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Vilipêndio: violência contra a mulher ultrapassa a morte e atinge corpos e dignidade

A psicóloga Natiane Matos discute os danos psicológicos da violência contra a mulher e seu impacto nas famílias das vítimas  |  Foto: Reprodução / redes sociais

Publicado em 20/09/2026, às 08h00   Foto: Reprodução / redes sociais   Natane Ramos

Ao longo dos anos, o corpo da mulher sempre esteve marcado por diversas formas de violência. Da imposição sobre como se vestir, até a violência física e sexual, a figura feminina foi tratada como algo em que os homens poderiam exercer poder, desumanizando a pessoa por trás da carne.

Com o recente caso da influenciadora e tiktoker Maria Eduarda Alves, conhecida como Duda Alves, que mesmo após o falecimento foi vítima de uma agressão à sua dignidade ao ter seu cadáver sexualizado nas redes sociais, percebe-se que a violência contra a mulher não acaba depois da morte.

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Vilipêndio: o que é e como afeta as mulheres

Duda Alves foi vítima de vilipêndio, o ato de desprezar, desrespeitar, ultrajar ou humilhar o corpo ou cinzas de uma pessoa falecida. Em publicações nas redes sociais, internautas fizeram comentários criminosos sobre se aproveitar do corpo sem vida da influenciadora.

“Eita como eu queria trabalhar no IML nessas horas hein. Rapaziada deve tá tudo feliz lá, tem que aproveitar enquanto tá quente”, disse um usuário do X, antigo Twitter, logo após apagando seus perfis nas redes sociais por ser cobrado pelo comentário criminoso.

Foto: Homem faz comentário criminoso sobre violar corpo de tiktoker morta | Reprodução / redes sociais
Foto: Influenciadora Duda Alves, que faleceu aos 22 anos | Reprodução / redes sociais
Foto: Influenciadora Duda Alves, que faleceu aos 22 anos | Reprodução / redes sociais
Foto: Influenciadora Duda Alves, que faleceu aos 22 anos | Reprodução / redes sociais
Foto: Influenciadora Duda Alves, que faleceu aos 22 anos | Reprodução / redes sociais

Vale reforçar que vilipêndio de cadáver é crime no Brasil, previsto no 212 do Código Penal Brasileiro, com detenção de um a três anos, além de multa. 

Em situações como essas, é visível como o corpo da mulher pode continuar sendo alvo de violação e desrespeito, revelando uma dimensão de violência de gênero que ultrapassa os limites da vida e expõe a situação de vulnerabilidade que as mulheres se encontram.

Desumanização da mulher 

O ato criminoso reforça como a população masculina ainda enxerga o corpo feminino como um objeto, devido a estruturas históricas de desigualdade que perpetuam a violência contra a mulher.

Em "O Segundo Sexo", a filósofa francesa Simone de Beauvoir reflete sobre a figura feminina na sociedade, ela coloca a visão do homem sobre a mulher como a de um outro ser, que, por ser diferente do dele deveria ser subjugado.

"Ele é o Sujeito, ele é o Absoluto: ela é o Outro", declara a autora.

Ao colocar o homem no lugar de sujeito, Simone evidencia uma estrutura de poder na qual a mulher assume a posição de "Outro", de objeto. Nessa lógica, ela deixa de ser reconhecida como um sujeito autônomo e passa a ser percebida através dos interesses do homem. O "outro", quando deixa de ser percebido como igual, torna-se mais fácil de naturalizar sua violência.

Impacto psicológico para as vítimas e familiares

Os números ajudam a demonstrar como a violência contra as mulheres atua no Brasil. Em 2025, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio no país, de acordo com um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O número representa um aumento de 4% em relação ao ano anterior e o maior registro da série histórica.

Para abordar o impacto da misoginia na saúde mental da mulher após episódios de violência, o BNews entrevistou a psicóloga Natiane Matos, pós-graduanda em psicanálise e neuropsicologia, que destacou que existem marcas além das agressões físicas. "A violência se associa ao verbo violar, violar significa impor algo ao outro sem consentimento. Todo ato de violência, seja ela física, verbal, psicológica, sexual entre outras, coloca o violado em posição de falta de controle sobre si, a pessoa passa a olhar para si própria como alvo fácil de manipulação externa e perde a sua autonomia", declarou.

Foto: psicóloga Natiane Matos | Reprodução: Arquivo pessoal

A psicóloga destaca como a dinâmica de poder presente nos papeis de gênero também adoece as mulheres. "Como eu disse, a violência por si só causa danos a qualquer um, no entanto as mulheres por já estarem em uma posição de terem sua autonomia restringida, quando um homem violenta uma mulher que muitas vezes ela já está se submetendo a moldes psicológicos para não desagradar o marido, normalmente a primeira pergunta que é feita por elas é " O que está faltando em mim?" e após o perdão que é recorrente, cada vez que uma mulher aceita e recebe mais do mesmo ela internaliza que o valor dela não existe porque associa seu valor a validação externa", pontuou.

"Isso acarreta em uma série de danos psicológicos, que passam a prejudicar a vida dela além do relacionamento. Níveis baixos de autoestima (é o valor, a avaliação e o respeito que uma pessoa atribui a si mesma com base em suas experiências, emoções e crenças), depressão (tristeza profunda que perpetua o tempo), transtorno de ansiedade generalizada, devido a estar sempre em estado de alerta achando que algo pode acontecer, TEPT (Transtorno de Estresse Pós-traumático), além desses transtornos que são mais conhecidos, a violência dependendo do seu grau, pode levar a mulher, que já tem uma predisposição, a desenvolver algum transtornos de personalidade, o que poderá dificultar vários âmbitos da sua vida, às vezes levando ao suicídio ou homicídio", relatou.

Natiane Matos destacou como o vilipêndio não atinge somente a dignidade da vítima, mas como essa continuidade da violência pode afetar psicologicamente familiares e pessoas próximas. "A figura feminina ao longo de séculos ocupou a posição de satisfação dos desejos masculinos, moldando-as para que deixassem os seus próprios desejos de lado em prol da validação do homem, o que entregava para ele o poder sobre sua vida, já que os próprios ditavam o que seria uma mulher ideal, o que elas podem ou não fazer e dentro disso o que a tornaria adequada ou não, desvalidando suas próprias escolhas e em consequência anulando a sua identidade e julgando a sua existência da forma que acham que devem. Esse aval é um aval social, de uma sociedade que reproduz e não corrige adequadamente esses comportamentos", iniciou.

"A violência deixa de ser apenas ligada à vítima e afeta toda sua rede de apoio assim como a própria sociedade que a normaliza, fazendo com que mais dessas atitudes sejam repetidas, alimentando assim uma sociedade adoentada e triste. A família e amigos que já estão fragilizados com luto, ainda se deparam com as críticas e julgamentos alheios, sofrendo mais uma vez com o desprezo e censura social", concluiu a psicóloga.

Casos como o de Duda Alves levantam a necessidade da proteção da dignidade mesmo após a morte, destacando a sensação de impotência e vulnerabilidade feminina. 

Classificação Indicativa: Livre


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