Justiça
Publicado em 07/07/2026, às 13h27 Foto: Divulgação Thiago Dória
E só não perde jogo quem nunca jogou. Errar é humano, não tem jeito. Por isso é tão importante observar o comportamento das pessoas ao seu redor diante de um fracasso do seu time. Boa parte delas sequer consegue lidar com a frustração ou com a raiva, e simplesmente se afasta ou se cala. Muitos rememoram supostas previsões pessimistas, outros elaboram pseudo-análises complexas de fatos consumados (engenheiros de obra-pronta), e há ainda quem diga, em tom grave e circunspecto, ter pressentido desde cedo que algo não ia dar certo.
Isso seria muito normal – e até pitoresco – se eu estivesse falando apenas da eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo ou de qualquer outra derrota no futebol ou outro esporte. Se você for apenas torcedor, está liberado para dizer impropérios, criar teorias para si próprio, e botar a culpa em quem quiser, inclusive na camisa da sorte que estava lavando ou no cunhado pé-frio que veio assistir o jogo. O problema é que esse cenário de caos e desestruturação também se apresenta quando algo dá errado numa empresa ou organização, e suas consequências não são produtivas.
Há décadas os executivos do Vale do Silício repetem o mantra do Fail Fast (falhar rápido), disseminando o intuito de aprender com os erros o mais rápido possível, o que economiza tempo e dinheiro. A ideia não é incentivar o erro, por óbvio, mas fazer do fracasso (inevitável) algo menos arrasador e mais produtivo. É exatamente este princípio que norteia o modelo de negócio das Startups, inclusive o seu financiamento, e por isso há tantas empresas desse tipo, arriscando tantas iniciativas diferentes.
Mesmo arriscando menos, as empresas tidas como tradicionais também precisam tirar proveito dos seus erros e diminuir os seus efeitos nocivos. Mas isso só é possível quando a gestão se planeja, se estrutura, se mede e se avalia. Quando isso não acontece, a organização tomará decisões intuitivas, baseadas em subjetividades, casuísmos, ou num empirismo predominantemente estéril. Em outras palavras, “Não existe vento favorável para o marinheiro que não sabe onde ir”, nem para o marinheiro que não aprendeu a ler mapa, usar bússola, etc.
Certa feita conversava com um empresário que estava enfrentando dezenas de processos trabalhistas em razão de um contrato de terceirização que não deu certo, e era visível que ele não percebia os próprios erros na gestão e na fiscalização daquele serviço. No final, ainda disse: “Eu sabia que aquilo ia dar errado, mas meu gerente não tem malícia pra essas coisas. E no Brasil, já sabe...” Ele não era meu cliente, e só queria reclamar, então resolvi me calar diante das lamúrias. Mas seria muito bom (para ele e para a empresa) tentar aprender com o episódio e evitar os efeitos de uma próxima contratação frustrada.
Após um fracasso do seu time, Abílio Diniz (empresário e são-paulino) declarou algo que eu considero lapidar, tanto para o futebol quanto para os negócios: “Eu tenho uma relação muito clara com a derrota: eu simplesmente odeio a derrota. E hoje, infelizmente, terei que lidar com ela”. Não é difícil odiar as derrotas, mas como você lida com elas: aprende ou reclama?
Thiago Dória
Advogado, Conselheiro de Administração (CCA-IBGC) e Mestre em Direito, Governança e Políticas Públicas