Economia & Mercado
Publicado em 07/07/2026, às 09h34 Antônio Cruz/Agência Brasil Cibele Gentil
"Carece de verossimilhança". Esta é a visão que a Polícia Federal (PF) percebe sobre a versão do ex-CEO das Americanas, Sérgio Rial, sobre seu conhecimento do que acontecia na empresa. A avaliação dos investigadores está presente na decisão judicial que autorizou a ação da polícia contra acionistas da companhia, segundo publicação do portal Uol.
Defesa contesta argumento
A defesa de Sérgio Rial contesta essa tese. "A narrativa construída no sentido de que Sérgio Rial tinha ciência da fraude e, ainda assim, teria deliberadamente optado por colocar em risco sua carreira consolidada para assumir a presidência de uma companhia ciente da existência de um rombo bilionário em seu balanço não encontra qualquer amparo lógico e, principalmente, nas provas produzidas."
O executivo ficou nove dias na direção das Americanas em 2023. Foi ele quem divulgou o rombo bilionário da companhia ao mercado e também se tornou alvo de busca e apreensão na segunda fase da Operação Disclosure, que investiga a fraude na empresa.
Dúvidas sobre a versão de Rial
Contudo, para os investigadores, existem indícios de que Sérgio Rial saberia que as operações de risco sacado das Americanas não estavam reportadas como dívida no balanço da companhia. O argumento da investigação se apoia no fato de que, antes de presidir a empresa, Rial foi CEO do banco Santander, um dos principais credores das Americanas na modalidade.
Segundo a decisão judicial, as provas apresentadas pela PF, "e o contexto da mudança, com Sérgio Rial na posição de presidente e conhecedor das fraudes, evidenciam que ele seria peça chave para conciliar os interesses bancários com a recuperação judicial que a empresa proporia".
Segundo informações do portal, a defesa do ex-CEO afirmou que ele "jamais teve conhecimento prévio de qualquer fraude" nas Americanas e não haveria qualquer elemento que vinculasse sua escolha para a direção da empresa ao conhecimento prévio das irregularidades.
A PF contestou essa versão. "Esta declaração carece de verossimilhança, considerando que ele era presidente do Santander quando as informações sobre risco sacado foram omitidas das cartas de circularização sob o entendimento de que seriam operações comerciais, conhecendo ainda a exposição total da Americanas ao banco", diz a decisão judicial.
Entenda o risco sacado
O risco sacado é uma operação financeira na qual um banco adianta pagamentos a fornecedores de uma empresa, que passa a ter uma dívida com a instituição financeira. Segundo os investigadores da PF, as Americanas não reportaram essa dívida de forma devida ao mercado. A empresa teria usado essa operação para esconder um rombo bilionário, o que caracteriza uma fraude financeira.
A decisão judicial diz que, nos primeiros dias de janeiro de 2023, Rial disse aos executivos das Americanas que compreendia que as operações de risco sacado constavam como dívida na contabilidade da companhia.
Operações entre Americanas e Santander
De acordo com os investigadores, em 2018, enquanto era CEO do Santander, Sérgio Rial tratou dos custos dessas operações em reunião com o então CEO das Americanas, Miguel Gutierrez. Naquele mesmo ano, ele teria ainda aprovado a postergação do risco sacado da varejista. Segundo a decisão judicial, "há provas de que Sérgio Rial foi consultado junto com o comitê executivo do Santander acerca das postergações das operações de risco sacado em 2018."
A defesa de Rial afirmou que a alegação de que ele participou de reuniões com as Americanas para tratar de risco sacado é inverídica. De acordo com a defesa, a área do Santander responsável pelas operações de risco sacado "tinha governança própria e linhas de reporte específicas, da qual Rial não participava".
"Atribuir a Sérgio Rial ciência pessoal sobre essas práticas apenas por ter presidido o banco é presunção desprovida de qualquer respaldo lógico ou probatório", afirmou a defesa do executivo.
Indícios de apagamento de provas
A decisão judicial também destaca que o computador entregue às autoridades pelas Americanas como sendo de Sérgio Rial tinha pastas vazias e um perfil de outro usuário. "Trata-se de indicativo de que as provas muito provavelmente foram apagadas de forma definitiva, com o possível intuito de evitar que fossem acessadas", diz a decisão.
A defesa de Rial diz que ele nunca usou os equipamentos corporativos da empresa. Diz também que ele disponibilizou seus dispositivos pessoais de forma voluntária ao comitê independente de investigação instaurado pelas Americanas.
Quanto aos aparelhos usados por Miguel Gutierrez, ex-CEO denunciado como líder da fraude, foram entregues pela companhia às autoridades com seus padrões de fábrica restaurados. A suspeita é que eles tenham sido formatados antes de serem entregues à autoridade policial.
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