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Publicado em 05/11/2026, às 12h16 Divulgação Tiago Di Araújo
Uma disputa judicial envolvendo uma das maiores farmacêuticas do Brasil colocou Luciano Huck e a Globo no centro de uma polêmica que pode movimentar cifras milionárias. A fabricante Suavetex acusa o CEO da Cimed, João Adibe, e outros seis executivos da empresa de fraude industrial e concorrência desleal. A denúncia envolve a suposta apropriação de fórmulas de seis produtos de higiene bucal e uma negociação de compra que teria chegado a R$ 120 milhões.
O caso ganhou repercussão também pela presença de nomes conhecidos entre as testemunhas. Luciano Huck e Roberto Marinho Neto, CEO da Globo Ventures, braço de investimentos da emissora, foram incluídos no processo para prestar esclarecimentos sobre a sociedade mantida com a Cimed e a relação comercial entre as empresas.
A queixa-crime foi apresentada pela Suavetex na Justiça de São Paulo na última terça-feira (3). Segundo o empresário Ronaldo Alves Andrello, dono da fabricante mineira, a farmacêutica teria utilizado informações estratégicas e fórmulas desenvolvidas por sua empresa durante uma negociação que envolvia uma possível aquisição do negócio.
De acordo com a denúncia, a Cimed procurou a Suavetex em abril de 2025 para desenvolver seis produtos de higiene bucal com ação de 12 horas, contendo zinco e sem parabenos. O projeto previa três géis dentais e três enxaguantes bucais.
Durante o desenvolvimento, a fabricante compartilhou as fórmulas completas, incluindo os percentuais dos componentes. Os documentos foram enviados em 18 e 25 de julho daquele ano. Em 31 de julho, os seis produtos foram notificados à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sob a marca Carmed, tendo a própria Suavetex como fabricante.
O cenário teria mudado poucos dias depois. Em 5 de agosto de 2025, João Adibe comunicou ao empresário Ronaldo Andrello que a marca Carmed seria substituída por outra identidade comercial.
"É sobre Carmed 12 Horas, acabei de sair de uma reunião, vamos cancelar a marca Carmed e trocar pela nova marca, amanhã te conto", teria escrito o executivo, segundo mensagens reproduzidas na ação.
Um minuto depois, Adibe encaminhou ao empresário uma reportagem sobre a criação de uma sociedade entre Cimed, Globo e a empresa de Luciano Huck.
Os seis produtos acabaram chegando ao mercado com a marca Super. Segundo a queixa-crime, os itens foram novamente notificados à Anvisa em outubro, desta vez vinculados à Icefresh, empresa adquirida pela Cimed em fevereiro de 2026.
A Suavetex afirma que os produtos Super reproduzem as formulações desenvolvidas por sua equipe. Um laudo da responsável técnica da fabricante apontou correspondência entre os componentes informados nos rótulos. O documento, porém, não avaliou as concentrações das substâncias.
A participação de Luciano Huck e da Globo no caso está relacionada à criação da Cilab S.A., uma joint venture entre as empresas. A operação foi aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em agosto de 2025.
Pelos documentos apresentados no processo, a divisão societária ficou estabelecida da seguinte forma: a Cimed detém 70% da empresa, a Globo possui 25% e a Joatinga, controlada por Huck, ficou com 5%.
A emissora investiu R$ 154 milhões na operação, enquanto a empresa do apresentador se comprometeu a aportar R$ 30 milhões ao longo de cinco anos. O pagamento de Huck está vinculado ao chamado crédito de mídia utilizado pela sociedade em publicidade na Globo.
É justamente essa conexão que a Suavetex pretende esclarecer na Justiça. A fabricante quer saber se a substituição da marca Carmed pela Super foi discutida entre os sócios da Cilab ou no Comitê de Marketing e Mídia, integrado por João Adibe, Roberto Marinho Neto e Luciano Huck.
Apesar de terem sido convocados como testemunhas, Huck e o executivo da Globo não são acusados de participação na suposta fraude.
Outro ponto central da denúncia envolve uma tentativa de aquisição da Suavetex pela Cimed. Conforme a ação, João Adibe teria oferecido R$ 120 milhões pela fabricante mineira. Ronaldo Andrello aceitou a proposta em 25 de setembro de 2025, mas afirma que deixou de receber respostas do empresário cinco dias depois.
A queixa também menciona uma proposta anterior, apresentada por escrito em dezembro de 2024, na qual a farmacêutica teria demonstrado interesse em comprar ativos da Suavetex por até R$ 99,3 milhões.
Para a fabricante, a negociação teria sido utilizada como caminho para obter informações estratégicas e as fórmulas dos produtos.
Em nota enviada ao BNews, a Cimed negou as acusações e afirmou que mantém relações com fornecedores pautadas pela boa-fé, transparência e cumprimento da legislação.
A farmacêutica também alegou que a Suavetex vem acumulando derrotas judiciais e classificou a queixa-crime como uma tentativa de reverter decisões desfavoráveis na esfera cível.
Sobre a linha Super, a empresa afirmou que a marca pertence exclusivamente à Cimed, não integra a joint venture com a Globo e que a publicidade exibida no BBB 26 foi contratada e paga diretamente pela farmacêutica.
A Globo, por sua vez, declarou ao Notícias da TV que a Cilab atua exclusivamente com as marcas de higiene infantil João e Maria e não participa da relação comercial entre Cimed e Suavetex. A emissora também afirmou que o Comitê de Marketing e Mídia só delibera sobre produtos de seu próprio portfólio e que as ações publicitárias da Super foram remuneradas em dinheiro.
Luciano Huck apresentou posicionamento semelhante ao Notícias da TV. Segundo sua assessoria, a Cilab se dedica exclusivamente à exploração das marcas de higiene infantil João e Maria, e a linha Super não faz parte do portfólio submetido ao comitê do qual o apresentador participa.
A Suavetex pede a condenação dos sete executivos da Cimed por concorrência desleal, além de indenização mínima de R$ 10 milhões por danos morais e reparação dos prejuízos materiais. O caso foi distribuído para a 1ª Vara Criminal de São Paulo.
A Cimed esclarece que suas relações com fornecedores são conduzidas com base na boa-fé, no equilíbrio contratual e na transparência, sempre com diálogo aberto e respeito aos termos acordados no momento da contratação e estrito cumprimento à legislação.
Inclusive, esse posicionamento tem sido reconhecido de forma consistente pelo Poder Judiciário, tanto em decisões de primeira quanto de segunda instância, que vêm reiteradamente negando os pedidos apresentados pela Suavetex.
Nesse contexto, a Cimed acredita que a queixa-crime noticiada configura mais uma tentativa da Suavetex de reverter, por outra via, as sucessivas derrotas que vem sofrendo na esfera cível. A Cimed confia que o Poder Judiciário, como já fez, reconhecerá a improcedência das alegações.
Quanto à linha Super, a Cimed esclarece que se trata de marca de sua titularidade, que não integra a joint venture firmada com a Globo e não pertence à Cilab. A campanha da Super veiculada no BBB 26 foi contratada e paga diretamente pela Cimed.
Por se tratar de matéria em curso no Poder Judiciário e sujeita a segredo de justiça, a Cimed não comentará os demais pontos".