Economia & Mercado
Publicado em 23/11/2025, às 06h00 Divulgação / Freepik Verônica Macedo
No Brasil, a Black Friday deixou de ser um único dia. As promoções se estendem por semanas, o que aumenta a exposição a compras impulsivas e fortalece a sensação de urgência criada por descontos, notificações e anúncios personalizados. No mesmo período, trabalhadores recebem a primeira parcela do 13º salário, reforçando a impressão de que “há dinheiro sobrando”. Esse combo transforma novembro em um mês de vulnerabilidade emocional e financeira.
“É justamente quando imaginamos estar no controle que mais corremos risco, porque confundimos renda extra com liberdade para gastar”, afirma Ana Leoni, cofundadora da BEM Educação e CEO da Planejar. As crianças também são impactadas: diante de propagandas intensas, narrativas emocionais e estímulos digitais, acabam absorvendo a ideia de que promoção é sinônimo de oportunidade imperdível. E isso acontece em um país onde, segundo a pesquisa realizada pela Planejar e Datafolha, 59% dos brasileiros acreditam ter algum grau de planejamento financeiro, mas 43% ainda não têm reserva de emergência. “Se os adultos já enfrentam dificuldade para diferenciar desejo e necessidade, imagine as crianças que ainda estão formando repertório emocional e crítico”, reforça Ana.
Black Friday e 13º salário: o encontro perfeito para decisões impulsivas
A pesquisa Wake em parceria com a Opinion Box mostra que mais da metade dos itens desejados pelos consumidores brasileiros na Black Friday são eletrônicos, categoria que naturalmente desperta maior desejo e sensação de urgência. Em 2025, 52,7% esperam descontos em celulares, computadores e gadgets de uso pessoal. É um tipo de compra que, quando feita por impulso, pesa no orçamento das famílias. “O brasileiro se planeja para comprar, mas não necessariamente se planeja para pagar. É diferente”, explica Ana.
Além disso, 50,6% dos entrevistados pretendem gastar mais de R$1 mil no período, valor significativo quando somado às despesas típicas de dezembro, como viagens, celebrações, matrículas escolares e impostos de início de ano. “O 13º cria a ilusão de alívio financeiro, mas em famílias sem reserva essa renda deveria servir para proteção, não para antecipação de consumo”, pontua.
A vulnerabilidade emocional de novembro
Novembro é um mês repleto de gatilhos emocionais: anúncios de oportunidade limitada, sensação de escassez, pressão social para presentear e a narrativa de “última chance do ano”. A pesquisa da CDL indica que 54,8% dos consumidores já antecipam compras de Natal durante a Black Friday, misturando desejo genuíno com medo de perder ofertas.
“Somos seres emocionais que racionalizam, não o contrário. E a publicidade sabe exatamente como acionar esses gatilhos. Sem consciência, o consumidor compra mais pela emoção do que pela utilidade”, comenta Ana. Para ela, reconhecer esse comportamento é o primeiro passo para criar limites saudáveis.
Crianças no centro do consumo: por que elas precisam de proteção
Se adultos já se deixam levar pela narrativa do desconto, crianças são ainda mais vulneráveis. A exposição ao digital, somada ao apelo emocional de datas festivas, faz com que o desejo por determinados itens seja amplificado. “Quando uma criança entende que promoção significa oportunidade única, ela internaliza o consumo como resposta emocional, não como decisão consciente”, diz Ana.
Educar desde cedo, portanto, é essencial. Isso inclui envolver as crianças no planejamento das compras, explicar o funcionamento do 13º salário, discutir orçamento e estimular a comparação de preços de forma lúdica. “Quando ensinamos uma criança a questionar a publicidade e refletir sobre seus desejos, estamos construindo um adulto com autonomia financeira. Temos que aprender a identificar o que a gente quer e o que a gente precisa”, reforça.
O descompasso entre o que o brasileiro diz e o que realmente faz
A pesquisa Planejar/Datafolha revela uma contradição profunda: 59% afirmam ser planejados, mas grande parte precisou recorrer a empréstimos, atrasar contas ou cortar gastos essenciais diante de imprevistos recentes. “A percepção de organização está frequentemente ligada ao pagamento das contas, e não ao planejamento de médio e longo prazo”, explica Ana.
Outro dado relevante: 74% das pessoas buscam informações financeiras na internet e redes sociais, mas apenas 2% recorrem a profissionais especializados. “Temos muita informação, mas pouca transformação. As pessoas sabem o que fazer, mas ainda não fazem. Falta método, hábito e acompanhamento.”
Como famílias podem evitar o efeito avalanche do fim de ano
Para Ana, a estratégia mais inteligente é transformar novembro em um mês de planejamento, não de compulsão. Algumas orientações essenciais:
Definir um orçamento fechado para compras
Listar os itens que você precisa e os que você quer
Separar parte do 13º salário para reserva e despesas fixas do início do ano
Evitar parcelamentos longos com juros embutidos
Envolver crianças em discussões simples sobre prioridades.
“A construção de saúde financeira não começa no momento da compra, começa na conversa. Famílias que conversam sobre dinheiro tendem a tomar decisões melhores e mais alinhadas com seus objetivos”, afirma.
Educação financeira infantil como ferramenta de proteção emocional
Educação financeira não é sobre matemática, é sobre comportamento. E quanto mais cedo crianças desenvolvem consciência sobre desejo, necessidade, poupança e prioridade, maior a chance de formarem uma relação saudável com o consumo. “Crianças que aprendem a esperar e a planejar se tornam adultos mais resilientes e menos vulneráveis a gatilhos emocionais”, conclui Ana.
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