Economia & Mercado
Publicado em 27/11/2025, às 13h19 - Atualizado às 13h25 Divulgação / Freepik Verônica Macedo
Com a aproximação da Black Friday, período de intenso apelo comercial, cresce também um fenômeno pouco discutido, mas cada vez mais frequente, o consumo compulsivo. Impulsionados por gatilhos emocionais, campanhas agressivas e a sensação de urgência típica das promoções, muitos consumidores compram mais do que precisam, acumulando ansiedade, culpa e endividamento.
Uma pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil mostra que 62% dos brasileiros realizam compras não planejadas pela internet, e 40% gastam mais do que podiam. O impacto é imediato - 35% já atrasaram contas ou contraíram dívidas por causa desse comportamento. Mas para além dos números, o ciclo de compras impulsivas revela um problema de saúde mental frequentemente negligenciado, e que se intensifica em datas promocionais como a Black Friday.
Bárbara Santos, psicóloga e coordenadora do Núcleo de Compulsões da Holiste, explica como a pressão da Black Friday, que promove a sensação de urgência, pode intensificar quadros de ansiedade e outras condições pré-existentes. Segundo ela, que também é psicanalista, o apelo da data promocional acontece através da mensagem “aqui e agora”, “não perca”, “onde o consumidor é levado a pensar que essa oportunidade é única e ele não pode perder, “ou seja, o tempo não é dele, o tempo é do produto, da oportunidade. Ele não é estimulado a pensar na compra, mas a comprar sem pensar para não perder. Isso é uma provocação para uma compra feita de forma emocional, ansiosa e não pensada”.
A especialista da Holiste também esclareceu de que forma a Black Friday atua como um "gatilho" para que a compra impulsiva se torne um mecanismo de escape para a ansiedade e outras emoções negativas.
“Quando falamos do estímulo à uma compra orientada pela ansiedade, pela urgência, falamos de uma compra orientada pelo impulso, por alguma satisfação de outra ordem que não é necessariamente a de precisar daquele objeto e sim da satisfação de comprar para, assim, talvez, escapar de alguma outra insatisfação no viver’, alerta a coordenadora do Núcleo de Compulsões da Holiste.
Quando questionada sobre quais são os indícios de que a compulsão por compras, especialmente durante esse período, pode ter se tornado um problema de saúde mental e não apenas um deslize financeiro, ela esclareceu que “alguns sinais podem ser motivos de alerta, como: sentimento de culpa ou vergonha após a compra; esconder os itens adquiridos ou mentir sobre gastos; não conseguir controlar o comportamento; comprometer contas básicas, relações ou demandas do trabalho, pois o ato de comprar domina o dia a dia”.
De acordo com Bárbara, para quem já tem compulsão, a rogativa que a Black Friday possui se torna um campo vasto para que essas pessoas façam essa compulsão funcionar de modo que, muitas vezes, não se perceba. “O apelo à urgência, o tirar vantagem com promessas de preços menores podem tornar esse comportamento compulsivo como algo que é aceito socialmente”, salienta.
Mecanismos psicológicos por trás do impulso
A psicóloga da Holiste também analisa como o "efeito de manada" e a pressão social do consumo em massa influenciam nossas decisões de compra. “O comportamento, no que diz respeito a comprar, pode estar associado a diversos sentidos. Isso só pode ser lido de forma individualizada, singularizada. Podemos avaliar que esse momento, com esse grande apelo, desperta um medo de ficar de fora, de perder, de não fazer parte de algo social, grupal”, frisa.
Com relação aos danos sociais, financeiros e emocionais causados pelas compras impulsivas e quando elas podem ser consideradas como um "transtorno", Bárbara explica que esses malefícios estão vinculados à falta de programação, planejamento das compras. “O excesso aí toma a cena, sendo estimulado pelo discurso de “tirar vantagens com preços imperdíveis”. O sujeito se precipita e produz prejuízos de várias ordens, pois são compras impulsivas e emocionais e não pensadas e planejadas. Eu me refiro ao fato de haver uma relação transtornada com o consumo”, salienta.
Mas existem estratégias psicológicas eficazes para que os indivíduos possam se proteger e construir uma relação mais saudável com o consumo, especialmente em datas como a Black Friday. De acordo com Bárbara Santos, têm algumas táticas que podem ser relevantes no momento de comprar, como: criar pausas, ou seja, esperar algumas horas antes de consumir; dialogar com alguém de confiança sobre o assunto pode proporcionar uma reflexão melhor; questionar-se - “o que estou sentindo agora?” - antes da compra; escrever sobre isso também funciona para alguns; e existem pessoas que usam o carrinho online para selecionar o que querem e depois podem ir pensando nos itens e exercitando a crítica , excluindo o que está em excesso”, orienta.
Sobre a relevância de um apoio profissional no tratamento da compulsão por compras com o intuito de se aliviar o transtorno, a psicóloga explicou: “É importante, nesses casos, a procura por um profissional que possa, a partir do vínculo terapêutico, funcionar como alguém que pode construir um espaço para que esse sujeito retome aspectos psicológicos importantes, possa elaborar e não só repetir, repetir sem se dar conta. Em casos de perda de controle e aumento do sofrimento, deve-se sempre procurar um profissional da área de saúde mental”, finaliza a especialista da Holiste.
Outro profissional que aborda o assunto é Nicollas Rosa de Souza. Segundo o psicólogo, neuropsicólogo e fundador da BRAPSI, plataforma digital dedicada à educação em psicologia e saúde mental, fatores como promoções, estímulos visuais e narrativas de oportunidade imperdível ativam sistemas cerebrais ligados à recompensa, especialmente a liberação de dopamina. O resultado é uma sensação de bem-estar imediato, porém passageira, seguida de arrependimento, sofrimento emocional e, muitas vezes, repetição do ciclo como forma de compensação.
Para o especialista, o consumo compulsivo é sintoma de questões emocionais mais profundas. “Comprar não é problema. O problema é usar a compra como anestésico emocional. Em épocas de forte estímulo comercial, como a Black Friday, pessoas já fragilizadas por ansiedade, estresse, baixa autoestima ou solidão tornam-se ainda mais vulneráveis aos gatilhos do marketing. Elas não compram apenas produtos, compram alívio, pertencimento, promessa de transformação imediata”, explica Rosa de Souza.
O risco aumenta justamente na Black Friday, devido à combinação de fatores, como excesso de ofertas e anúncios personalizados, pressão social para aproveitar descontos, FOMO (medo de perder uma oportunidade) e emoções intensificadas pelo fim do ano. Além disso, o Procon alerta ainda que, com juros altos no crédito pessoal e chegando a 8,16% ao mês, o endividamento por compras impulsivas pode gerar um efeito cascata difícil de reverter.
“O compulsivo usa a compra para regular emoções desconfortáveis. A compra vira válvula de escape, o desconto vira justificativa, a urgência vira gatilho. Após a euforia da compra, vêm a culpa, o arrependimento, o medo das dívidas e, muitas vezes, o isolamento social, um ciclo que pode se agravar ao longo dos anos", afirma Rosa de Souza.
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