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Bia Miranda ignora investigação do MPF e ilustra fortalecimento do mercado clandestino das bets no Brasil; especialistas defendem liberação

Consultoria cita dados sobre apostas clandestinas e caso de Bia Miranda para questionar proibição das bets no Brasil em debate sobre a medida no STF  |  Reprodução / Redes Sociais

Publicado em 07/11/2026, às 11h52   Reprodução / Redes Sociais   Tiago Di Araújo

Alvo de uma investigação do Ministério Público Federal (MPF) por suspeita de divulgar plataformas de apostas ilegais nas redes sociais, a influenciadora Bia Miranda aparece em meio a uma discussão sobre os efeitos da proibição das bets no Brasil.

O caso ajuda a ilustrar uma das principais preocupações levantadas pela LCA Consultores Econômicos em documento preparado para subsidiar o debate no Supremo Tribunal Federal (STF), que a reportagem do BNews teve acesso: o risco de a restrição às casas de apostas impulsionar o mercado clandestino.

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A investigação também envolve o campeão do BBB 24, Davi Brito, e a irmã dele, Raquel Brito. Os três são suspeitos de divulgar links de plataformas que continuaram oferecendo jogos e apostas após a entrada em vigor da medida provisória que proibiu a atividade no país.

Segundo informações divulgadas pelo Metrópoles e pela coluna Outro Canal, do F5, da Folha de S.Paulo, os influenciadores teriam apresentado os serviços como plataformas de adivinhação, e não como casas de apostas. Ao acessar os links, porém, os seguidores encontrariam jogos que exigiam dinheiro para participar.

Bia Miranda, Davi Brito e Raquel entraram na mira do MPF

Uma das publicações atribuídas a Bia Miranda chamou atenção dos investigadores. Na ocasião, a influenciadora divulgou uma plataforma como uma novidade que não seria aposta.

“Vim mostrar a novidade do momento de novo! Não é bet, não é aposta. Você tem que completar a palavra para ganhar”, escreveu ela em uma publicação, conforme a reportagem.

A suspeita é de que os links fossem compartilhados nos Stories do Instagram em meio a conteúdos cotidianos, como conversas com amigos e vídeos de humor. A estratégia poderia dificultar a identificação das publicações como divulgação de plataformas de apostas.

No entanto, apesar da investigação, a influenciadora manteve as divulgações e de forma mais explícita. Em um dos seus perfis no Instagram, ela tem publicado diariamente links de de bets ilegais e que não tem autorização de funcionamento no Brasil.

Bia Miranda divulga bet ilegal
Bia Miranda divulga bet ilegal
Bia Miranda divulga bet ilegal
Bia Miranda divulga bet ilegal
Bia Miranda divulga bet ilegal
Bia Miranda divulga bet ilegal
Bia Miranda divulga bet ilegal
Bia Miranda divulga bet ilegal

Davi Brito também teria apresentado um dos serviços como uma “resenha boa”. A apuração teve origem em denúncias encaminhadas à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), após a divulgação de um vídeo do jornalista Gabriel Perline sobre possíveis estratégias para contornar a proibição.

Na época, Davi afirmou que iria se manifestar, mas não enviou posicionamento até a publicação da reportagem. Raquel e Bia também foram procuradas, mas não responderam aos contatos da coluna Outro Canal, segundo o F5. A ausência de resposta à imprensa não significa, por si só, que os influenciadores tenham ignorado a investigação.

As suspeitas ainda estão em apuração e não representam comprovação de irregularidades ou condenação dos envolvidos.

LCA aponta risco de avanço das bets clandestinas

É nesse cenário que a LCA Consultores Econômicos apresenta um dos argumentos contrários à proibição das apostas legalizadas. Segundo a empresa, a restrição pode não acabar com a procura dos brasileiros pelos jogos, mas deslocar os consumidores para plataformas que operam à margem da fiscalização.

Em uma apresentação identificada como minuta em elaboração, que o BNews teve acesso, a consultoria reúne dados de monitoramento de links identificados em canais acompanhados entre 31 de agosto e 19 de outubro de 2026. O gráfico apresentado mostra uma elevação de 28 para 628 links identificados por dia ao longo do período. A média móvel de sete dias chega a aproximadamente 498 no fim da série.

A LCA interpreta os números como um sinal de que a proibição não eliminou a demanda e pode ter ampliado o espaço para operadores clandestinos. A consultoria também aponta que essas plataformas podem funcionar fora do país, dificultando a fiscalização e favorecendo a saída de recursos do Brasil.

Os números, contudo, são resultado do monitoramento próprio da empresa e não correspondem a um levantamento oficial do governo.

Consultoria econômica defende liberação das bets e aponta risco de aumento do mercado ilegal
Consultoria econômica defende liberação das bets e aponta risco de aumento do mercado ilegal
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Advogado especialista vê proibição como combustível para bets ilegais

A avaliação da LCA encontra respaldo na análise de Bernardo Freire, advogado com mais de 17 anos de atuação em questões estratégicas no país, consultor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e sócio do BetLaw, escritório especializado no setor de apostas.

Em entrevista ao BNews, ele afirmou que a proibição das bets fortaleceu o mercado clandestino e avaliou que a experiência internacional demonstra que o fechamento do mercado legal não elimina a procura pelos jogos.

“Sem sombra de dúvidas. Isso aconteceu no mundo todo, mas os maiores mercados clandestinos do mundo são em países que têm a proibição total. China e Índia movimentam bilhões de dólares por ano, mesmo com a ilegalidade”, declarou.

Para Freire, a continuidade da divulgação de plataformas irregulares por influenciadores é um dos fatores que podem ampliar o problema. Ele citou a dificuldade de fiscalização das publicações em redes sociais e aplicativos de mensagens, especialmente diante da ausência de mecanismos eficazes para impedir a circulação de links de operadores não autorizados.

“Enquanto tiver a proibição, os influenciadores vão continuar divulgando as bets ilegais, vão continuar ganhando dinheiro e fazendo com que os apostadores joguem no mercado ilegal, sem qualquer proteção. A tendência é esse problema aumentar”, afirmou.

O advogado também chamou atenção para a permanência dos usuários em grupos e listas de divulgação de apostas clandestinas. Segundo ele, depois que um apostador entra nesses canais, passa a receber continuamente ofertas e links de plataformas irregulares, inclusive por meio de grupos interligados no Telegram e no WhatsApp.

Na avaliação de Freire, esse fluxo de publicidade dificulta o controle da atividade e amplia a exposição dos consumidores a serviços que não oferecem as mesmas garantias de proteção exigidas das empresas autorizadas a operar no país.

Consultoria questiona relação entre bets e endividamento

Outro argumento apresentado pela LCA diz respeito ao endividamento das famílias brasileiras. A consultoria sustenta que o problema não pode ser atribuído exclusivamente às apostas e aponta os juros elevados, o custo do crédito e a baixa educação financeira como fatores estruturais.

De acordo com a apresentação, o setor de apostas registrou R$ 37 bilhões em receita bruta em 2025, o equivalente a aproximadamente 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB). No mesmo período, o consumo das famílias chegou a R$ 8,1 trilhões, enquanto os pagamentos de juros somaram R$ 696,8 bilhões.

A empresa também estima que a carga tributária do setor alcançou 32% em 2025. Na avaliação da consultoria, parte dos recursos movimentados pelas casas de apostas retorna à sociedade por meio de impostos, despesas operacionais e outros gastos.

A apresentação ainda questiona a associação entre a proibição das bets e o aumento do consumo de alimentos. Segundo a LCA, as vendas do varejo alimentar já apresentavam crescimento antes da medida, enquanto outras políticas públicas adotadas no período também poderiam ter influenciado os resultados.

Proibição das bets está em discussão no STF

A controvérsia chegou ao Supremo Tribunal Federal, que realizou, em 3 de novembro, uma audiência pública para discutir os impactos da Medida Provisória nº 1.394/2026, responsável por proibir a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no Brasil.

Durante o encontro, representantes de diferentes setores apresentaram argumentos sobre os efeitos da medida. Enquanto integrantes do governo defenderam a restrição com base na proteção da saúde pública e da renda das famílias, representantes do mercado e de entidades esportivas alertaram para o risco de migração dos apostadores para plataformas clandestinas.

A LCA integra esse debate com uma apresentação que questiona a eficácia da proibição e aponta possíveis consequências econômicas. O material, no entanto, está identificado como minuta em elaboração, não sendo possível afirmar, apenas com base no documento, que a consultoria tenha apresentado formalmente uma contestação judicial ao STF.

Enquanto a discussão segue no Supremo, o governo também mantém ações contra plataformas irregulares. Em setembro, os ministérios da Justiça e da Fazenda anunciaram a derrubada de 506 sites suspeitos de oferecer apostas ilegalmente no país.

Advogado critica suspensão da retomada de três casas de apostas

Bernardo Freire também criticou a decisão da Justiça Federal que suspendeu a retomada das operações de três casas de apostas no Brasil.

Na quinta-feira (5), uma liminar havia autorizado o funcionamento das plataformas Casa de Apostas, Betsul e Jogo Online, pertencentes à empresa CDA Gaming. No dia seguinte, porém, o presidente do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), desembargador Johonsom Di Salvo, suspendeu a autorização após recurso da Advocacia-Geral da União (AGU).

Para o advogado, o episódio demonstra a necessidade de uma definição sobre o futuro do setor pelo Congresso Nacional e pelo Supremo Tribunal Federal. “Eu avalio como uma amostra de que a gente tem que ter uma decisão definitiva do Congresso”, afirmou.

Freire também defendeu que as empresas autorizadas anteriormente pelo governo tenham suas situações analisadas enquanto a medida provisória estiver em discussão. Na avaliação dele, decisões judiciais que permitem o funcionamento de algumas plataformas, enquanto outras permanecem impedidas de operar, criam uma situação de desigualdade competitiva.

“O Supremo tem que definir. Tem que restabelecer as empresas para, se quiser proteger o consumidor efetivamente, haver um restabelecimento dessas empresas enquanto se discute a medida provisória, ou o Congresso analisar essa medida o quanto antes”, declarou.

A decisão que suspendeu a retomada das três plataformas foi justificada pelo presidente do TRF-3 com o argumento de que a discussão sobre as bets está submetida ao STF e de que decisões isoladas poderiam comprometer a aplicação uniforme da política nacional. Com a suspensão, Casa de Apostas, Betsul e Jogo Online permaneceram impedidas de operar.

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