Artigo
Publicado em 16/05/2025, às 11h07 Por Santiago Gómez*
Com a pandemia aconteceu que nem com as guerras: ninguém quer falar do que ocorreu. As guerras, como as pandemias, deixam tudo à vista. Vimos quem conseguiu se interessar pela vida dos outros, e quem só se interessou pela própria. Ouvimos pessoas dizer que não era nada, que era uma gripezinha. Vimos como foi manipulada a ignorância da maioria, fazendo pessoas acreditarem que dentro da vacina tinha um chip. O sistema de saúde viveu o que vivem os sistemas de saúde em guerra: saturação, colapsos, o desespero do pessoal da saúde vindo as pessoas morrerem, sem poder evitar essas mortes. Quem esteve na linha do fronte na pandemia, viu coisas das quais não consegue falar até hoje. E também, não tem com quem falar. E as pessoas que não conseguiram se despedir da pessoa amada? Receberam a notícia da morte pelo telefone e não tiveram a possibilidade de velório, de ir no enterro, de ver o corpo que nunca mais iriam ver. Daquilo ninguém está conversando, está todo mundo fazendo como que nada aconteceu, mas aquilo volta. Ou para dizer verdade: ainda está aqui. É só ver os índices de aumento de licenças por saúde mental; é só ver o aumento de venda de psicofármacos após a pandemia; é só conversar com quem trabalhou na saúde na pandemia e perguntar como é que a pessoa está. Está todo mundo sequelado, mas disso, ninguém quer falar, e é preciso.
Os afastamentos por saúde mental bateram recorde histórico em 2024, com 472.328 licenças, conforme dados do Ministério de Previdência Social. Claro que esses são dados de pessoas com CLT e que a licença foi informada, mas sabemos que a maioria da população brasileira não é CLT. Não adianta fazer a descrição dos diagnósticos pelos que a licença foi dada, é só ver a curva dos gráficos para observar que o aumento foi posterior à pandemia. E vamos continuar sem falar disso? Se pensarmos nos ambientes de trabalho, o melhor é falar ou fazer como que nada aconteceu? A possibilidade de compartilhar o vivido, alivia a vida. Por isso é preciso criar espaços de acolhimento para as pessoas que estiveram na linha do fronte, mas não só. Ninguém saiu igual que de como entrou na pandemia. Seja fisicamente, ainda nem sabemos direito os efeitos do vírus no nosso corpo, 80% da população foi assintomática. Seja emocionalmente, perdemos o equilibro emocional, perdemos familiares e muitos não tiveram a possibilidade de um ritual fundamental: o velório. O quê fazer com aquele abraço que quisemos dar e não pudemos?
E o medo? E os efeitos do medo? Porque para quem estava na linha do fronte, seja pessoal da saúde, seja pessoal de segurança, seja quem trabalhou no Estado, quem trabalhou no transporte público, não foi só o medo a morrer, quanto mais o medo de levar a peste para casa. E o sentimento de culpa daquilo? E as discussões familiares para as pessoas não irem trabalhar? E a tensão de cada dia de ter cometido algum erro ou distração que pudesse ter possibilitado o contato com o vírus? De tudo aquilo que as pessoas viveram, com quem conseguiram falar? Saí do SUS pouco antes da pandemia começar, tive a possibilidade de acompanhar às pessoas que tinham trabalhado comigo via on line. A maioria delas ficou sequelada. Aumentaram o consumo de álcool, passaram tomar psicofármacos e sem antes consumirem esse tipo de produtos. Passaram dizer que estão “com problemas de ansiedade”. Hoje tudo o que a gente tem dentro e não consegue colocar para fora é chamado de ansiedade… Numa roda de conversa sobre saúde mental, uma mulher disse para mim que ela tinha trastorno de ansiedade e, sem ter tido uma consulta com um profissional, estava segura do seu diagnóstico. Perguntei a ela se passasse ganhar dois mil reais a mais, se ela continuaria ansiosa, e ela respondeu que não. “Então o que você tem são problemas econômicos”, disse eu.
Foi muito duro o que a gente viveu na pandemia. Ficou tudo à vista. Vimos quem não quis faxinar a casa e preferiu chamar alguém para limpar, colocando em risco a vida da pessoa; e vimos quem teve que sair trabalhar, porque senão não tinha nada para comer, nem como pagar as contas. A primeira vítima de COVID que conheci foi Elias, trabalhava como segurança no prédio que morei em Pinheiros, São Paulo. A maioria quis que o pessoal de segurança continuasse indo. A gente viu quem esteve disposto a se arriscar pelos outros e quem preferiu colocar a vida dos outros em risco, pelo interesse próprio. Sabemos que quem vivia com muitas pessoas num espaço pequeno, não tinha outra opção que sair de casa para conseguir suportar o dia a dia. Sabemos que algumas pessoas que fizeram isso viveram coisas que não eram para viver, e não puderam denunciar porque não era para que estivessem na rua. Há muito para falar do que aconteceu na pandemia, mas quem que está disposto a ouvir?
São muitos os efeitos desta pandemia dos quais a maioria não quer falar. Se olharmos nas crianças, conforme dados de UNICEF, após a pandemia 40% das crianças com 7 anos não sabem ler. Antes da pandemia o número era 25%. Pensemos que um jovem de 20 anos hoje, quando começou a pandemia tinha 14 ou 15 anos. Pensemos nos efeitos nos processos cognitivos de crianças e jovens que tiveram que ficar trancadas em casa, isoladas, sem contato com outras crianças, ou outras pessoas da mesma idade. Mas pensemos também que a maioria da nossa juventude, durante a pandemia, não teve direito a acesso a educação pela internet, porque na casa não tinha internet, não tinha computador, e a metodologia digital não tinha como captar a atenção dessas crianças.
Há muito para falar. Há muito para ouvir. Há muito para acolher. São milhões as pessoas que precisam ser acolhidas após o que viveram na pandemia. Os efeitos da pandemia estão soando por todos lados e em todos nós. A gente tem a opção de parar e ouvir, ou simplesmente continuar fazendo diagnósticos em menos de 15 minutos e receitando psicofármacos.
*Santiago Gómez é escritor e psicanalista. Lic. Psicologia UBA, Mestre em Literatura pela UFSC, pesquisando o discurso colonialista.