Economia & Mercado
Publicado em 26/07/2019, às 15h26 Divulgação Redação BNews
O drama por conta do afundamento do solo de três bairros em Maceió, atribuído à atividade da Braskem na região para extração de sal-gema - um tipo de cloreto de sódio utilizado na fabricação de soda cáustica e PVC - entrou no cálculo eleitoral da sucessão na prefeitura da capital e de todo o cenário político de Alagoas. As informações são do O Valor.
Na linha de frente da ação contra a Braskem está o procurador-geral de Alagoas, Alfredo Gaspar de Mendonça. Ele é dado como favorito caso concorra ao comando de Maceió em 2020.
Gaspar se notabilizou como secretário de Segurança no primeiro mandato do governador Renan Filho (MDB) - primogênito do senador Renan Calheiros (MDB). Com sua popularidade em alta e índice de homicídios em queda, deixou o posto em 2016, após o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir que membros do Ministério Público não poderiam assumir cargos no Poder Executivo.
O ex-secretário chegou a se aproximar do prefeito Rui Palmeira (PSDB), inimigo dos Calheiros. Mas as dificuldades vividas pelo atual mandatário, que faz um governo mal avaliado, levaram Gaspar de volta ao círculo do governador. Ele ainda não se filiou a partido, mas é considerado no entorno de Renan Filho o nome ideal para a prefeitura.
A procuradora do Ministério Público do Trabalho em Alagoas (MPT-AL) Rosemeire Lôbo, autora da ação contra a Braskem que pediu o bloqueio de R$ 2,5 bilhões, rechaça a sugestão de que a medida teria motivações políticas. Ela atribui a ilação a uma tentativa da própria Braskem para tirar o foco do relatório da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), que declarou a mineradora culpada pelos danos. "Pelo comportamento da empresa, essas ilações são dela própria [Braskem], que ela está jogando no ar. Não tenho comprometimento com grupo político nenhum", disse.
De acordo com Lôbo, a iniciativa de cobrar medidas socioeconômicas para trabalhadores da empresa e dos bairros do Pinheiro, Mutange e Bebedouro, afetados por rachaduras, deu-se em função da chamada "função social das empresas", presente na Constituição. Ela afirma que não só os trabalhadores da própria Braskem, mas as pessoas que trabalham nas localidades afetadas estão sendo afetadas. "Eu vinha pedindo há muito tempo para que a Braskem tivesse sensibilidade com os efeitos provocados por sua atividade nas comunidades. A postura da empresa sempre foi de fugir do diálogo", alega. "Agora, depois da minha atuação extrajudicial, qualquer tentativa de acordo só será feita sob a batuta do juiz, inclusive para dar total transparência ao processo e desmentir as ilações da mineradora de que a atuação da Justiça está pautada em motivações políticas".
Politicamente, a questão da Braskem virou um jogo de empurra entre as forças políticas locais. O prefeito Rui Palmeira acusa o governador Renan Filho de se ausentar na busca de uma solução para a assistência às famílias residentes nos bairros afetados. O grupo do governador, que está em viagem pela China, diz que Palmeira demorou dois anos para atentar à gravidade da situação. Apenas em junho o governo do Estado entrou em campo e foi à Justiça para tentar impedir a venda a venda da Braskem à LyondellBasell - a medida, contudo, foi inócua, pois a desistência do negócio já havia sido anunciada. A ação foi tocada pela Procuradoria-Geral do Estado - ou seja, por Alfredo Gaspar.
A Odebrecht, que detém a maior parte do capital votante da petroquímica, e a própria Braskem contribuíram financeiramente quando a doação empresarial ainda era permitida. Em 2014, ano da primeira eleição de Renan Filho, a Braskem doou R$ 320 mil e a Odebrecht R$ 829,2 mil à campanha.
Posteriormente, delatores no âmbito da Operação Lava-Jato, como o próprio Marcelo Odebrecht e Cláudio Melo Filho afirmaram que Renan, o pai, pediu dinheiro para as campanhas do filho, com a promessa de ajuda futura em projetos de interesse das companhias. O governador e o senador negam as acusações.