Economia & Mercado
Publicado em 11/08/2026, às 06h00 Criado por IA Alex Torres
"Tenho questões emocionais que precisam de terapia, mas, como eu não faço, eu acabo tapando o buraco com comida e futilidades". A frase dita por uma fonte, que preferiu não se identificar, ao Bnews, reflete uma realidade de muitos brasileiros: pequenos gastos que, no final do mês, acabam fazendo um grande estrago no orçamento.
Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) revelam que o endividamento das famílias brasileiras atingiu um recorde histórico de 82% em julho de 2026. O Mapa da Inadimplência da Serasa também aponta que o país alcançou a marca de 81,7 milhões de pessoas com o nome negativado.
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O vilão por trás desse problema pode ser algo grande ou não. No entanto, se engana quem pensa que os pequenos gastos não podem causar um verdadeiro estrago na vida financeira das pessoas. Na realidade, o perigo mora justamente no fato de parecer inofensivo e quase imperceptível.
Como cada item isolado possui um valor baixo, o cérebro humano tende a não registrá-lo como um risco financeiro. E aí, meu amigo, é armadilha, ativando a conveniência imediata em vez do controle orçamentário", alertou Edival Landulfo, economista e presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon-BA), em entrevista ao Bnews.
O consumidor, que preferiu não ser identificado, revelou não ter a real dimensão das despesas no fim do mês. "Eu nunca parei para fazer essas contas, mas, se parar, sei que o valor vai ser grande. Eu costumo chamar de 'pequenos luxos' para ter um pouco de relaxamento ao longo do mês", explicou.
A CONTA NÃO FECHA
Ainda de acordo com o rapaz de 26 anos, que mora sozinho, os gastos já fizeram com que as contas não fechassem no final do mês. A situação atinge 29,6% dos lares no Brasil, segundo dados de 2026 do CNC. O cenário fica ainda mais crítico entre aqueles que ganham até três salários mínimos, com mais de 84% afirmando índices críticos de endividamento e contas em atraso.
Questionado se consegue controlar de alguma forma os gastos, a fonte ouvida pelo Bnews explicou que costuma colocar tudo no cartão de crédito. A situação, entretanto, cria a chamada 'bola de neve' e faz com que ele termine se enrolando ainda mais no final dos meses.
"De forma automática (organização dos pagamentos). Deixei esses gastos para descontar automaticamente do meu cartão de crédito, e muito do meu salário acaba indo para o cartão, para um ciclo vicioso de gastos no crédito e o mês apertado para continuar gastando", afirmou.
Para Landulfo, três motivos fazem com que esses gastos passem despercebidos. Além dos pagamentos automáticos, citado pelo rapaz, que "eliminam a dor de pagar", o economista pontua o baixo valor, que "opera abaixo do radar de decisão consciente" e também as "recompensas emocionais rápidas", que acontecem, por exemplo, após um dia estressante no trabalho ou a falta de tempo para cozinhar.
Esses pequenos gastos recorrentes impactam fortemente o orçamento por conta do efeito invisível das microdespesas e da percepção fragmentada do dinheiro", pontuou o economista.
SONHOS ADIADOS
O drama da falta de controle orçamentário, atrelado com o endividamento que acomete os brasileiros, fazem com que diversos sonhos precisem ser adiados ou, em alguns casos, até mesmo cancelados. Valores que antes tinham uma finalidade a longo prazo, terminam sendo sacrificados pela 'avalanche do endividamento'.
Eu trabalhava em dois lugares e saí de um desses empregos. Com o dinheiro da rescisão, eu guardei pensando em planos futuros, mas, do que recebi, não tenho quase mais nada", revelou o entrevistado.
"Fui tendo alguns desses 'pequenos luxos', precisando de dinheiro e retirando alguns valores desse estoque. Sonhos de uma pós-graduação, viagens e até de me projetar para comprar uma casa própria ou um carro foram suspensos, justamente porque acabo gastando muito em futilidades", completou o jovem.
Para entender quando esses gastos estão sendo prejudiciais para o indivíduo, o presidente do Corecon-BA recomenda inicialmente uma auditoria das faturas dos últimos dois ou três meses, contendo todas as transações de aplicativo de transporte, delivery, streaming, entre outros gastos.
Após a primeira etapa, a recomendação do economista é dividir as despesas em três categorias: gastos que realmente geram bem-estar; gastos feitos por cansaço, desorganização ou hábito automático; e gastos inconvenientes, que a pessoa não sabe nem o por que de estar gastando.
"Depois que você faz esse entendimento, tem que calcular a regra das horas de trabalho. Como é que a pessoa sabe que aquele produto está sendo um pouco mais caro do que o habitual? Sempre digo para converter o custo do pequeno luxo no tempo que você precisa trabalhar para pagar", ensinou Edival Landulfo.
NÃO PRECISA CORTAR TUDO
O economista baiano explicou, por fim, que "nem todo pequeno gasto precisa ser eliminado". Para ele, se faz necessário entender as despesas que "não agregam valor real à rotina" e a sugestão seria a adoção de um planejameto, que Landulfo classificou como "orçamento consciente com cota fixa".
Determinar um valor fixo para lazer e, principalmente, respeitar esse limite seria o primeiro passo para uma vida financeira mais saudável. Para ajudar na prática, o economista sugere a utilização de um cartão pré-pago, onde essa cota para lazer seria transferida, permitindo um maior controle dos gastos.
Criar barreiras para pagamentos automáticos também é algo importante para impedir a pessoa de se enrolar no fim do mês. Descadastrar os cartões do celular pode gerar um "intervalo de reflexão" que faça com que o indivíduo reconsidere a necessidade da compra. O mesmo serve para a função de pagamentos por aproximação.
Por último, Landulfo recomenda substituir os gastos por hábitos alternativos de menor custo sem eliminar o ritual: "Ao invés de cinco deliveries por mês, a pessoa pode fazer dois planejados e preparar refeições congeladas para os dias de cansaço. Também, ao invés de quatro streamings, que dariam uma média de R$ 160, poderia mantê-los em rodízio, assinando apenas um ou dois por vez, conforme a programação desejada".
No fim das contas, o problema não está necessariamente em tomar um café, pedir um delivery ou manter uma assinatura, mas em não perceber quando esses pequenos prazeres passam a comprometer o orçamento. Em meio ao endividamento recorde, controlar as despesas e estabelecer limites pode ser o primeiro passo para recuperar a saúde financeira sem abrir mão completamente do lazer.