Cidades

Avaliada em R$ 5,3 mi: Maternidade de Santo Amaro vai a leilão e vítimas do chumbo querem prédio como centro médico

AVICCA quer que a União compre imóvel avaliado em R$ 5,3 milhões para criar centro de referência, sem retirar a maternidade do local  |  Roberto Viana | BNEWS e Reprodução

Publicado em 15/09/2026, às 06h00   Roberto Viana | BNEWS e Reprodução   Redação Bnews

O prédio da Maternidade de Santo Amaro, no Recôncavo baiano, vai a leilão nesta terça-feira (15). O imóvel fica no Centro da cidade e foi penhorado em meio a uma ação trabalhista movida por ex-funcionários da antiga gestão. Avaliado em R$ 5,3 milhões, o edifício tem lance mínimo fixado em R$ 2,6 milhões.

A venda coloca outra questão na mesa. A Associação das Vítimas da Contaminação por Chumbo, Cádmio, Mercúrio e Outros Elementos Químicos (AVICCA) pede que a União intervenha e avalie a compra do prédio.

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

A proposta da entidade é garantir a continuidade do atendimento da maternidade em uma ala específica e transformar o restante da estrutura em um Centro Médico de Referência dedicado ao tratamento das pessoas afetadas pela contaminação por metais pesados.

Vítimas querem centro médico no prédio

A AVICCA defende que o Fundo Nacional de Saúde (FNS), braço do Ministério da Saúde, entre em campo. A proposta é que, caso o leilão realmente aconteça, o órgão analise a aquisição do imóvel, unindo forças com os demais órgãos públicos envolvidos para tornar o projeto viável.

A entidade defende um uso compartilhado da estrutura. Uma ala continuaria destinada à Maternidade de Santo Amaro e aos serviços de saúde da mulher e da criança. Outra parte seria adaptada para receber o Centro Médico de Referência das Vítimas do Chumbo.

A ideia depende de avaliações jurídicas, técnicas e financeiras. Também seriam necessários estudos de engenharia, arquitetura, vigilância sanitária e planejamento hospitalar para definir como os serviços poderiam funcionar no mesmo espaço.

Santo Amaro ainda convive com as marcas da contaminação por chumbo - Foto: Roberto Viana / BNEWS
Santo Amaro ainda convive com as marcas da contaminação por chumbo - Foto: Roberto Viana / BNEWS
Santo Amaro ainda convive com as marcas da contaminação por chumbo - Foto: Roberto Viana / BNEWS
Santo Amaro ainda convive com as marcas da contaminação por chumbo - Foto: Roberto Viana / BNEWS
Santo Amaro ainda convive com as marcas da contaminação por chumbo - Foto: Roberto Viana / BNEWS
Santo Amaro ainda convive com as marcas da contaminação por chumbo - Foto: Roberto Viana / BNEWS
Santo Amaro ainda convive com as marcas da contaminação por chumbo
Santo Amaro ainda convive com as marcas da contaminação por chumbo
Santo Amaro ainda convive com as marcas da contaminação por chumbo - Foto: Roberto Viana / BNEWS

Para a AVICCA, a proposta permitiria preservar um equipamento de saúde importante para o município e, ao mesmo tempo, criar uma estrutura permanente para atender uma população que convive há décadas com as consequências da exposição a metais pesados. A associação resume a proposta da seguinte forma:

“Não queremos tirar a maternidade. Queremos somar”.

O objetivo seria reunir no mesmo imóvel a assistência materno-infantil e o atendimento especializado às vítimas da contaminação.

Decisão judicial espera cumprimento há mais de uma década

Segundo a AVICCA, as vítimas ainda aguardam a concretização de uma determinação judicial relacionada à contaminação por metais pesados em Santo Amaro.

A entidade cita uma decisão do então juiz federal Pompeu Brasil que determinou à União e à então Fundação Nacional de Saúde (Funasa) a implantação de um Centro de Referência para o tratamento das vítimas da contaminação. Porém, segundo a AVICCA, passados mais de 10 anos, a estrutura ainda não foi implantada na dimensão devida.

Santo Amaro ainda convive com os efeitos do chumbo

A herança tóxica de chumbo e outros metais pesados que marcou a história de Santo Amaro começou a ser desenhada na década de 1960, com a chegada da Companhia Brasileira de Chumbo (Cobrac).

Anos mais tarde, a fábrica foi rebatizada como Plumbum Mineração e Metalurgia, ligada ao grupo internacional Penarroya, operando por décadas no município até encerrar as atividades em 1993. O fechamento da planta, no entanto, não encerrou o problema; pelo contrário, deixou um rastro de impactos profundos que perduram na região.

Os impactos, porém, não ficaram restritos ao período de funcionamento da fábrica. A contaminação também permanece como uma preocupação ambiental. Toneladas de escória foram utilizadas historicamente no asfaltamento de ruas e quintais, e pesquisas apontam a permanência do chumbo no solo. Pequenas obras urbanas podem expor o material e representar risco de contato com o metal e de contaminação da água subterrânea. 

Segundo a Associação das Vítimas da Contaminação por Chumbo, Cádmio, Mercúrio e Outros Elementos Químicos, que reúne mais de 2 mil pessoas, moradores e vítimas ainda convivem com relatos de dores crônicas severas, fraqueza muscular, perda de dentes, problemas cognitivos, disfunções renais e câncer.

Justiça reconheceu racismo ambiental

Em novembro de 2025, uma decisão da Justiça estadual condenou três empresas sucessoras pela responsabilidade no desastre ambiental e humano provocado na região: a Trevisa Investimentos S.A., a Yara Brasil Fertilizantes S/A e a Plumbum Comércio e Representações de Produtos Minerais e Industriais Ltda.

A decisão reconheceu que a contaminação atingiu trabalhadores, moradores do entorno da antiga fábrica, pescadores, marisqueiras e comunidades periféricas, majoritariamente negras e vulnerabilizadas.

A Defensoria Pública da Bahia, que sustentou no processo a tese de racismo ambiental, argumentou que, os efeitos do passivo tóxico recaíram de forma desproporcional sobre populações historicamente marginalizadas e desassistidas.

A sentença determinou o pagamento de indenizações por danos morais e materiais, com valores majorados para crianças e pessoas negras. Também estabeleceu medidas de reparação ambiental das áreas atingidas e a criação de um fundo social destinado a ações de educação e qualificação profissional para as comunidades afetadas.

Classificação Indicativa: Livre


TagsSanto AmarochumbocobracPenarroya

Leia também


Após mais de 30 anos, Justiça condena empresas por contaminação com chumbo em Santo Amaro


Chumbo grosso: Santo Amaro sofre há quase duas décadas sem justiça


Drama das vítimas do chumbo em Santo Amaro: “Políticos brincam perversamente”


Tragédia em Santo Amaro: COBRAC abandona ex-funcionário contaminado por chumbo