Entrevista
Publicado em 24/08/2026, às 05h00 Reprodução e Arquivo Pessoal Adelia Felix
A recente invasão da Universidade Federal da Bahia (UFBA) pelo deputado Diego Castro (PL) após receber denúncias sobre a colagem de adesivos políticos no prédio ilustra um fenômeno cada vez mais comum na política brasileira: a transformação de espaços tradicionais em cenários para gerar vídeos e tumulto nas redes sociais.
Em entrevista ao BNEWS, Paulo Fábio Dantas Neto, cientista político, professor associado da UFBA e pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas em Humanidades (CRH), avalia que a substituição do debate por monólogos e versões sobre os fatos alimenta uma polarização que afeta diretamente o ambiente universitário.
Dantas Neto defende que a instituição deve ser plural e "não um bunker". Ele considera legítima a circulação de ideias, mas ressalta: "Nada disso se aplica a quem provoca tumulto, por intimidação ou agressão".
Segundo o professor, a democracia perde força quando passa a ser cobrada para resolver uma "briga de turma". Ele aponta que o ambiente político ficou menos plural e que, com o retorno da guerra de narrativas, as instituições democráticas resistem, mas a conduta democrática sofre pressão.
"A disputa é sobre quem é o dono da verdade. O messianismo que antes era traço de uma turma virou padrão mais generalizado", avalia o especialista.
Ao avaliar o cenário eleitoral, o especialista indica que propostas realistas enfrentam dificuldades para ganhar destaque. O ambiente político, segundo o professor, sofre com a perda de pluralismo e o avanço da intolerância.
Na visão dele, "as instituições democráticas não estão tão ameaçadas como em 2022, mas a conduta democrática sim. Há campo livre para lógicas de faxina. Quem ganhar a eleição não terá direito ao benefício da dúvida".
Leia a entrevista:
BNEWS: Professor, a gente tem visto figuras públicas que parecem ir para cima de espaços tradicionais — como uma universidade — muito mais para gravar vídeo e gerar confusão do que para conversar. Por que a política virou esse 'circo' ou um show para as redes sociais, e por que a universidade virou alvo desse tipo de atitude?
Paulo Fábio Dantas Neto: A novidade não é o espetáculo (política sempre teve algo disso) mas a substituição da discussão de opiniões por monólogos e veredictos. Isso não só em situações e lugares do “social”, mas em espaços da própria política parlamentar e eleitoral. Exemplo é discursar em casas legislativas, não para gerar debate com pares, mas para a fala ser unilateralmente replicada em redes em que o político está presente ou quer atingir. Também a conversão (que não é recente) de comícios e outros eventos de campanhas que promovem aglomerações em meros cenários para filmagens, edição e difusão de mensagens por veículos exteriores ao evento. Imagens importam mais que palavras e versões são mais eficazes que fatos. E a universidade é um dos espaços afetados.
Gerar confusão não creio que seja algo inerente a essa forma, embora ela possa facilitar. Resulta do objetivo de fabricar e radicalizar antagonismos, que está muito presente em grupos extremistas, embora não se resuma a eles. Essa política negativa vem da intolerância que marca o ambiente político. Andar com seguranças vira “natural” em qualquer lugar porque a hostilidade é endêmica. Como esperar que haja espaços sociais livres dessa lógica? Todos eles tendem a ser capturados.
BNEWS: Quando regras básicas de convivência e respeito a um espaço público são quebradas desse jeito, qual é o prejuízo disso para a democracia e para o dia a dia das pessoas? As instituições estão ficando fracas diante dessa turma?
Paulo Fábio Dantas Neto: A democracia se enfraquece porque não é eficaz para resolver brigas de turma. Ela não funciona onde o radicalismo se dissemina. Há quatro anos ainda era possível dizer (com alguma imprecisão) que o problema estava numa determinada turma, que a democracia derrotou. Os perdedores recuaram, mas o pluralismo do ambiente também, os vencedores reafirmaram-se como polo e não como despolarizadores e as alternativas políticas minguaram. Com isso os perdedores de 2022 tiveram seu espaço de volta e estão tentando ocupá-lo, mudando parcialmente o discurso.
A guerra retornou, agora com menos consenso público sobre quem está do lado da democracia ou contra ela. Todo mundo a defende e ao mesmo tempo a interpreta de modo cada vez mais narcísico. A disputa é sobre quem é o dono da verdade. O messianismo que antes era traço de uma turma virou padrão mais generalizado. Assim, as chances de episódios de intolerância aumentam. As instituições democráticas não estão tão ameaçadas como em 2022, mas a conduta democrática sim. Há campo livre para lógicas de faxina. Quem ganhar a eleição não terá direito ao benefício da dúvida.
BNEWS: Professor, hoje parece que quanto mais grave o escândalo ou mais agressiva a briga, mais alcance o político ganha nas redes, alimentando uma verdadeira usina de ódio que transforma o adversário em inimigo. Como o senhor analisa essa lógica em que o algoritmo premia o conflito, e o que essa busca por engajamento extremo revela sobre o momento que a nossa sociedade está vivendo?
Paulo Fábio Dantas Neto: Confesso que minha reflexão sobre até que ponto se pode responsabilizar o algoritmo por atitudes políticas não é suficiente para que eu dê uma resposta a essa questão que vá além de um achismo. Logo, não poderia chamar qualquer resposta minha de análise. Só não me convence a ideia de que, por se buscar engajamento extremo, ele está acontecendo, a não ser para número restrito de pessoas. No geral, em vez de engajamento crescente, minha impressão é de indiferença crescente.
BNEWS: Como o senhor avalia o impacto desse vale-tudo digital nessas eleições? A gente deve esperar campanhas focadas em propostas para melhorar a vida das pessoas ou o conflito e o circo digital vão ditar o tom das urnas?
Paulo Fábio Dantas Neto: Compartilho o mal estar generalizado com a má qualidade do cardápio político preparado por elites e partidos. Ele limita muito as possibilidades de escolha a partir de motivações e expectativas positivas. Esperar que propostas realistas guiem os passos dos candidatos é como apostar num azarão, porque os caminhos para enfrentar a realidade em que o país se encontra não são de fácil recepção eleitoral. Daí que tendem a ficar submersos ou ao menos na penumbra numa campanha. Mas isso não quer dizer que não existam noções distintas sobre o que fazer. Se os políticos não souberem bem, não faltará quem lhe aponte nos bastidores.
A grande vantagem de se viver numa democracia é que nela o humor dos eleitores governa os governantes. Ainda que os candidatos não o levem na devida conta, os que se elegerem terão que governar e não poderão fazê-lo de costas para os eleitores. O poder das urnas provém de eleições serem uma instituição contínua. Então o mais decisivo (e desafiador) não é descobrir qual candidato tem melhores propostas nessa eleição.
É chegar a consensos mínimos sobre o que será exigido de quem vier a governar, seja quem for. A miséria maior da política no momento é estarmos a anos-luz de esboçar esses consensos sociais parciais porque uma parte dos cidadãos comprou ingressos para a assistir à briga de turma seja para torcer ou para vaiar e outra parte não vê o que esse espetáculo tem a ver consigo.
BNEWS: Para fechar, professor: diante desse cenário onde o escândalo digital dita a regra, como a Justiça, a universidade e a própria sociedade devem reagir para não cair na armadilha de dar ainda mais palco para quem só quer tumultuar?
Paulo Fábio Dantas Neto: Vou falar da universidade pública. Tornei-me professor ciente de que é um espaço público, não é mera agência de governo nem propriedade das pessoas e categorias que formam sua comunidade interna. Adquiri essa consciência no tempo de estudante, quando governos ditatoriais diziam que estudante era só para estudar e achavam indevida a presença de política nas universidades.
A democracia conquistada deslegitimou essa visão. A universidade, como a sociedade, deve ser plural e não o será se pretender ser um bunker protegido da política. Como instituição de mérito ela não deve ser governada pela política e como instituição republicana não pode ter alergia à política nem ser veículo de uma determinada política, seja qual for.
Para mim tudo isso continua valendo. Daí não considero ilegítimo um candidato, ou parlamentar, entrar numa universidade para defender ou combater uma posição política. Isso não faz dele um invasor, pois não há assuntos nem opiniões proibidas numa instituição cuja vida depende da liberdade de pensamento.
Nada disso se aplica a quem provoca tumulto, por intimidação ou agressão. Se o ambiente é plural esses objetivos serão frustrados e as autoridades da instituição terão respaldo para agir e delimitar os episódios à condição de ocorrências insólitas, incapazes de perturbar a paz e a normalidade no campus. A fórmula não é nenhum segredo: firmeza no posicionamento e comedimento nas palavras e gestos, para não dar ares de guerra cultural ao que parece ser uma estratégia eleitoral.
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