Justiça

Se Governe: Na minha casa, mando eu... será?

Saiba por que até pequenas empresas precisam de uma estrutura de governança clara  |  Foto: Divulgação

Publicado em 30/11/2025, às 22h00   Foto: Divulgação   Thiago Dória

Não tem jeito: toda casa tem alguém que se arvora a ser o Manda-Chuva e que tem certeza de que manda em tudo. No entanto, quando temos intimidade com a família, é fácil perceber que as coisas não são bem como parecem, e muitas vezes a pessoa que dá as ordens não é quem decide o que realmente vai acontecer no final das contas. Chega a ser engraçado...

Quando falamos das decisões de uma empresa, entretanto, a coisa muda de figura, e a distorção ou ineficiência das esferas de decisão não tem graça nenhuma. Já vi muitos empresários (que se dizem “à moda antiga”) convictos de que não precisam de um olhar mais apurado e cuidadoso em termos de governança corporativa, sem saber que estão colocando em risco o seu comando sobre os rumos da organização.

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“- Ah, Thiago, mas minha empresa é pequena, isso não é prioridade.” Será?

Vou contar aqui um caso curioso: certa vez prestei consultoria a uma pequena empresa que dispunha de pouco mais de 10 empregados, e a equipe operacional contava com um carro para atender as demandas urgentes dos clientes. Por conta disso, o Sócio decidiu que o tal carro não podia ser usado para mais nada além desses atendimentos, pois se surgisse uma urgência, o carro tinha que estar lá. Comunicou isso em reunião e determinou que a Analista de RH repassasse a informação ao Porteiro. Na primeira oportunidade em que uma pessoa ia sair com o carro, o Porteiro avisou sobre a regra e o empregado que conduzia o veículo então respondeu tinha sido autorizado pelo Coordenador.

Não é necessário muito esforço para perceber que a ordem dada pelo Gestor nunca foi cumprida pelos empregados, que o Porteiro nunca reportou nenhum incidente de descumprimento (já que as pessoas estavam “autorizadas” pelo Coordenador), e que a Analista de RH nunca precisou fiscalizar a tal regra (inclusive porque tinha mais o que fazer...) De igual modo, é fácil imaginar a reação indignada do Sócio que recebeu a reclamação um cliente – cujo atendimento de urgência demorou muito a chegar – e constatou que a razão do atraso foi justamente a indisponibilidade imediata do carro, que neste dia saiu para levar a Secretária até a estação do Metrô. E aí, quem manda nessa empresa afinal?

A estruturação da governança em uma organização tem várias vantagens, e uma delas é justamente essa: fica claro quem manda, quem fiscaliza, e o que fazer quando algo não funciona como deveria. E não precisa de nada caro, complexo ou burocrático para melhorar a eficiência das ordens emanadas pela gestão. No caso acima, para fazer a regra funcionar, seria fundamental começar pela sua divulgação, de forma ampla, clara e objetiva. É lógico que um Código de Conduta sempre ajuda, e isso poderia estar previsto lá, mas nesse caso bastava comunicar a referida proibição de maneira explícita. Que tal dois ou três cartazes simples, impressos em papel A4?

Além disso, é sempre importante envolver e implicar todas as pessoas na observância das normas da empresa. Mais do que cumprir a regra, cada empregado precisa estar implicado em fazer com que os outros a cumpram, e a empresa deve trabalhar para isso. Se fosse instituído um simples registro de entrada e saída do veículo na portaria (com a discriminação do empregado condutor e do cliente a ser atendido, e com visto periódico do Coordenador) ficaria mais fácil identificar quem realmente estava violando a diretriz, e se realmente havia autorização para isso.

Por fim, mesmo em empresas pequenas, é imprescindível uma definição clara da estrutura e da cadeias de comando e responsabilidade, pois sem essa definição não é possível identificar quem era responsável pelo cumprimento da regra, e cuja falha atrasou o atendimento do cliente e causou prejuízo à empresa.

Aproveitando a onda do ENEM, responda: de quem é a culpa?

a) da Secretária cansada que inocentemente pediu uma carona;

b) do Empregado atencioso e de boa-fé que não viu nada de mais em levá-la na estação;

c) do Coordenador que estava preocupado com a operação e não via problema nessas saídas rápidas;

d) do Porteiro que tinha plena convicção de que estava tudo nos conformes;

e) da Analista de RH que não recebeu nenhuma reclamação a este respeito;

f) do Gestor que não olhou direito para a governança da sua empresa.

Enfim: um olhar adequado para a governança corporativa contribui de forma decisiva para que as organizações sigam o seu planejamento, cumpram metas e previnam riscos de maneira efetiva. Onde tem boa governança, só manda quem pode, e quem tem juízo obedece.

Thiago Dória

Advogado, Conselheiro de Administração (CCA-IBGC) e Mestre em Direito, Governança e Políticas Públicas 

Classificação Indicativa: Livre


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