Entrevista

'Não é algo que se cura': Especialista alerta sobre atirador do cinema que frequenta shopping em Salvador

Especialista diz que ausência de supervisão dificulta intervenção e aumenta risco no caso do atirador do cinema em Salvador  |  Reprodução

Publicado em 17/07/2026, às 05h00 - Atualizado às 05h50   Reprodução   Redação Bnews com informações de Cibele Gentil

Solto pela Justiça da Bahia em 2024, o ex-estudante de Medicina Mateus da Costa Meira — condenado pelo ataque a tiros que matou três pessoas e deixou nove feridas em um cinema de São Paulo, em 1999 — voltou a circular em Salvador e tem frequentado cafés, livrarias e salas de cinema do Shopping Barra.

A presença dele nesses locais reacendeu o medo de frequentadores e lojistas. Em entrevista ao BNEWS, o psiquiatra Kayo Barboza, da Clínica Holiste, detalha os riscos e limitações do acompanhamento nesses casos.

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

“O objetivo não é curar, é conter o risco”
Segundo o especialista, traços como frieza, ausência de empatia e falta de remorso não desaparecem com o tempo.

“Transtornos de personalidade, por definição, são padrões persistentes e inflexíveis de comportamento e afetividade, não são episódios de doença que ‘curam’, como uma depressão que pode remitir. O que a evidência mostra é que os componentes impulsivos e comportamentais tendem a se atenuar com o tratamento e a idade, sobretudo após os 40 anos, enquanto o núcleo afetivo — frieza, ausência de empatia e de remorso — é altamente estável ao longo da vida e é o componente mais refratário a qualquer intervenção. Não existe tratamento farmacológico para o transtorno em si e programas psicoterapêuticos estruturados e prolongados podem reduzir a reincidência criminal, mas o objetivo realista é manejo e contenção de risco, não reversão da personalidade”, disse.

Frequência em cinemas e shoppings acende alerta
O retorno de Mateus a ambientes semelhantes ao do crime não é considerado neutro do ponto de vista psiquiátrico.

“A psiquiatria forense faz uma análise funcional da relação do ambiente com a história de violência do indivíduo. Se os episódios anteriores ocorreram em contextos semelhantes, o retorno assíduo a esses cenários deixa de ser neutro e passa a ser lido como uma avaliação de ameaça. Exposição a locais associados às fantasias ou aos delitos prévios pode funcionar como fator desencadeante, mas também pode ser mera conveniência de rotina, e distinguir uma coisa da outra exige avaliação direta, conhecimento do padrão dos delitos anteriores e monitoramento longitudinal.”

Morar sozinho é fator de risco
Apesar de ter sido liberado com a condição de viver com familiares e manter tratamento, foi constatado que Mateus mora sozinho. Para o especialista, isso compromete a avaliação de segurança.

“Nos principais instrumentos estruturados de avaliação de risco de violência, os itens de manejo de risco incluem a adesão ao tratamento, suporte social/familiar e resposta à supervisão. A violação de uma condição judicial como morar sozinho quando a soltura foi condicionada à convivência familiar é, por si só, um marcador desfavorável que indica a não adesão ao plano de manejo, que é um dos preditores dinâmicos mais consistentes de reincidência violenta. Nenhum acompanhamento profissional oferece garantia absoluta de não reincidência.”

Lista de alvos é sinal mais grave
Relatos de frequentadores do shopping e trabalhadores apontam medo de um novo ataque. O psiquiatra classifica esse ponto como crítico. No julgamento do caso em 2004, inclusive, o ex-estudante de medicina Mateus da Costa Meira revelou que chegou a cogitar outros ataques e que tinha uma "lista de alvos".

“Na avaliação de risco de reincidência do comportamento violento, a existência de uma lista de alvos nomeados não é um detalhe, é um dos indicadores mais graves que existem. Uma lista de vítimas situa o indivíduo na fase de planejamento, deixando de ser apenas um risco e passa a ser ameaça direcionada, exigindo intervenção imediata. Some-se a isso que o preditor mais robusto de violência futura é violência passada, e que ameaças percebidas por pessoas do convívio próximo têm alto valor preditivo”, avaliou.

Liberdade exige controle rigoroso
Para o especialista, a saída não está entre manter preso indefinidamente ou liberar sem controle.

“O modelo ideal não seria uma escolha binária entre internação perpétua e liberdade sem controle, mas um sistema de liberdade condicionada e progressiva com manejo intensivo de risco. Isso envolve avaliação de risco estruturada e periódica, feita por equipe multidisciplinar com instrumentos validados e não apenas impressões clínicas pontuais. Além disso, há necessidade de condições judiciais que devem ser fiscalizadas, como moradia definida, adesão medicamentosa, restrição de locais e de contato com alvos identificados, acompanhamento territorial intensivo articulando Justiça e rede de saúde mental. A violação de qualquer condição deve gerar reavaliação imediata”, disse.

Classificação Indicativa: Livre


Tagsshoppingmateus meira

Leia também


Psiquiatra alerta sobre atirador de cinema que frequenta shopping em Salvador: 'Não pode ser tratado como quem não cometeu crime'


MPBA e familiares de baiano condenado por massacre em cinema foram contra liberá-lo de hospital de custódia, diz jornal


Além do massacre no cinema: Seis fatos sobre o atirador condenado que passou a frequentar shopping em Salvador


Condenado por massacre em cinema, atirador passa a frequentar shopping em Salvador e assusta clientes; VEJA