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PL da Misoginia: Nikolas Ferreira abraça a cultura da desinformação para inflamar massas e esvaziar debates significativos

Pablo Valadares / Câmara dos Deputados
Nikolas Ferreira usa desinformação para deslegitimar propostas que combatem a misoginia no Brasil  |   Bnews - Divulgação Pablo Valadares / Câmara dos Deputados
Cauan Borges

por Cauan Borges

cauan.borges@bnews.com.br

Publicado em 12/04/2026, às 07h00



"A desordem informacional nasce quando conteúdos falsos ou distorcidos passam a disputar legitimidade com fatos verificáveis”, aponta a pesquisadora Claire Wardle, referência internacional nos estudos sobre fake news.

Manchetes errôneas, vídeos gerados por Inteligência Artificial, correntes mentirosas em aplicativos de mensagem ou simples boatos disfarçados de denúncia, a desinformação no Brasil deixou de ser acidente e assumiu forma de método.

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Não se trata mais de falhas isoladas, mas de um modelo que organiza parte relevante do debate público. O funcionamento não exige sofisticação; apenas um recorte fora de contexto, uma associação indevida e uma narrativa com alto potencial de indignação bastam.

A precisão perde espaço e o impacto imediato ocupa o centro do debate político.  Nessa conjuntura, o deputado mais votado do Brasil, com mais de 1 milhão de votos, Nikolas Ferreira (PL-MG), ganha o protagonismo do cenário político nacional. A figura da extrema-direita capitaliza a visibilidade a partir da circulação de conteúdos altamente mobilizadores — ainda que distorcidos.

Nikolas x “PL da Misoginia”

O Senado aprovou por unanimidade o Projeto de Lei nº 896/2023, que inclui a misoginia entre os crimes previstos na Lei do Racismo. O texto trata de discriminação contra mulheres, de práticas de ódio e de desqualificação baseada no gênero.

O texto é direto, sem margem para interpretações fantasiosas. Não há qualquer menção à criminalização de interrupções em debates ou situações triviais. Mesmo assim, foi exatamente essa a narrativa difundida.

Nikolas Ferreira publicou um vídeo de um debate político e afirmou que a situação mostrada levaria à prisão por misoginia. Para sustentar a afirmação, apresentou um trecho que menciona “interrupção constante da palavra” como forma de silenciar mulheres.

O trecho não existe no projeto aprovado.

O conteúdo pertence, na verdade, a outra proposta legislativa — o PL 4224/2024 — que sequer foi votado. O que se observa, portanto, não é erro interpretativo, mas sim uma fusão deliberada de textos distintos para fabricar um argumento pecaminoso.

Como dito anteriormente, os ambientes informacionais polarizados favorecem a circulação de conteúdos que reforçam crenças prévias, independentemente da veracidade. A informação não precisa ser correta; precisa ser funcional.

O trecho utilizado parece técnico, parece jurídico, parece legítimo, mas a aparência de autoridade substitui a verificação. A maioria da população não consulta a fonte original e a confiança se desloca para quem divulga e, como Nikolas aparece como um símbolo da verdade aos seus seguidores assíduos, a publicação tornou-se ‘verídica’.

A era da pós-verdade é marcada pela indiferença à verdade e pelo uso de fake news para manipular e polarizar sociedades", afirma o teórico Zygmunt Bauman.

É exatamente nessa seara que a responsabilidade política deixa de ser abstrata. A atuação parlamentar envolve acesso qualificado à informação e capacidade ampliada de alcance. Quando um conteúdo falso é apresentado como verdadeiro, não há apenas ruído, mas sim a interferência direta na formação da opinião pública.

A dinâmica da desinformação contemporânea ajuda a explicar esse fenômeno. Yochai Benkler, ao analisar ecossistemas digitais, aponta que a arquitetura das redes favorece a propagação de conteúdos polarizadores e emocionalmente carregados. O engajamento se torna critério dominante e a indignação vira moeda.

Na mesma linha, Danah Boyd destaca que a viralização não depende apenas da veracidade, mas da capacidade de gerar reação. O conteúdo que irrita, assusta e revolta os internautas tende a circular mais e a desinformação, portanto, deixa de ser efeito colateral e passa a ser instrumento comunicacional.

No caso do “PL da Misoginia”, Nikolas encosta e abraça com todas suas forças uma estrutura que o Brasil historicamente tenta suavizar ou negar. O machismo não aparece apenas em ataques explícitos na Câmara dos Deputados — ele se manifesta no cotidiano por meio da interrupção constante da fala feminina, da desconfiança automática sobre o que mulheres dizem e da violência simbólica que sustenta desigualdades intrínsecas em solo brasileiro.

O projeto aprovado busca, justamente, dar contorno jurídico, nome e consequência a esse padrão estrutural.

Ao distorcer o conteúdo da proposta, o discurso do parlamentar ‘queridinho’ da direita não apenas desinforma, mas também atua como extensão desse mesmo problema. A caricatura criada não é neutra e serve para deslegitimar uma pauta que confronta privilégios históricos. Ao transformar proteção em ameaça, o debate é deslocado e o foco sai da violência real para um cenário inventado.

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A dinâmica encontra eco em narrativas como a de “Entre Mulheres" (2022), que expõe como estruturas de poder masculinas silenciam e desacreditam mulheres enquanto tentam manter intacta uma ordem baseada na submissão. No longa-metragem, estrelado por Jessie Buckley e dirigido por Sarah Polley, a violência não depende apenas da força física — ela se sustenta na negação, na distorção dos fatos e na tentativa constante de controlar a narrativa.

Quando a realidade das mulheres é distorcida ou minimizada, o sistema que as oprime se preserva.

A pesquisadora Whitney Phillips descreve esse mecanismo, utilizado por outros políticos como Donald Trump e Margareth Tatcher, como “amplificação estratégica da confusão”. Não há interesse algum em esclarecer; o objetivo é embaralhar e enfraquecer a capacidade de julgamento do público.

Consequentemente, a pauta central desaparece e a violência de gênero deixa de ser discutida com seriedade. No lugar, surge uma controvérsia artificial, construída para gerar reação e mobilizar uma base já inclinada a rejeitar qualquer avanço nesse campo, como a extrema-direita no Brasil.

O caso que envolve o filho renegado de Jair Bolsonaro não se sustenta como exceção; é só olhar para o episódio da suposta taxação do Pix durante o ano passado, quando o deputado utilizou a mesma estratégia abordada na discussão do PL da Misoginia para atacar o atual governo sem embasamento e fundamentação.

Identifica-se um tema sensível → ativa-se o emocional → substitui-se o conteúdo real por uma narrativa mais conveniente para a população conservadora.

A repetição desse método desgasta a confiança em informações verificáveis e transforma o debate público em um terreno instável, onde versões de líderes do discurso competem mais do que fatos imutáveis.

Quando a desinformação se torna prática recorrente, deixa de ser um desvio de rota acidental e passa a ser estratégia. Com isso, o dano atinge diretamente a possibilidade de enfrentar a misoginia estrutural, vigente em todos os cômodos da sociedade brasileira e, infelizmente, caso comportamentos como esses permaneçam, a tendência é a deterioração de todos os cenários. Em ano de eleições, o alarme soará mais barulhento do que de costume. Agora, cabe aos incomodados pelo ruído decidirem se vão acordar ou não.

*Texto reflete exclusivamente a opinião do colunista e não representa, necessariamente, a posição editorial do BNews. 

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