Artigo
Em tese, a sala de cinema deveria ser um dos poucos lugares em que o público aceita, por algumas horas, deixar o celular de lado, esquecer as frequentes notificações e simplesmente se entregar a uma história. No entanto, em Salvador, essa experiência diante das telonas tem sido cada vez mais intragável.
Fugindo da generalização, o problema não está necessariamente nas salas, nas telas ou nos filmes escolhidos. Está em uma parte do público que parece ter esquecido que existe mais gente pagando pelo mesmo ingresso e que ninguém deveria precisar disputar atenção com uma conversa em voz alta, uma tela de celular acesa ou uma gravação clandestina do filme.
📲 Clique aqui e leia a última matéria da coluna de cultura!
Não é necessário procurar muito para encontrar relatos de espectadores que saíram de uma sessão irritados com o comportamento de quem estava ao lado. Pessoas conversando em voz alta, comentando cada cena, usando redes sociais durante a projeção, deixando o volume do celular ligado, gravando trechos da tela e até apoiando os pés nas poltronas da frente fazem parte de uma lista de reclamações que já deixou de ser pontual e tornou-se algo frequente na vida dos cinéfilos.
O problema aparece em diferentes filmes, horários, redes e shoppings, o que mostra que não se trata apenas de uma falha de determinada empresa, mas de uma mudança preocupante na maneira como parte do público encara o espaço coletivo.
As sessões do sucesso de bilheteria e mais novo filme do Universo Cinematográfico Marvel, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” (2026), também ajudam a dimensionar a situação. Produções desse porte, conhecidas como “blockbusters” ou “filmes eventos”, costumam atrair um público numeroso, especialmente adolescentes, jovens e famílias, e a expectativa em torno de uma produção desta dimensão naturalmente cria momentos de maior reação na plateia.
Ainda assim, entusiasmo não deveria significar abandono completo das regras mais elementares de convivência. Se uma cena provoca uma comemoração espontânea, isso faz parte da experiência. No entanto, quando uma pessoa decide passar parte da sessão conversando, narrando cada mísera cena do filme, mexendo no celular, gravando a tela ou atrapalhando quem está atrás, a situação é outra.
Há uma diferença enorme entre reagir a obra exposta em tela e impedir que outra pessoa consiga assisti-lo e, infelizmente, essa divergência parece ter desaparecido em algumas salas. Ao analisar o comportamento dos espectadores durante as sessões da cinebiografia do Rei do Pop, “Michael” (2026), o crítico de cinema Roberto Sadovski fez justamente essa distinção ao comentar a discussão sobre o comportamento das plateias em grandes lançamentos.
Eu acho que tem uma diferença entre um público que está interagindo com o filme e um público mal-educado. São coisas completamente diferentes”, afirmou ao UOL.
Para Sadovski, uma reação coletiva em determinados momentos pode fazer parte da experiência cinematográfica. O problema começa quando a atitude de parte do público deixa de ser uma reação ao filme e passa a atrapalhar quem está ao redor.
O uso celular talvez seja um dos exemplos mais irritantes dentro das salas de cinema em todo o Brasil. Não basta a luz da tela, que já é suficiente para quebrar a concentração de quem está sentado próximo. Para agravar a situação, existem espectadores que respondem mensagens, acessam redes sociais, assistem a vídeos e deixam o som ligado.
É difícil compreender como alguém paga por um ingresso e escolhe passar parte da sessão olhando para o Instagram ou para o WhatsApp. Mais grave ainda é quando o celular deixa de ser usado para consultar alguma coisa e passa a servir para gravar o filme. Além de prejudicar a própria experiência, a prática desrespeita o trabalho de quem produziu a obra e as demais pessoas presentes no ambiente.
Não há justificativa razoável para tais atos, além de ser invasivo, a ação de registrar cenas durante uma sessão por conta de determinada sequência pode até parecer interessante, porque o espectador quer publicar um trecho nas redes sociais, mas é apenas um reflexo da falta de discernimento e excesso de estupidez de certos indivíduos
O consumidor paga caro para ter uma experiência que deveria ser confortável, compra pipoca, bebida, enfrenta trânsito, procura vaga, chega ao shopping e escolhe um horário específico. Quando finalmente se senta na poltrona, descobre que o maior obstáculo para aproveitar o filme não está na qualidade da produção, mas nas pessoas que estão ao seu redor.
Com o monopólio dos ‘multiplex’ nos shoppings e a ausência dos cinemas de rua na capital baiana, o acesso à sétima arte deixou de ser uma atividade barata para grande parte das pessoas. Além do ingresso, existe o estacionamento ou transporte, a alimentação e, muitas vezes, o custo de levar outras pessoas. Quando a experiência é ruim por causa do comportamento de terceiros, fica a sensação de que o dinheiro foi gasto para passar raiva.
Talvez seja por isso que a ideia de recuperar a figura dos antigos ‘lanterninhas de cinema’ tenha voltado a aparecer nas discussões entre frequentadores. Para quem não viveu essa época, o lanterninha era o funcionário responsável por orientar o público e, principalmente, ajudar a manter a ordem dentro da sala. O trabalhador podia conduzir alguém até seu assento quando a sessão já havia começado, mas também exercia uma função de fiscalização sobre o comportamento dos espectadores.
Presidente Lula, por favor, construa o Plano Nacional de Retorno dos Lanterninhas aos Cinemas. As pessoas precisam ser constrangidas”, afirmou um usuário do X (antigo Twitter), no dia 24 de agosto. O post ultrapassou 770 mil visualizações, com mais de 35 mil curtidas.
Confira alguns comentários:
presidente Lula, por favor, construa o Plano Nacional de Retorno dos Lanterninhas aos Cinemas
— Rafael Kritski (@rkritski) August 24, 2026
as pessoas precisam ser constrangidas
redes de cinema do Brasil eu aceito pagar 10x mais o valor do ingresso se colocarem lanterninhas armados em sessões de alta demanda ✍🏻📝
— Guilherme Lima 🏴☠️🇦🇲🇭🇰🇧🇷 (@oguiizao) July 31, 2026
PELA VOLTA DOS LANTERNINHAS NO CINEMA!!!! Fui no cinema e uma corna ficou filmando o filme todo e upando do tik tok atrapalhando todo mundo so parou pq minha mãe e um cara começaram a fazer sons para atrapalhar a gravação dela mais ela gravou metade do filme
— laís⁷៹ (@jhopecomics) June 4, 2026
amigos, quando forem ao cinema lembrem de calar a boca
— euhipe (@EuHipe) June 7, 2026
A profissão começou a desaparecer na segunda metade dos anos 1970 e foi gradualmente extinta ao longo das décadas de 1980 e 1990 no Brasil. A época de ouro desse profissional ocorreu entre as décadas de 1950 e 1970.
Historicamente, não houve uma única decisão nacional que tenha simplesmente determinado o fim do ofício. O desaparecimento ocorreu gradualmente, dentro das transformações econômicas e estruturais pelas quais passaram os cinemas brasileiros.
Um estudo acadêmico sobre os cinemas Lido I e II, no Paraná, registra que, à medida que as salas começaram a enfrentar esvaziamento e precisaram adotar medidas para reduzir custos e aumentar a rentabilidade, diversos elementos tradicionais da experiência cinematográfica foram desaparecendo e, entre eles, estava justamente “a figura do lanterninha”.
A partir das décadas finais do século XX, muitos antigos cinemas de rua perderam espaço, enquanto os complexos instalados em shoppings ganharam força. Com estruturas mais automatizadas e uma busca maior por redução de custos, funções que antes faziam parte da rotina das salas deixaram de existir.
A ironia é que a economia que ajudou a retirar o lanterninha das salas também eliminou uma das poucas figuras responsáveis por fiscalizar o comportamento do público. Hoje, quando alguém passa a sessão inteira falando, usa o celular com o som ligado ou incomoda quem está sentado ao redor, muitas vezes não existe ninguém dentro da sala com a função específica de intervir.
O espectador que se sente prejudicado é forçado a escolher entre suportar o incômodo, confrontar o outro cliente ou abandonar a sessão. Pode parecer exagero defender a volta de uma fiscalização mais rigorosa dentro das salas, mas talvez o verdadeiro exagero seja aceitar que uma pessoa compre um ingresso e não consiga assistir ao filme porque outro espectador decidiu conversar durante toda a sessão.
E nem mesmo a defesa de um novo modelo de lanterninha precisa significar o retorno literal de uma profissão do passado. O próprio Sadovski defendeu a possibilidade de uma nova geração desses profissionais. Para o crítico, a função poderia ser adaptada ao comportamento atual das plateias: “Eu sou a favor de uma geração de lanterninhas que seja bem treinada e que seja uma coisa divertida também”, afirmou.
O professor e pesquisador Julian Hanich, da Universidade de Groningen, defende que assistir a um filme em uma sala, com outras pessoas, pode ser entendido como uma forma de ação conjunta. Em seu estudo “Watching a Film With Others: Towards a Theory of Collective Spectatorship", publicado na revista acadêmica Screen, o especialista argumenta que espectadores reunidos diante de uma mesma obra não estão simplesmente realizando atividades individuais ao mesmo tempo.
📲 Clique aqui e inscreva-se no canal do BNews no Youtube!
Existe uma atividade compartilhada, baseada em uma intenção coletiva e na atenção conjunta ao filme. Em outras palavras, assistir ao cinema é também dividir uma experiência com o próximo. É exatamente por isso que o comportamento de uma pessoa pode interferir diretamente na experiência de dezenas de outras.
Apenas o som da voz de alguém funciona na quebra da atenção coletiva, já que a sala inteira foi construída para concentrar um exato número de indivíduos em uma mesma tela, e qualquer comportamento que desvie a atenção interfere diretamente na experiência de quem está tentando acompanhar a história.
O cinema continua sendo uma experiência coletiva e, definitivamente, esse é o seu maior encanto. Se filmes como o novo Homem-Aranha, ou a cinebiografia de Michael Jackson, também enfrentam episódios de indisciplina, a discussão precisa ir além de uma reclamação nas redes sociais. As exibidoras precisam pensar em formas mais efetivas de orientar e, quando necessário, intervir.
Além da participação direta das redes de cinema, o público também necessita entender, urgentemente, que educação básica não deveria depender da presença de um funcionário, embora a ausência de alguém responsável pela fiscalização não possa servir como desculpa para transformar a sala em território sem regras.
O cinema precisa voltar a ser um lugar onde as pessoas consigam assistir ao filme pelo qual pagaram (parece uma exigência básica) e, justamente por ser tão básica, é preocupante que tenha se tornado uma reclamação tão frequente.
Se o ato de ir ao cinema quiser continuar sendo uma experiência excepcional, o mínimo que se pode pedir é que o público volte a entender uma regra muito simples, a de que você não está sozinho.
Classificação Indicativa: Livre
Imperdível
Ótimo preço
som poderoso
Top dos Tops
Super desconto