigo Cine Guarany, localizado na Praça Castro Alves, ficou marcado por exibir “Redenção”, lançado em 1959 e reconhecido como o primeiro longa-metragem produzido inteiramente em território baiano.
Esses cinemas ajudaram a construir hábitos culturais em Salvador antes da popularização da televisão, do videocassete, dos streamings e dos multiplex. As salas reuniam estudantes, trabalhadores, famílias e frequentadores do Centro, formando uma dinâmica urbana baseada na circulação de pessoas pelas ruas da cidade.
Hoje, muitos desses prédios permanecem abandonados ou descaracterizados, como o caso do Cine Excelsior, que voltou ao debate recentemente após a possibilidade de transformação do imóvel em plenário da Câmara Municipal de Salvador. O prédio também é alvo de um inquérito do Ministério Público Federal para investigar riscos estruturais.
Os espaços que resistiram (ou tentam)
Entre as antigas salas de cinema de rua, poucas permaneceram em funcionamento em Salvador. O principal exemplo é o Cine Glauber Rocha, instalado no prédio onde funcionava o antigo Cine Guarany. O espaço fechou, sofreu degradação e chegou a correr risco de desaparecer definitivamente antes da reabertura em 2008.
A permanência do cinema ocorreu após articulações para impedir que o prédio fosse incorporado à lógica comercial que substituiu boa parte das antigas salas da cidade. O diretor e exibidor Cláudio Marques afirmou que a ameaça de encerramento definitivo motivou a mobilização para recuperar o espaço.
Quando o antigo Cine Glauber fechou fiquei muito triste, era um cinema que eu gostava e frequentava mesmo com todas as dificuldades, já estava muito degradado e abandonado. Eu recebi a notícia que o cinema iria virar supermercado e ninguém mais tinha interesse de manter. Aí comecei a me articular para a cidade não perder mais uma sala de cinema”, destacou Marques em entrevista ao Metro1 em 2024.
Para Amanda Aouad, o Glauber Rocha demonstra que ainda existe espaço para cinemas de rua em Salvador, desde que haja financiamento, apoio institucional e um modelo de funcionamento capaz de equilibrar diferentes públicos.
Foi revitalizado com o financiamento do Itaú, e hoje, mesmo sem esse patrocínio conseguiu outros além de apoio do governo. Ele também consegue mesclar filmes mais comerciais com filmes de arte e filmes nacionais por ter quatro salas. E também tem muitas sessões especiais, Cine Clube. Enfim, uma forma de movimentar o cenário cultural local. Com um bom projeto, patrocínio e apoio do governo é possível que outros cinemas também tenham espaço nas ruas”, comentou Aouad.
Outro espaço que permanece ativo é o Circuito SaladeArte, responsável por salas como o Sala de Arte Cinema do Museu, o Sala de Arte UFBA e o Sala de Arte Paseo. Em contraste com o circuito comercial dominante, os espaços mantêm programações voltadas para filmes nacionais, obras independentes e produções fora do eixo dos grandes estúdios.
Mesmo reduzidos a poucos espaços, os cinemas de rua que sobreviveram em Salvador seguem associados a uma experiência de exibição que resiste à concentração dos multiplex e à padronização do circuito comercial.
A coluna entrou em com a Secretaria Estadual de Cultura da Bahia (Secult), com o objetivo de compreender com mais precisão a ausência e o progressivo desaparecimento de cinemas de rua em Salvador, ao considerar o papel histórico desses espaços na formação cultural e no acesso democrático ao cinema; a percepção na falta de investimentos mais robustos e contínuos no setor audiovisual, especialmente voltados à produção, exibição e circulação de obras cinematográficas no estado e a carência de centros culturais e espaços dedicados ao cinema na cidade, que possam funcionar como polos de difusão, formação de público e incentivo à linguagem audiovisual. No entanto, não houve retorno por parte do órgão.
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