Polícia

Elas não foram mortas por estranhos: Quem está por trás da violência contra mulheres no Brasil?

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Só no ano passado, mais de 1.500 mulheres foram mortas no país  |   Bnews - Divulgação Ilustrativa | PCBA
Silvânia Nascimento

por Silvânia Nascimento

silvania.nascimento@bnews.com.br

Publicado em 28/08/2026, às 06h00 - Atualizado às 06h06



Cabo da PM é morta a tiros pelo companheiro em Salvador. Mulher é morta pelo ex-companheiro dentro de ônibus no interior da Bahia. Guarda municipal mata a esposa durante festa do próprio casamento. Mulher é morta a tiro de espingarda pelo marido seis meses após o casamento. Comandante da Guarda Municipal é morta com tiros na cabeça disparados por namorado PRF. Mulher é agredida por cunhado durante desentendimento familiar. Mulher é agredida com paulada na cabeça. Parecem até casos repetidos, mas não são! 

Na verdade, os crimes acima têm dois fatores em comum: quem são as vítimas e quem são os autores. Essas foram algumas das inúmeras ocorrências de feminicídio e violência contra a mulher ocorridas nos últimos meses na Bahia e em outros estados do Brasil. E, dentre os diversos indicadores, elas revelam uma realidade cruel: a maioria desses tipos de delitos é cometida por homens próximos às vítimas.

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A convicção sobre a dimensão dessa barbárie pode ser melhor entendida por meio de dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 que teve sua edição mais recente publicada no mês de julho. Números oficiais comprovam: só entre janeiro e dezembro do ano passado, o Brasil registrou 1.571 casos de feminicídios. Mulheres que tiveram a vida interrompida. 

Quem matou?

O Anuário também mostra que 96,4% dos crimes com autoria identificada foram cometidos por homens. Dados mais detalhados tornam essa realidade ainda mais terrível: 60,9% dos delitos foram cometidos por parceiro íntimo, 18,9% por ex-parceiro e 12% por familiar. 

Nas ocorrências de agressões, os conhecidos também aparecem como principais autores. Nos casos de vítimas de 0 a 13 anos, 59,2% tiveram como autoria familiares e 36,9% conhecidos. No recorte de vítimas com idade a partir de 14 anos, 30% das ocorrências foram cometidas por familiar, 29,6% (parceiro íntimo), 25,5% (conhecidos) e 9,6% (ex-parceiro).

Há uma explicação para a autoria desses crimes?

Para a delegada da Polícia Civil da Bahia, Argimária Soares, titular da DEAM/Casa da Mullher Brasileira, localizada em Salvador, o machismo pode ser considerado um dos principais causadores dos crimes contra a mulher.

“Acho que uma explicação é o fato de uma sociedade como a nossa ser fruto do patriarcado. Uma sociedade machista, onde os homens ainda se sentem proprietários das mulheres, onde mulheres são tratadas como coisas, como propriedade. Eles ainda querem determinar o seu comportamento, suas atitudes, que roupa veste, o que deixa de vestir.  Então, talvez, esse número tão alto ocorra entre ex-parceiros ou companheiros durante a constância da relação”

Onde normalmente elas são mortas?

Maior parte dos feminicídios no Brasil ocorre dentro da própria residência da vítima, tornando suas próprias residências como os espaços mais perigosos para elas. Das 1.571 mortes, 63% tiveram o lar como local do crime. 

"Infelizmente essa estatística é real. Mais de 80% dos casos de violência acontecem dentro de casa, na residência dessa mulher. O lar que deveria ser um local seguro para as mulheres, não está sendo. E, muitas vezes, é uma violência silenciosa, sem testemunhas. Muitos vizinhos relutam em testemunhar, em denunciar. São crimes que, às vezes, acontecem entre quatro paredes, sem outras testemunhas que possam narrar os crimes que são praticados contra determinada mulher",  relatou a delegada.

Mulheres negras e acima de 25 anos foram as principais vítimas

Negras e com idade a partir de 25 anos. Esse é o perfil das 1.571 mulheres mortas em 2025, conforme levantamento do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Das vítimas, 65,1% eram negras e 56,5% ocupavam a faixa etária de 25 a 44 anos.

"Eu posso dizer que toda mulher está sujeita a ser vítima de uma violência. Com isso, eu não estou dizendo que todo homem é agressor, mas pode vir a ser um agressor, porque esses homens foram ensinados dessa forma. A minha esperança é justamente essa. Como o machismo é aprendido, ele pode ser desaprendido. Então, uma educação pelo respeito, por uma sociedade mais equânime contra a violência, pela cultura da paz, é que vai mudar o futuro da nossa sociedade e, quem sabe, um dia acabarmos com esses altos índices de violência contra mulher", destacou a delegada. 

Como denunciar e pedir ajuda?

Vítimas de qualquer tipo de violência contra mulher podem recorrer há diferentes canais para denunciar e pedir ajuda. Na Bahia, além do 190 (Polícia Militar) e 181 (Disque-Denúncia), outros meios estão disponíveis para essa demanda, dentre eles a  Defensoria Pública da Bahia, por meio de atendimento jurídico, com agendamento via WhatsApp (71) 99641-1649 e  Ouvidoria Geral do Estado pelo WhatsApp (71) 99911-7631 ou 0800 284 0011.

 Ministério das Mulheres também oferece central de atendimento para esse público. Pelo órgão federal, é possível fazer a ligação pelo 180 - de qualquer lugar do Brasil - ou acionar o canal via chat no Whatsapp (61) 9610-0180 ou pelo e-mail central180@mulheres.gov.br. "Em casos de emergência, deve ser acionada a Polícia Militar, por meio do 190", aconselha. 

Classificação Indicativa: Livre

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