Justiça
Publicado em 25/06/2025, às 17h22 Reprodução Cadastrado por Lorena Abreu
Condenada por envolvimento direto nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, a paulista Marlúcia Ramiro, de 63 anos, passou a ser investigada por suspeita de abuso físico, psicológico e sexual contra duas crianças em Buritizal, no interior de São Paulo. Segundo informações do portal ICL Notícias, os crimes teriam ocorrido enquanto ela estava foragida da Justiça, entre agosto e dezembro de 2023, antes de ser presa. Atualmente, cumpre prisão domiciliar, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
A mãe das vítimas, uma profissional de marketing de 36 anos, que acolheu Marlúcia em casa por amizade e dificuldades financeiras relatadas pela acusada, fez as denúncias. As crianças, de oito e dois anos à época, começaram a apresentar mudanças comportamentais durante a convivência com a investigada, o que levantou suspeitas de maus-tratos.
Informações da mãe da filha mais nova, diagnosticada com autismo, dão conta de que ela passou a chorar com frequência, apresentar hematomas e se recusar a comer. Já a mais velha, que tem TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), ficou introspectiva e assustada. Professores relataram que a menina frequentemente chegava à escola com fome.
A mulher contou que Marlúcia se ofereceu para cuidar das crianças enquanto ela trabalhava, mas a filha mais velha relatou que era comum ser trancada do lado de fora da casa, sob o sol, sem água ou acesso ao banheiro, enquanto Marlúcia limpava o interior do imóvel. Em uma ocasião, disse que precisou pular a janela do quarto para não desmaiar de calor.
A alimentação das crianças também era restringida, segundo o relato. A dispensa era abastecida, mas Marlúcia impedia as meninas de comer, alegando que haviam perdido a hora. A mãe conta que questionava o descarte de alimentos, e Marlúcia justificava que “as crianças não gostavam da comida”. Só depois soube que as meninas eram proibidas de se alimentar.
Relatos da filha mais velha afirmam que agressões verbais e comparações cruéis eram constantes. Marlúcia a chamava de “burra” e dizia que ela “nunca aprenderia a ler ou escrever”. A criança mais nova, segundo a irmã, era alvo de agressões físicas, como afogamentos na banheira e pancadas com chinelo.
Os indícios se agravaram no fim de 2023, quando uma prima das crianças afirmou ter presenciado Marlúcia sacudindo a bebê e jogando-a no chão, alegando ser uma “brincadeira”.
A mãe percebeu os sinais e esperou Marlúcia sair de casa , quando onversou com a filha mais velha, que revelou os abusos chorando e com medo, pedindo segredo. A criança contou que os maus-tratos ocorriam diariamente enquanto a mãe estava fora.
A denúncia foi formalizada no Conselho Tutelar, registrada na Polícia Civil (PC) e encaminhada ao Ministério Público (MP). O caso segue em sigilo. Inicialmente tratado como delito de menor potencial ofensivo, o processo foi transferido à Justiça Criminal após novos elementos, incluindo indícios de abuso sexual.
Marlúcia nega os crimes e atribui a denúncia a uma retaliação por ter parado de contribuir financeiramente com a casa, de acordo com o advogado da família, Wellington Santos, que afirma que versão rebatida pela mãe das vítimas, e lembra que foi ela quem acolheu a foragida.
A defesa de Marlúcia ainda não se manifestou oficialmente sobre as acusações de abuso sexual. Segundo o MP, foi cogitada uma proposta de transação penal no valor de R$ 706 no início de 2024, mas os novos relatos afastaram a possibilidade de acordo e endureceram o andamento do processo.