Cidades

Esposa de “Léo do Lanche” faz desabafo após morte em ação da PM em Salvador: “tive que viver a pior cena da minha vida”

Trabalhador morreu durante operação da 49ª CIPM em São Cristóvão; protesto teve vias bloqueadas e ônibus incendiado  |  Reprodução

Publicado em 27/07/2026, às 06h45 - Atualizado às 06h50   Reprodução   Redação Bnews

A esposa de Leonardo Gil Lima, conhecido como “Léo do Lanche”, publicou um desabafo nas redes sociais após a morte do marido durante uma ação da 49ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM), no bairro de São Cristóvão, em Salvador.

A vítima, baleada em uma ação suspeita da PM, chegou a ser socorrida ao Hospital Geral Menandro de Faria, mas não resistiu. O caso provocou protestos de moradores, com vias bloqueadas, pneus incendiados e um ônibus queimado, na noite de quinta-feira (23).

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Na noite deste domingo (26), Erica Nascimento expõe a dor, descreve o momento em que tentou socorrê-lo e cobra justiça. O trabalhador foi baleado durante a operação, chegou a ser levado ao Hospital Geral Menandro de Faria, mas não resistiu. O caso terminou em protestos, com vias bloqueadas, pneus incendiados e um ônibus queimado.

Esposa faz homenagem e cobra justiça
Companheira de Leonardo há 11 anos e mãe dos dois filhos do casal, Erica Nascimento publicou um longo desabafo em que relata o impacto da morte e cobra respostas sobre o caso. No texto, ela descreve a cena que presenciou e afirma viver um sentimento de injustiça.

“Hoje eu não escrevo apenas com lágrimas nos olhos. Escrevo com o coração completamente despedaçado.🥀

Perdi o amor da minha vida, meu companheiro de 11 anos, o pai dos nossos dois filhos, meu parceiro de trabalho na nossa lanchonete e o homem que sonhava todos os dias em construir um futuro melhor para a nossa família.🖤

A dor que eu sinto não cabe em palavras. Além de perder você, eu tive que viver a pior cena da minha vida. Eu te carreguei nos meus braços tentando te socorrer, enquanto nossa família via o desespero tomar conta de tudo. Uma das nossas filhas presenciou o pai caído, coberto de sangue. Essa imagem jamais sairá das nossas vidas.

Para mim, você não era apenas mais um nome. Você era um homem trabalhador, um marido amoroso, um pai presente, um filho dedicado e um ser humano que fazia de tudo pela família. É assim que sempre será lembrado.🖤

Hoje, além da saudade, carrego um profundo sentimento de injustiça. A vida do meu esposo foi tirada de forma injusta, e eu jamais vou me calar diante da dor que isso causou à nossa família.

Não busco vingança. Busco a verdade. Busco justiça. Busco respostas. Faço isso por você, pelos nossos filhos e por todos que te amam. Nenhuma família deveria viver a dor que estamos vivendo.

Meu amor, obrigada pelos melhores 11 anos da minha vida. Obrigada por cada abraço, cada sorriso, cada sonho que construímos juntos. Você viverá para sempre em nossos corações e na história da nossa família.

Eu prometo honrar a sua memória, cuidar dos nossos filhos e lutar para que a sua voz nunca seja esquecida.

Eu te amo hoje, amanhã e por toda a minha vida.

Que Deus nos dê força para continuar e que a verdade e a justiça prevaleçam”.

“Coração completamente despedaçado.” O desabafo de Erica Nascimento, esposa de “Léo do Lanche”, comove após a morte do trabalhador em ação da PM em Salvador. Ela relata dor, cobra justiça e diz que não vai se calar. #justiçapeloleopic.twitter.com/03PgpGVdFH

— bnewsvideos (@bnewsvideos) July 27, 2026

Quem era “Léo do Lanche”
Leonardo era conhecido na comunidade como trabalhador e, segundo familiares e moradores, não tinha envolvimento com atividades criminosas. Ele começou vendendo lanches em uma bicicleta, depois passou a usar uma moto e, mais recentemente, abriu o próprio ponto comercial, o “Leo Lanches”. Era casado e pai de dois filhos.

Como aconteceu a ação
Relatos de moradores indicam que a região estava sem energia elétrica no momento em que equipes policiais entraram no bairro para uma operação. Durante a ação, Leonardo foi baleado. As circunstâncias do ocorrido ainda são investigadas.

Protesto fecha vias e tem ônibus incendiado
Após a morte, moradores bloquearam a principal via do bairro. Pneus foram queimados para interditar o trânsito e um ônibus foi incendiado durante o protesto. Um caminhão da Limpurb (Empresa de Limpeza Urbana de Salvador) também foi atravessado na pista. Imagens nas redes sociais mostram a interdição e a mobilização de moradores.

Familiares contestam versão de confronto
Durante a manifestação, uma mulher que se apresenta como irmã da vítima afirmou que não houve troca de tiros e relatou o que teria presenciado.

“Não houve nenhuma troca de tiro! Eu sou vizinha do meu irmão. Meu irmão chegou do trabalho. Deu um tiro no ouvido do meu irmão. No momento que eu abordei, ela foi se retirando junto com o soldado, eu disse: ‘Volte, que vocês vão assumir! Olha a farda! Vocês mataram um pai de família! Olha a farda!’. Quando eles se deram conta da besteira... ‘Aqui não dá socorro? Aqui não dá socorro? Agora vocês vão dar socorro!’. Eu ouvi ela [a policial] abordando o meu irmão. Procurando saber quem é Leonardo? Infelizmente, muitos vestem a farda por vestir”, desabafou.

Outra mulher, também não identificada, reforçou a versão e atribuiu o disparo a uma policial militar.

“Não quero que saia na mídia que foi troca de tiros ou que foi bandido. Isso não pode existir. Isso aqui é uma comunidade. A esposa dele está lá na delegacia. Ela [a policial] encostou o revólver aqui [na cabeça] em Leo. Leo virou e perguntou e ela deu um tiro. A gente não quer que saia que Leo reagiu, que Leo é vagabundo”, disse.

Manifestação na sede da CIPM
Parte dos manifestantes seguiu até a sede da 49ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM), onde realizou um ato cobrando esclarecimentos sobre a operação e pedindo justiça.

O que diz a Polícia Militar
Em nota enviada ao BNews, a Polícia Militar da Bahia informou que a ocorrência será investigada e que os policiais envolvidos foram afastados das funções. Segundo a corporação, equipes da 49ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM) realizavam patrulhamento na noite de quinta-feira (23), quando identificaram disparos de arma de fogo em uma área com histórico de conflitos entre grupos criminosos.

Ainda conforme a PM, um homem foi encontrado ferido por tiros e encaminhado ao Hospital Geral Menandro de Faria, onde o óbito foi confirmado. A corporação afirmou que os policiais utilizavam câmeras corporais durante a ação e que as imagens serão entregues às autoridades responsáveis pela apuração.

A ocorrência foi registrada na Polícia Civil, que ficará responsável por investigar as circunstâncias da morte. A PM informou também que o comandante-geral determinou a abertura de um procedimento administrativo para analisar a atuação dos agentes e o afastamento dos militares envolvidos.

Após a morte, moradores realizaram manifestações na região de São Cristóvão, com bloqueios de vias e registros de danos ao patrimônio público e privado. Segundo a corporação, foram adotadas medidas para restabelecer a ordem e normalizar o trânsito no local.

O corpo de Leonardo foi sepultado na manhã de sábado (25), no Cemitério Bosque da Paz, em Salvador, sob forte comoção. Centenas de pessoas, entre familiares, amigos e moradores de São Cristóvão, acompanharam a despedida, marcada por homenagens e pedidos de justiça.

Uma carreata seguiu o cortejo, e a motocicleta usada por Léo no trabalho foi levada ao cemitério como símbolo de sua trajetória. Durante o sepultamento, também houve cobranças por apuração da ação policial que resultou na morte do comerciante.

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