Economia & Mercado
Publicado em 26/08/2026, às 07h40 - Atualizado às 07h45 Arquivo Pessoal Redação Bnews
Os empresários Rodolfo Sergio Martins Maia e Hugo Andrade Mendonça Santos, presos em Salvador durante a Operação Snooker 2, são investigados por envolvimento em um esquema que teria pago milhões de reais em propina ao auditor-fiscal da Receita Federal Francisco Eliezer Viana da Silva.
Segundo as investigações, o servidor teria recebido R$ 6,8 milhões em propina, sendo que dois integrantes do núcleo financeiro teriam repassado pelo menos R$ 3,1 milhões ao auditor em troca de informações privilegiadas sobre procedimentos internos do órgão.
As prisões de Rodolfo Sergio Martins Maia e Hugo Andrade Mendonça Santos ocorreram em Salvador, durante uma operação que também cumpriu mandados em Fortaleza, Caucaia e Eusébio, no Ceará.
Ao todo, foram cumpridos três mandados de prisão e 15 de busca e apreensão. Carros e relógios de luxo também foram apreendidos.
A investigação aponta que o grupo importava produtos de alto valor, como prata e eletrônicos, mas declarava as mercadorias por valores inferiores para burlar a fiscalização aduaneira, pagar menos impostos e aumentar os lucros.
Francisco Eliezer Viana da Silva é apontado pelas investigações como chefe da organização criminosa, que teria atuado desde pelo menos 2020.
O auditor-fiscal é servidor concursado da Receita Federal desde 1994 e estava no cargo no Aeroporto de Fortaleza desde dezembro de 2016. Ele atuava no gabinete da inspetoria do aeroporto.
Segundo as investigações, Eliezer teria fornecido informações e orientações sigilosas sobre comércio exterior, interferido em despachos aduaneiros e atuado diretamente para dificultar a fiscalização.
Em troca, receberia vantagens financeiras, incluindo pagamentos de propina.
Segundo a denúncia, o esquema funcionava em duas frentes.
Uma delas envolvia uma empresa importadora administrada por um empresário cearense. A companhia importava joias de prata, mas declarava os produtos como semijoias ou bijuterias de metal comum, com valor tributário muito inferior.
Conforme a denúncia, o empresário contava com o apoio de Eliezer para obter laudos periciais fraudados que atestavam falsamente a natureza do material.
A segunda frente envolvia um casal de empresários de nacionalidade chinesa, responsável por outra empresa importadora. O casal subfaturava produtos eletrônicos para reduzir o pagamento de tributos e contava com a intercessão direta de Eliezer para driblar a fiscalização aduaneira.
A propina paga por esse grupo é estimada em pelo menos R$ 2,5 milhões.
As investigações identificaram movimentações superiores a R$ 27 milhões entre empresas ligadas ao esquema, de acordo com a Receita Federal.
O grupo também teria adquirido aproximadamente R$ 31,8 milhões em criptoativos, sem compatibilidade com as receitas formalmente declaradas.
O núcleo financeiro seria responsável pela movimentação dos recursos ilícitos. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), um contador teria constituído diversas empresas de fachada em nome de terceiros e atuado para movimentar os valores e disfarçar o repasse de propina ao agente público.
"Dois integrantes desse núcleo, responsáveis de fato por empresas importadoras de fachada, teriam pago ao auditor-fiscal, em contrapartida a informações privilegiadas sobre procedimentos internos da Receita Federal, pelo menos R$ 3,1 milhões", explica o órgão.
O núcleo financeiro, junto com o núcleo auxiliar, é apontado como responsável pela movimentação de mais de R$ 103,3 milhões por meio de empresas sem atividade econômica real.
Conforme apuração do g1, Francisco Eliezer tinha salário mensal de mais de R$ 30 mil como servidor da Receita Federal.
Em junho de 2026, quando já era investigado, ele chegou a receber R$ 44 mil, valor que incluiu a gratificação natalina.
Até o momento, mais de R$ 26 milhões foram bloqueados em contas bancárias de empresas e pessoas físicas envolvidas nas atividades criminosas.
Também foram apreendidos veículos importados e uma embarcação de luxo. Uma lancha do grupo foi apreendida em Salvador.
Os investigados poderão responder pelos crimes de organização criminosa, corrupção, lavagem de dinheiro e fraudes em operações de importação.
Ao g1, o advogado de defesa de Francisco Eliezer, Marcelo Oliveira, afirmou ter recebido com surpresa a decisão pela prisão do auditor-fiscal, uma vez que ele já havia sido alvo de um mandado de busca e apreensão anteriormente e havia sido denunciado formalmente pelo Ministério Público, e nenhum fato novo teria ocorrido desde então.
O advogado afirmou que, nesse momento, está tomando "todas as medidas jurídicas necessárias para reverter a prisão decretada, para além da demonstração da sua inocência, junto à ação penal".
A reportagem não conseguiu localizar as defesas dos empresários Rodolfo Sergio Martins Maia e Hugo Andrade Mendonça Santos.
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