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Prime Video exibe o lado mais cruel do streaming ao cancelar “Cangaço Novo”, enquanto aposta em adaptações tenebrosas e espetacularização de crimes reais

A decisão do Prime Video de cancelar “Cangaço Novo” levanta questões sobre a qualidade das produções e a lógica de mercado que prioriza audiência e custos  |  Divulgação / Prime Video

Publicado em 20/09/2026, às 07h30   Divulgação / Prime Video   Cauan Borges

O cancelamento de “Cangaço Novo” pelo Prime Video é, para mim, um crime inafiançável da Amazon. A série foi finalizada (forçadamente) após duas temporadas, sem um terceiro ano, em uma decisão que explicita um problema crescente na maioria das plataformas de streaming. Em suma, a qualidade de uma produção parece ter menos importância em relação à audiência, custo, retenção de assinantes e retorno financeiro.

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Criada por Mariana Bardan e Eduardo Melo, a obra estreou em 2023 com Allan Souza Lima, Alice Carvalho e Thainá Duarte no elenco principal. A trama acompanha Ubaldo, um bancário que retorna ao Nordeste e descobre a relação das irmãs Dinorah e Dilvânia com um cangaço contemporâneo.

A série levou o sertão nordestino para o centro da narrativa sem tratá-lo apenas como paisagem e alcançou o Top 10 do Prime Video em dezenas de países. A segunda temporada chegou ao catálogo em abril de 2026, quase três anos depois da primeira, e registrou audiência 40% menor. Segundo apuração da Folhapress, o custo de produção também pesou na decisão.

Após o anúncio do cancelamento de "Cangaço Novo," o crítico e influenciador de cinema PH Santos chamou atenção para justamente esse intervalo, já que uma série que demora anos para retornar precisa reconstruir a relação com o público em um mercado no qual dezenas de novas produções surgem nesse período.

O problema é que o espectador cria vínculo com personagens e histórias sem saber se terá a oportunidade de conhecer o desfecho. Uma produção pode circular internacionalmente, revelar atores, representar uma identidade cultural e ainda desaparecer quando os números não correspondem às expectativas internas da plataforma.

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Semelhante ao que ocorreu com a produção brasileira, a série "Spider-Noir", estrelada por Nicholas Cage, também foi cancelada, apesar de ter recebido 92% de aprovação da crítica e 90% do público no Rotten Tomatoes. Além disso, recebeu 11 indicações ao Emmy, o maior número de qualquer série do Prime Video em 2026.

Na sua primeira semana de lançamento, o live-action estreou em segundo lugar no ranking da Nielsen, com 851 milhões de minutos assistidos, e acumulou 2,6 bilhões de minutos assistidos em seis semanas. Contudo, a série não conseguiu manter o mesmo sucesso de outras produções da plataforma, como "Off Campus", "Reacher" e "Parceiras no Crime", e saiu rapidamente do Top 10 diário.

Assista:

Será o alto custo mesmo?

É difícil não relacionar esse cenário à própria estratégia do Prime Vídeo, já que a Amazon tem ampliado seus investimentos em direitos esportivos, incluindo a renovação das transmissões da Copa do Brasil até 2030, enquanto continua apostando em produções brasileiras com propriedades que já chegam ao público acompanhadas de reconhecimento prévio.

Enquanto isso, a plataforma continua a investir em adaptações que considero pouco inspiradas, como “Minha Culpa”, “Maxton Hall – O Mundo Entre Nós” e “56 Dias”, além de histórias sobre criminosos brasileiros em produções como “Tremembé”, “A Menina que Matou os Pais” e “Maníaco do Parque”.

É importante destacar que não há problema em adaptar livros (mesmo que ruins) ou abordar crimes reais de forma espetacularizada, a questão está na diferença entre apostar em uma propriedade que já possui curiosidade e público e financiar uma ficção que precisa construir seu próprio interesse.

"Cangaço Novo", série cancelada da Prime Video - Foto: Divulgação / Prime Video
"Cangaço Novo", série cancelada da Prime Video - Foto: Divulgação / Prime Video
"Cangaço Novo", série cancelada da Prime Video - Foto: Divulgação / Prime Video
"Cangaço Novo", série cancelada da Prime Video - Foto: Divulgação / Prime Video
"Cangaço Novo", série cancelada da Prime Video - Foto: Divulgação / Prime Video
"Cangaço Novo", série cancelada da Prime Video - Foto: Divulgação / Prime Video

“Cangaço Novo” fazia justamente isso, pois não dependia de uma pessoa real conhecida, de um crime que já ocupava o imaginário popular ou de uma franquia estabelecida. A obra explorava personagens originais e conflitos a partir de referências do Nordeste brasileiro. Ainda assim, encontrou uma barreira que não aparece necessariamente na avaliação artística da produção.

Esse aspecto tende a se tornar mais escancarado quando comparado com a Apple TV+, especialmente após a plataforma ter recebido 89 indicações ao Emmy em 2026 e encerrado a cerimônia com 28 estatuetas. Destaque da noite de premiação, "O Segredo de Widow's Bay" ganhou 14 prêmios. Isso não implica que haja uma fórmula única para a produção televisiva, mas pode ser um indicativo de que prestígio artístico e estratégia empresarial podem coexistir no mesmo projeto.

Além disso, o Prime Video não fica atrás em termos de recursos e a empresa multibilionária segue investindo no Brasil e divulgou novos projetos para o país. A questão é como esses recursos são alocados e quais histórias têm a chance de se desenvolver.

PH Santos sintetizou esse conflito ao enfatizar que uma empresa do porte da Amazon poderia apoiar uma produção como "Cangaço Novo", se visse o audiovisual também como um investimento cultural, ao passo que sua lógica empresarial demanda decisões pautadas por planilhas. É difícil contestar esse argumento, já que uma plataforma privada deve levar em conta seus custos, mas o entretenimento também gera um impacto que não pode ser medido apenas por métricas de audiência.

O problema foi agravado pelo próprio formato da série, que é dispendiosa, com um intervalo de quase três anos entre as temporadas e uma audiência reduzida no segundo ano, enfrentando um desafio real dentro do modelo vigente. Enquanto o público precisa relembrar a trama, os personagens e os motivos que o levaram a assistir à primeira temporada, a plataforma deve determinar rapidamente se vale a pena prosseguir com os investimentos.

Por isso, o desfecho de "Cangaço Novo" me incomoda tanto, não porque a Amazon precisa sustentar uma série para sempre, mas porque o caso evidencia como o streaming pode converter qualquer narrativa em uma equação de custo e audiência. Se esse for o principal critério, produções com identidade própria terão cada vez mais dificuldade para competir com franquias, adaptações, crimes conhecidos e propriedades que já chegam com público.

Alice Carvalho afirmou, após o cancelamento, que a decisão do Prime Video era “triste e inacreditável” e estava fora do controle da equipe. De forma contundente, a declaração da atriz resume uma situação que se tornou comum no streaming: quem cria a história pode não ter qualquer poder sobre o momento em que ela termina.

"Cangaço Novo" conquistou público tanto no Brasil quanto no exterior, colocou o Nordeste no centro de sua própria narrativa e ampliou a visibilidade de artistas. Mesmo assim, não foi o bastante. Possivelmente, esse é o ponto mais alarmante de uma indústria em que o público pode levar anos para criar um vínculo com uma história sem nenhuma certeza de que a plataforma permitirá que ela seja concluída.

Eu descobri que as coisas mudam / E que o sertão é dentro da gente / E que a vida é um rio que corre / Pro mar do esquecimento." - trecho de "Chão de Giz", música de Zé Ramalho.

Classificação Indicativa: Livre


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