Justiça
Publicado em 18/06/2026, às 16h27 Foto: Divulgação Claudia Cardozo
A nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira (18) pela Polícia Federal, trouxe detalhes importantes que colocam no holofote pessoas que podem ter intermediado o contrato bilionário do Banco BRB com o Tribunal de Justiça da Bahia(TJBA), em 2021.
A nova fase teve como alvo principal o senador Jaques Wagner, por supostos "crimes financeiros, de corrupção ativa e passiva, de lavagem de dinheiro, de organização criminosa e de delitos conexos atribuídos a gestores e operadores ligados ao Banco Master".
A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), aponta que o publicitário Guilherme Henrique Sodré Martins, o Guiga Sodré, teria atuado como "articulador entre o núcleo empresarial do Banco Master, o entorno pessoal do senador Jaques Wagner e, em determinadas ocasiões, interlocuções relacionadas ao gabinete parlamentar".
Informações de bastidores indicam que ele é visto internamente como a pessoa que levou o BRB a firmar contrato com o TJBA, e que posteriormente, abriu uma porta para o Banco Master operar no tribunal e oferecer empréstimo consignado para desembargadores, juízes e servidores através do CredCesta.
.
Conforme as decisões do ministro André Mendonça, a narrativa policial se desenvolve em três eixos principais, englobando a suposta entrega de vantagens econômicas e negociações institucionais.
O primeiro eixo apura a aquisição do apartamento nº 1.702 do empreendimento Poème Horto, em Salvador, avaliado em R$ 2,45 milhões, que teria sido formalmente adquirido pela empresa Epítome S.A.. Segundo o texto da decisão do STF:
"A representação afirma, ainda, que mesmo após a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, as tratativas sobre o imóvel não teriam cessado. Ao contrário, teriam prosseguido por intermédio de Guilherme Henrique Sodré Martins, David Lopes Monteiro, Daniel Lopes Monteiro [...] inclusive com reuniões presenciais, chamadas de voz, videoconferências, envio de minutas contratuais e documentos relacionados à cessão de direitos aquisitivos".
A Polícia Federal destacou nos autos o uso de mensagens interpretadas como possivelmente cifradas para tratar do negócio imobiliário. De acordo com o despacho do relator, uma mensagem enviada pelo operador Daniel Monteiro afirmando que "a altura do vão é 2,45m", seguida da resposta "Perfeito" por parte de Guilherme Sodré, foi relacionada pelos investigadores ao valor exato do imóvel (R$ 2.450.000,00).
O terceiro eixo das apurações foca na verificação de indícios de atuação política em temas de interesse do Banco Master. A decisão cita textualmente que Guiga Sodré aparece "no eixo das tratativas envolvendo a Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023, tendo intermediado contatos entre Daniel Vorcaro, o chefe de gabinete de Jaques Wagner e o próprio parlamentar".
A peça também transcreve uma mensagem de março de 2025 enviada pelo gestor do Banco Master, Augusto Ferreira Lima, a Jaques Wagner para explicar a venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB), na qual o banqueiro afirma: "Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!". Na análise do ministro do STF, a frase indica que o parlamentar seria um "interlocutor relevante em temas sensíveis ao grupo econômico investigado".
Medidas Cautelares
Diante dos indícios apresentados pela autoridade policial, o ministro André Mendonça deferiu parcialmente as medidas constritivas e de busca e apreensão. Em relação a Guilherme Henrique Sodré Martins, o dispositivo da decisão determinou expressamente a "proibição de contato com os demais investigados citados nesta decisão, excetuados Eduardo Mendonça Sodré Martins e Bonnie Toaldo Bonilha, exclusivamente em razão dos vínculos familiares, vedada a abordagem de temas relacionados aos fatos investigados".
Proibiu também o contato, por qualquer meio, direto ou indireto, com gerentes, administradores, corretores, funcionários, engenheiros, arquitetos ou quaisquer colaboradores da MD BA Parque Florestal Construções Ltda. e do Grupo Moura Dubeux associados à unidade do Poème Horto.
O ministro determinou a "suspensão do passaporte no SINPA, registro de impedimento de saída do território nacional no STI e proibição de emissão de novo passaporte", bem como a "proibição de exercer, direta ou indiretamente, por si ou por interposta pessoa, atividades de gestão, administração, representação, consultoria, contratação, intermediação, negociação ou qualquer atuação econômica com as pessoas jurídicas vinculadas aos fatos investigados", incluindo a GF4.15 Participações e Consultoria Ltda., empresa da qual é apontado como único sócio administrador.
No final de 2025, o empresário oficializou sua união matrimonial com a desembargadora Maria de Lourdes Pinho Medauar, do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA). A magistrada não é alvo de nenhuma das medidas ou investigações em curso.
Quem é Guiga Sodré
Guilherme Henrique Sodré Martins possui uma longa trajetória no mercado de marketing, comunicação e relações institucionais na Bahia. Graduado em medicina, deixou a profissão na década de 1990 para atuar em grandes agências de publicidade e, posteriormente, fundou a GLT Comunicações, gerindo contas de grande porte. No cenário político e familiar, foi casado com Maria de Fátima Mendonça, atual esposa do senador Jaques Wagner, e é pai do advogado Eduardo Sodré Martins, secretário de Meio Ambiente da Bahia (Sema). Ao longo de sua atuação profissional, seu nome já havia sido mencionado em relatórios de investigações passadas, como as operações Navalha (2006) e Satiagraha (2008), que apuravam a interlocução entre o setor privado e agentes públicos, antecedentes que voltam a ser discutidos no escopo da atual decisão do STF.
Posição da Defesa
O BNews aguarda o posicionamento oficial de Guilherme "Guiga" Sodré e de sua defesa técnica para manifestação sobre os fatos citados na decisão do Supremo Tribunal Federal. O espaço segue aberto para a publicação de sua nota de esclarecimento ou contraponto assim que enviados.