Justiça

O fim de uma era: TJBA homenageia Mário Hirs antes de aposentadoria; tribunal se reorganiza politicamente

A saída de Hirs do TJBA provoca mudanças significativas nas eleições internas e na dinâmica política do tribunal  |  Foto: Divulgação

Publicado em 15/07/2026, às 15h24   Foto: Divulgação   Claudia Cardozo

O Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) se prepara para a despedida de uma de suas principais lideranças políticas das últimas décadas. No próximo sábado, 18 de julho, o desembargador Mário Alberto Hirs se aposenta oficialmente ao completar 75 anos. A homenagem antecipada ocorreu na sessão plenária desta quarta-feira (15).

Embora o próprio desembargador não estivesse presente fisicamente no Pleno, já que se encontra em gozo da chamada "noventena", o período de afastamento regulamentar de 90 dias que antecede a aposentadoria compulsória, a sessão foi marcada por discursos emocionados, resgate de memórias de bastidores e manifestações contundentes de seus pares.

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A saída de Hirs representa o fechamento de um longo capítulo na história recente do Judiciário baiano. Por muitos anos, ele não foi apenas um julgador na Corte; foi o grande articulador dos bastidores, o nome de enorme trânsito que ditava os rumos das eleições internas e influenciava diretamente quem chegaria ao TJBA e ocuparia a presidência do tribunal.

Novos rumos políticos para o tribunal
A aposentadoria compulsória de Hirs joga o TJBA em um cenário de reorganização política imediata. A perda dessa liderança central mexe nos bastidores e promete reconfigurar os rumos das eleições internas do tribunal. Hirs foi presidente do TJBA entre 2012 e 2013, além de ter sido presidente do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) por duas vezes.

O enfraquecimento do grupo político capitaneado pelo desembargador, contudo, já vinha dando sinais públicos. No pleito realizado no final de 2025, o candidato apoiado por sua ala, desembargador Jatahy Júnior, não conseguiu se eleger para a presidência do tribunal, um termômetro de que a força hegemônica de outrora já dava sinais de desgaste e que a engrenagem interna buscava novos caminhos. Sem o seu principal articulador no dia a dia da Corte, novos arranjos e blocos políticos devem se formar a partir de agora, acelerando a transição de poder na cúpula do Judiciário baiano.

Trajetória de dedicação
A trajetória de Mário Alberto Hirs na magistratura é marcada pela atuação firme na área criminal. Colegas relembraram os tempos em que ele atuava no Tribunal do Júri de Salvador, nos anos 90, onde ficou conhecido pela dedicação obstinada.

O desembargador Nivaldo Aquino relatou o vigor de Hirs na época.

Conheci o magistrado e vi o seu enorme coração. Por dez anos fiquei no Tribunal do Júri com ele. Muitas vezes, mesmo com a saúde comprometida por problemas renais, ele não arredava o pé. Começávamos as sessões às oito e meia da manhã e saíamos de lá de madrugada, com ele permanecendo firme."

O afastamento e o "fogo amigo"
O período na presidência, no entanto, reservou o momento mais dramático de sua vida pública. Em novembro de 2013, Mário Hirs e a também desembargadora Telma Britto foram afastados de suas funções pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sob acusações de suposta má gestão no pagamento de precatórios.

O afastamento foi classificado como injusto por grande parte da comunidade jurídica baiana. Nos bastidores, a leitura consensual era de que Hirs havia sido alvo de "fogo amigo" de dentro do próprio TJBA. Setores internos, incomodados com o tamanho da influência que ele exercia, teriam alimentado o desgaste que resultou na intervenção de Brasília.

A reviravolta jurídica veio rápido. Em 2014, o Supremo Tribunal Federal (STF) garantiu o retorno dos magistrados ao TJBA, onde foram recebidos com desagravo e festa pelos colegas. A reabilitação final ocorreu em 2017, quando o CNJ absolveu os desembargadores de forma definitiva, evidenciando que o processo carecia de provas robustas e carregava um forte componente político.

Lado humano 
Durante as homenagens propostas inicialmente pelo desembargador Cláudio Cesare Braga, o tom dominante foi a exaltação ao carisma e à lealdade do homenageado, mesmo ausente da sessão devido à noventena. O desembargador Roberto Maynard Frank relembrou a caminhada ao lado de Mário Hirs:

Foi pelas mãos do desembargador Mário que eu cheguei a esta Casa e com ele caminhei todo esse tempo. É um homem honesto, generoso, leal e correto, que sempre busca enxergar o melhor da vida. Sentirei muita falta de sua presença diária."

A desembargadora Pilar Célia Tóbio também prestou um depoimento afetuoso sobre a acolhida que recebeu de Hirs no tribunal:

Ele me chamou de um jeito carinhoso: 'Menina, você vem para cá?'. Foi formando em mim um respeito e uma admiração profundos. Ele tem um lado humano muito grande. Feliz daquele que chega a essa idade e se despede de cabeça erguida, com honra, força e coragem para enfrentar o que vem pela frente."

A desembargadora Nágila Maria Sales Brito recordou como o ex-presidente foi um visionário ao enxergar o potencial de seus colegas, inclusive incentivando sua própria trajetória na Coordenadoria da Mulher do tribunal:

"Mário sempre foi um visionário. Eu não me imaginava com capacidade para enfrentar um desafio tão forte, mas ele, com seu jeito brincalhão, insistiu até que eu aceitasse. Ele sempre foi um homem acolhedor. Fará uma falta imensa."

A marca do "sorriso largo"
Ao fechar a sessão de homenagens, o presidente do TJBA, desembargador José Rotondano, uniu-se aos pronunciamentos dos colegas e trouxe um testemunho afetuoso sobre a convivência com Hirs, destacando o “sorriso largo” e o jeito leve do magistrado. “Foi uma grande honra para todos nós ter convivido com ele nesse período. Para mim também, foi muito feliz ter participado de alguns momentos ao lado do desembargador Mário Alberto, que eu conheci quando ainda era promotor de Justiça de Casa Nova. Ele chegou a ficar hospedado em minha casa. Vossa excelência sempre estará presente entre nós, não tenha dúvida disso.

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