Economia & Mercado
Publicado em 21/10/2026, às 13h59 - Atualizado às 17h59 Reprodução/Redes Sociais Gabriel Dinis
Cofundador do Waze e um dos primeiros investidores do Moovit, startups de mobilidade vendidas por cerca de US$ 1 bilhão cada para Google e Intel, o empresário e investidor israelense Uri Levine rebateu a ideia de que o Brasil seja um terreno hostil para novos negócios. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Levine argumentou que a burocracia e as particularidades do mercado brasileiro, longe de serem um obstáculo, funcionam como uma barreira de proteção que freia a concorrência de multinacionais e abre caminho para soluções locais.
"Não é hostil. É complexo, sim. Mas nem é o mais complexo [do mundo]. Pense na Índia: são 38 línguas formais diferentes. Ser complexo cria uma oportunidade porque vai inibir a concorrência e empresas de outros países vão relutar em entrar no mercado. Para mim, isso é uma vantagem. E o ciclo [de vendas] não é mais longo. Vender é difícil, apenas isso", afirmou o investidor.
A leitura positiva sobre o potencial econômico do país fez com que Levine escolhesse o Brasil como base para projetos exclusivos. Além de ver as edições brasileiras de seus livros superarem as vendas no mercado de língua inglesa, ele lançou exclusivamente no país a Uri Levine Startup Academy, plataforma de cursos online cuja meta é capacitar 100 mil empreendedores locais.
Durante a entrevista, Levine colocou em xeque um dos maiores ideais do Vale do Silício: a busca desenfreada por inovação. Para o executivo, o mercado supervaloriza a ideia de criar algo inédito, quando a verdadeira chave para a sobrevivência de um negócio está em aprimorar dores cotidianas já existentes.
"As pessoas não estão procurando algo novo, certo? O grupo de inovadores é muito pequeno, talvez 10% da população. A grande maioria tem medo de mudanças e quer algo que funcione bem", explicou.
Segundo ele, a psicologia do consumidor prioriza a comodidade: "Gostamos de pensar que queremos mudanças, mas não. Só vamos querer algo melhor se o que temos não é bom o suficiente. O 'bom o suficiente' sempre vai vencer. Se o seu produto funciona bem, as pessoas não vão trocá-lo".
O investidor sustentou ainda que a dinâmica comportamental do público brasileiro cria um ambiente fértil para empresas de tecnologia com foco comunitário e social. Para Levine, o uso massivo de redes como WhatsApp e Instagram no país revela um perfil altamente conectado e propenso à recomendação direta: "É um país grande e social. E tem mais: a maioria das empresas norte-americanas leva tempo até perceber que chegou a hora de ir para o Brasil. O resultado disso é menos concorrência, o que torna o ecossistema de startups no país muito lucrativo".
Atualmente morando em Madri e atuando como conselheiro e investidor em fintechs e plataformas de mobilidade em várias partes do mundo, Levine reforça que o foco de quem quer empreender deve estar na retenção de usuários, métrica que, para ele, é a única prova real de que uma empresa entrega valor ao cliente.
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