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Se “Lanternas” incomoda o fã médio ao discutir racismo e política, é sinal de que a série está no caminho certo

Série 'Lanternas' revela a formação de John Stewart e suas relações familiares e questiona: o que significa ser um herói?  |  Divulgação / HBO MAX - DC Studios

Publicado em 06/09/2026, às 08h30   Divulgação / HBO MAX - DC Studios   Cauan Borges

Existe uma dificuldade cada vez maior em discutir filmes e séries na internet sem reduzir uma obra a uma etiqueta. Quando uma produção aborda racismo, desigualdade ou conflitos sociais, parte do público rapidamente a classifica como “woke”, “lacração” ou “politizada”, como se discutir questões políticas e sociais fosse incompatível com uma história de super-heróis.

O problema, nesse caso, não está em a obra ser política, mas na tentativa de desqualificá-la justamente por tratar de temas que fazem parte da realidade. Como explica a psicóloga e pesquisadora de relações étnico-raciais Lia Vainer Schucman: "o racismo não produz só violência e desigualdade, ele produz também uma forma de ignorância. Uma dificuldade real de compreender o mundo".

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O problema é que essa crítica parte de uma ideia equivocada sobre o que significa uma obra ser política. A construção de uma ideia politizada não está apenas em eleições, partidos ou governos, mas também está nas relações de poder, no trabalho, na família, na desigualdade, na maneira como diferentes grupos ocupam espaços na sociedade e até na forma como uma pessoa é criada.

Nesse sentido, não existe obstáculo algum em uma série tratar de aspectos políticos. O problema seria uma obra não ter nada a dizer sobre o mundo em que está inserida.

Os três primeiros episódios da série “Lanternas”, criada por Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King para o Universo Cinematográfico da DC Studios, mostram justamente o contrário, principalmente no terceiro capítulo, que abandona por alguns momentos a investigação principal para contar a história de John Stewart, personagem vivido por Aaron Pierre.

O episódio, talvez o melhor da produção até agora, apresenta John para além do uniforme e do anel. A série volta à sua infância e mostra como a relação com os pais influenciou diretamente o homem que se tornou. Desde pequeno, John é preparado para ser um Lanterna Verde, e o problema é que essa preparação não acontece a partir do desejo da criança, mas daquilo que seus pais acreditam que o filho precisa ser.

A família passa a enxergar o menino como alguém que precisa estar pronto para ocupar um espaço que, para os genitores, exige muito mais do que coragem. John precisa aprender a não demonstrar medo, a suportar pressão e a não cometer erros, tratado como um soldado antes mesmo de compreender o que significa ser uma criança.

A série mostra esse processo sem transformar os pais em vilões simples, porque existe ali uma mistura de proteção, orgulho, ressentimento e medo de que o filho não consiga alcançar aquilo que eles acreditam que lhe pertence, ou seja, são personagens dúbios e com decisões moralmente questionáveis, mas que carregam um ideal forte.

John realmente nasceu para ser um Lanterna ou foi treinado durante toda a vida para acreditar que esse era o seu destino? Mesmo que a série não responda diretamente, a ideia que fica é que a obra parece muito mais interessada na segunda possibilidade. O personagem passou tanto tempo sendo preparado para aquela função que quase não teve espaço para descobrir quem seria se não precisasse cumprir as expectativas da família.

"Lanternas", série da HBO Max/DC Studios - Foto: Divulgação / HBO
"Lanternas", série da HBO Max/DC Studios - Foto: Divulgação / HBO
"Lanternas", série da HBO Max/DC Studios - Foto: Divulgação / HBO
"Lanternas", série da HBO Max/DC Studios - Foto: Divulgação / HBO
"Lanternas", série da HBO Max/DC Studios - Foto: Divulgação / HBO
"Lanternas", série da HBO Max/DC Studios - Foto: Divulgação / HBO

“Politizou demais”

Como apontado no início do texto, a discussão racial entra justamente nesse contexto da narrativa. Uma parte do público interpretou o episódio como uma afirmação de que Hal Jordan recebeu o anel por ser branco, enquanto o pai de John foi rejeitado por ser negro. Mas essa não é exatamente a informação apresentada pela série. O pai de John foi considerado para receber o anel e acabou sendo rejeitado depois de admitir que sentia medo. Hal, por sua vez, respondeu de maneira diferente ao teste e foi escolhido.

O que existe no episódio é a percepção da família Stewart sobre essa situação, já que, para os genitores, aquela rejeição não pode ser separada da experiência de ser uma família negra nos Estados Unidos. A série não precisa afirmar que os Guardiões são racistas para mostrar que os Stewart enxergam o episódio dessa maneira. É justamente essa diferença entre o que aconteceu e a maneira como uma família interpreta o que aconteceu que dá força ao conflito.

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Amplamente detonada nas redes sociais por espectadores médios e com pouca capacidade cognitiva após o lançamento do capítulo 'polêmico' de "Lanternas", a roteirista Vanessa Baden Kelly, responsável pelo terceiro episódio da obra, comentou essa discussão e a repecussão negativa por parte dos fãs, em entrevista ao renomado jornal norte-americano The Hollywood Reporter.

Parece que as pessoas absorveram dele (episódio) aquilo que deveriam absorver. Parece que ele toca as pessoas da maneira certa. Parece que os debates sobre se os Stewart eram abusivos ou não foram exatamente os debates que esperávamos promover. Ainda existe um grupo realmente irritado com isso. Eles estão furiosos, fazem barulho e dizem coisas grosseiras, mas isso faz parte do jogo”, afirmou Kelly.

O trecho da entrevista de Vanessa ajuda a entender que a intenção não era apresentar uma resposta simples sobre os pais de John. O episódio quer justamente provocar a discussão sobre até onde uma família pode ir para preparar uma criança para um mundo que considera mais difícil para a roteirista. No caso de John, essa preocupação cria uma infância em que se aprende primeiro a obedecer e só depois a descobrir o que realmente gosta.

Essa construção dos sentimentos intrínsecos do protagonista fica evidente nas cenas em que o ‘pequeno lanterna’ desenha. John sorri quando está com lápis e papel, algo que não acontece com a mesma frequência quando ele está treinando, seguindo ordens ou tentando corresponder às expectativas dos pais. A série encontra nesses momentos uma maneira de mostrar que existe uma parte dele que ficou escondida durante anos. Antes do soldado e do Lanterna Verde, existia uma criança que queria desenhar.

Criado por Dennis O'Neil e Neal Adams em 1971, John Stewart foi inserido na HQ “Green Lantern #87”,  justamente durante uma fase de “Green Lantern/Green Arrow” (Lanterna Verde e Arqueiro Verde), iniciada em 1970 a partir da edição #76 da revista “Green Lantern”, marco histórico nos quadrinhos norte-americanos que revolucionou a DC Comics ao introduzir temas sociais e políticos do mundo real. 

Em síntese, Adams queria que John fosse diferente dos estereótipos associados aos personagens negros nos quadrinhos daquele período. O personagem deveria ser um homem negro formado, com profissão e uma trajetória própria. John se tornou arquiteto nas HQs, característica que a série da HBO adapta ao mostrar seu interesse pelas artes.

“Green Lantern #87” - Foto: Divulgação / DC Comics
“Green Lantern #87” - Foto: Divulgação / DC Comics
“Green Lantern #87” - Foto: Divulgação / DC Comics
“Green Lantern #87” - Foto: Divulgação / DC Comics

Por isso, a acusação de que “Lanternas” inventou uma dimensão racial para o personagem não se sustenta completamente. A questão racial sempre esteve presente na construção de John Stewart. A diferença é que a série escolheu abordar esse aspecto por meio da família e da formação emocional do personagem, em vez de simplesmente colocá-lo em situações nas quais o protagonista precisa discursar sobre racismo.

O episódio também mostra como a ideia de ser um herói pode ter significados diferentes para John e para seus pais. Segundo o sentimento dos pais, a criança precisa ser escolhida porque isso representa uma espécie de reconhecimento.

Para John, depois de tantos anos de preparação, ser escolhido parece quase uma obrigação, pois finalmente consegue aquilo que esperava desde pequeno, mas o espectador sabe que existe uma pergunta que a narrativa ainda não respondeu: era isso que ele queria ou era simplesmente aquilo que ensinaram que ele deveria querer?

Inserido nesse conflito em tela, o garanhão Aaron Pierre encontra a melhor parte de sua atuação. John é um personagem fechado e pouco disposto a demonstrar vulnerabilidade, mas o ator consegue transmitir essa história sem precisar explicá-la o tempo inteiro. Quando o personagem expõe o que perdeu para chegar até ali, existe uma tranquilidade que torna a situação ainda mais desconfortável, sem parecer arrependido, pois o pupilo de Hal Jordan realmente acredita que valeu a pena.

De forma mais que positiva, “Lanternas” não apresenta John Stewart apenas como um homem negro que ganhou um anel e se tornou um super-herói. A série tenta explicar como aquela persona foi formada e por que se comporta daquela maneira. Obviamente, o racismo estrutural faz parte dessa história, mas não inteiramente.

Por isso, reduzir o terceiro episódio a “politização” significa deixar de lado uma discussão muito mais interessante. E, mais do que isso, parte de uma premissa estranha e cada vez mais cansativa: a de que uma obra de entretenimento deveria existir fora das questões políticas que fazem parte da sociedade. 

Uma família que decide como criar um filho está fazendo escolhas influenciadas por valores e pela própria visão de mundo. Um personagem negro tentando ocupar um determinado espaço profissional está inserido em uma sociedade marcada por relações raciais. Uma história sobre poder, medo, autoridade e desigualdade inevitavelmente toca em política.

É importante frisar que isso não significa que toda obra politizada seja maravilhosa ou que qualquer mensagem política deva ser aceita sem crítica. Uma série pode ter uma abordagem ruim, simplista ou até contraditória sobre determinado assunto. O público tem todo o direito de discordar. O que não faz muito sentido é tratar a presença da política como um defeito por si só, principalmente quando estamos falando de um personagem cuja própria criação esteve ligada a discussões sociais.

John Stewart sempre foi isso

O personagem surgiu nas páginas dos quadrinhos em uma época na qual já se discutia racismo, desigualdade e outros conflitos da sociedade dos Estados Unidos. A dimensão política não foi colocada no personagem décadas depois por uma equipe interessada em atualizá-lo para uma agenda contemporânea, pois estava lá desde o começo. O que “Lanternas” faz é escolher outra maneira de contar essa história.

A série desmantela uma família que acredita estar preparando uma criança para vencer em um mundo que não pretende facilitar sua vida. Está expondo em tela pais que confundem proteção com controle e sobre um filho que passou tanto tempo tentando corresponder às expectativas que talvez ainda não tenha descoberto completamente quem é.

O terceiro episódio funciona porque, no fim, a pergunta não é apenas se John Stewart merece ser um Lanterna Verde. É quanto da vida dele foi necessário sacrificar para que o protagonista interpretado por Pierre acreditasse que merecia.

Classificação Indicativa: Livre


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