Artigo
Obviamente, levar a vida de Michael Jackson para o cinema nunca seria um gesto modesto. Não quando se trata do maior ícone pop do século 20, dono de um repertório que atravessa gerações com canções como ‘Don’t Stop ’Til You Get Enough’, ‘Rock with You’, ‘Billie Jean’, ‘Beat It’, ‘Thriller’, ‘Human Nature’ e ‘Bad’. Dirigido por Antoine Fuqua, “Michael” (2026) entende o peso do legado e, como tantas cinebiografias musicais, prefere celebrá-lo do que interrogá-lo.
De que adianta colocar o Rei em tela, mas tudo parecer tão engessado?
O resultado é um filme embalado por entusiasmo e reverência, mas também por uma previsibilidade quase programada que funciona como um “resumão de Wikipédia” – estrutura formulaica que já virou marca do gênero no cinema americano. O longa percorre os marcos esperados da ascensão meteórica do astro com uma disciplina formal e evita o caos estrutural de “Bohemian Rhapsody” (2018), mas sem encontrar uma linguagem própria que transforme a narrativa em algo além do protocolar.
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Há, claro, lampejos de inspiração em alguns números musicais que funcionam com genuíno senso de espetáculo. A sequência de ‘Billie Jean’ captura algo do pioneirismo histórico de Michael sem depender apenas da pedagogia expositiva. Já a recriação de ‘Thriller’ é um deleite, com um olhar mais contemplativo e menos interessada em dinamismo vazio do que em entender o peso cultural daquele momento. É ali que o filme mais se aproxima de tocar a grandeza do personagem ou, pelo menos, conduzir visualmente com um pouco mais de virtuosismo.
Infelizmente, são exceções dentro de uma encenação cenograficamente pouco inspirada ao longo da trama. Fuqua não encontra a energia sensorial que, por exemplo, Baz Luhrmann imprimiu em “Elvis" (2022) para traduzir a histeria de um fenômeno. Também evita o excesso videoclipado de “Bohemian Rhapsody”, o que é mérito, mas o preço é uma direção excessivamente segura e frequentemente sem risco. Há um vazio colossal.
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Entre os defeitos, existe um ponto que se sobressai na tela. Em sua estreia como ator, Jaafar Jackson – inevitavelmente cercado pela curiosidade de interpretar o próprio tio – entrega mais do que o gesto fácil de imitação, o que traz muita leveza ao longa por meio de uma leitura honesta, até delicada, da timidez, da voz retraída e da necessidade de autoinvenção de Michael. Muito do que se entende do personagem vem do corpo e da intuição de Jaafar. Porque a dramaturgia, em geral, é bem primária, principalmente quando tenta tocar em conflitos fundamentais como os traumas, fabricação do mito, obsessão estética e isolamento, mas raramente os aprofunda.
O pai do astro, Joseph Jackson, surge quase como caricatura, e até os momentos mais intensos que poderiam causar um pouco mais de desconforto ao espectador acabam sendo ceifados pela direção com tomadas de decisões tão superficiais, dramatizadas com a profundidade de um pires; enquanto a mãe de MJ, Katherine Jackson, é simplesmente reduzida a repetições emocionais tão datadas, sem contar os irmãos, que mal registram presença quando aparecem em cena.
Todos orbitam o protagonista com a mesma função: endeusar o protagonista.
E essa talvez seja a grande frustração de “Michael”, pois quanto mais bate na tecla da magnitude do ícone, mais se distancia do homem. Ao transformar a trajetória em sucessão de momentos históricos e hits eternos, o filme revive o impacto do Rei do Pop e, quando tenta compreendê-lo, o faz da forma mais rasa possível. Mesmo dentro das restrições comerciais e biográficas – e elas são visíveis – o sentimento que fica é a falta de um olhar verdadeiramente inspirado cinematograficamente. A obra funciona como celebração, às vezes empolga como show, e encontra em Jaafar sua maior razão de existir. Mas, para um artista que redefiniu a cultura pop, isso parece pouco, além de ser feito da forma mais cínica possível.
A verdade é que o subgênero da cinebiografia em Hollywood tornou-se uma armadilha mais previsível do que nunca. Você sabe o que te espera, mesmo assim se surpreende com o excesso de endeusamento do protagonista, com a falta de poder imagético e com uma produção que busca apenas explorar a nostalgia do espectador. Uma pena.
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