Artigo

Um Doce Natal

  |  Arquivo pessoal

Publicado em 31/12/2024, às 13h59   Arquivo pessoal   Jolivaldo Freitas*

O começo do dia

Era uma manhã de Natal fria e cinzenta. Maria, uma menina de oito anos, caminhava descalça pelas ruas de uma cidade que parecia não enxergá-la. Carregava uma pequena cesta com doces que ninguém comprava, apesar de seus olhos grandes e esperançosos que imploravam por atenção. Ela não sabia dizer como havia chegado ali, sozinha e sem rumo, mas aquela era a única vida que conhecia.

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A rotina do abandono

As ruas eram cheias de luzes, que brilhavam nas vias principais, embora o Comério estivesse com a totalidade de lojas, escritórios e prédios públicos fechados e fechavam antes do anoitecer por causa da violência e isso também impedia a circulação das pessoas que procuravam se distanciar do local pela péssima fama. Ninguém queria correr riscos e muitos evitavam ter de passar entre moradores de rua e usuários de crack dormindo como zumbis nas calçadas e protegidos precariamente pelas velhas marquises.

As músicas natalinas tinham sumido dos estabelecimentos, mas as luzes colocadas a título de decoração estavam acesas o que levava iluminação para as avenidas, mas em nada tirava o teor escuro das vielas e das velhas ruas criadas pelos portugueses ao rés das encostas e ladeiras. Para Maria, tudo era silêncio. Estava exausta de mais um dia em que sentara na calçada da avenida movimentada, com a cesta no colo e a barriga doendo de fome. Tentava chamar os transeuntes, oferecendo seus doces com um sorriso tímido, mas eles passavam sem notar sua existência.

O peso da solidão

Conforme o dia avançava, Maria sentia-se cada vez mais invisível. Crianças bem vestidas brincavam nas praças, famílias tiravam fotos em frente às vitrines decoradas sem esmero, estudantes das faculdades e trabalhadores de telemarketing pipocavam e sumiam. A menina só queria um pouco do que parecia tão abundante para os outros: calor humano. “Será que alguém me verá hoje?”, pensava, sempre que o dia se renovava, até o sol se pôr.

O frio da noite

Agora que a noite caiu, o vento ficou mais gelado. Maria, sem roupas adequadas, encolhia-se num canto da praça que recebera nome em homenagem aos ingleses. O movimento nas ruas diminuía cada vez mais, mas sua fome só aumentava. Ela segurava um dos doces que vendia e olhava para ele, tentando resistir à vontade de comê-lo. Aquele doce era sua única esperança de atrair alguém que pudesse ajudá-la.

A esperança quase perdida

Às nove da noite, Maria chorava baixinho, escondendo o rosto com as mãos. Os fogos de artifício lá longe, no céu da ilha anunciavam a chegada da noite de Natal, mas tudo o que ela sentia era um vazio esmagador. Nem mesmo os doces em sua cesta pareciam valer algo. Ela pensava se deveria desistir, abandonar tudo e deitar na calçada para esperar que o sono a levasse.

O último esforço

Maria decidiu dar uma última volta pela praça, agora praticamente deserta. Aproximou-se de uma família que saía de um trailer que vendia cahorro-quente, mas foi ignorada. Tentou falar com um homem que entrava num carro, mas ele apenas balançou a cabeça. Ela estava prestes a desistir quando viu uma mulher e um homem com duas crianças pequenas caminhando na direção oposta.

O encontro inesperado

A mulher, chamada Ana, parou ao vê-la. “Você está bem, querida?”, perguntou com a voz cheia de ternura. Maria hesitou, assustada com a atenção inesperada, mas balançou a cabeça negativamente. O casal olhou para ela, para a cesta de doces e para seus pés descalços. A expressão de Ana se transformou em tristeza, e ela se abaixou para ficar na altura da menina.

A conexão

“Está sozinha?”, perguntou Ana, e Maria apenas murmurou um “sim”. As duas crianças do casal se aproximaram, segurando as mãos da mãe, e uma delas ofereceu a Maria um pedaço do algodão doce que estava mordendo. A menina aceitou, emocionada, e seus olhos se encheram de lágrimas. Sem olhar para os filhos ou para o marido que se mantinha próximo olhando tudo, Ana perguntou. Você é sozinha? Você não tem família? Clara disse que não e foi o menino, com a cara suja de algodão, quem peguntou: “Você quer passar a noite com a gente?”, Ana repetiu a pergunta, enquanto o marido assentia silenciosamente.

O milagre de Natal

Maria hesitou por um momento, mas o sorriso acolhedor de Ana e o gesto gentil das crianças a convenceram. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se vista, como se alguém realmente se importasse com ela. A família levou Maria para sua casa, onde a alimentaram, deram-lhe roupas limpas, viu os pacotes com papéis coloridos embaixo de uma árvore de Natal, que só tinha visto brilhando nas lojas. Comeu, participou da ceia timidamente, embora incentivada a se animar pela família que estava feliz com aquela nova e inesperada presença. Gostou da fatia de parida e do pão de Natal, mas enjoou do panetone com aqueles pedacinhos de doces misturados à massa de pão. Com a barriguinha cheia e quente foi dormir com as outras crianças

Um novo começo

Na manhã de Natal, Maria acordou em um quarto simples, mas acolhedor, uma cama fofa como nunca tinha experimentado, bem diferente do colchão fino e rasgado em que costumava dormir junto com as mulheres da zona do Comércio. Tinha até travesseiro e o que mais gostou foi o cheirinho gostoso dos lençóis e da fronha estampada com pássaros. Pássaros bonitos, diferentes dos pombos e dos bem-te-vis dos oitizerisos do Comércio. Ao levantar-se, seus pés tocaram em algo liso e frio. Se assustou, olhou para baixo e viu com um pequeno embrulho de presente ao lado da cama. Era seu presente de Natal que Papai Noel, pela primeira vez, trouxera lembrando-se dela. Uma boneca que sorria, piscava e cantava, a primeira que ela já tivera. Ao descer para o café da manhã, Ana e o marido a abraçaram e perguntaram se foi boa a noite e ela disse que sim, tomando coragem e abraçando o casal, dizendo muito obrigado.  Disseram que queriam que ela, a partir dali, fizesse parte de sua família. Maria teve medo, se encaminhou para a porta quando um dos meninos disse, pegando sua mão. "Não tenha medo que você agora é nosssa irmã". Maria pensava naqueles que estavam em pleno dia de Natal nas ruas do Comércio sem serem vistos pela cidade. Pensou, pensou, pegou sua cesta de doces e, sem falar nada, abaixou os olhos e tirou a sandália que tinha trazido quando chegara. Ao entregar, foi cercada por toda a família. Estava rodeada de amor. Ela distribuiu os doces da cestinha com todos e pensou que pertencia a um lar. Calçou de novo as sandálias e entrou em sua nova casa. Era o Natal mais doce de sua vida.

Classificação Indicativa: Livre


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