Esporte

Bastidores da Copa: Por que a Globo desistiu do pacote completo e deixou a CazéTV transmitir todos os jogos

Pela primeira vez desde 1970, Globo não exibiu todas as partidas do Mundial; decisão envolveu custos dos direitos, estratégia digital e negociação com a Fifa.  |  Reprodução

Publicado em 22/07/2026, às 07h34 - Atualizado às 07h44   Reprodução   Redação Bnews

A decisão da Globo de não comprar todos os jogos da Copa do Mundo de 2026 abriu espaço para a CazéTV transmitir o Mundial completo no Brasil. Pela primeira vez desde 1970, quando passou a exibir a competição, a emissora carioca não teve exclusividade ou acesso ao pacote integral de partidas, optando por um acordo que garantiu 55 jogos, enquanto o canal da LiveMode ficou com os 104 confrontos do torneio.

De acordo com a Folha de São Paulo, a escolha foi resultado de uma mudança na estratégia da empresa, influenciada por fatores financeiros, aumento dos custos dos direitos esportivos e uma relação mais distante com a Fifa (Federação Internacional de Futebol). A decisão começou a ser desenhada ainda em 2022, quando a Globo definiu que não compraria a totalidade dos jogos da Copa disputada nos Estados Unidos, México e Canadá.

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

Globo perdeu pacote completo da Copa para a CazéTV
Algumas das partidas mais comentadas da Copa do Mundo terminaram chegando ao público brasileiro apenas pela CazéTV. Foi o caso da semifinal entre Espanha e França, que garantiu a classificação espanhola para a decisão, e também do duelo em que o goleiro Vozinha, de Cabo Verde, ganhou destaque pela atuação contra a Espanha na primeira fase.

A Globo, que tradicionalmente concentrava a transmissão do Mundial no país, exibiu 55 partidas. O SBT ficou com 32 jogos, enquanto a CazéTV adquiriu o pacote completo, com todos os 104 confrontos.

Apesar da perda de parte dos direitos, a emissora garante que alcançou números expressivos durante o torneio. Em nota enviada à reportagem, o departamento de comunicação informou que, até as semifinais, foram "140,2 milhões de pessoas alcançadas pela Globo (TV Globo, SporTV e GeTV) na Copa do Mundo, sendo 34,3 milhões de pessoas impactadas exclusivamente pela Globo", considerando dados do Ibope.

Globo e Fifa tiveram desgaste antes da Copa
O jornal detalha que, para entender a decisão, é preciso voltar a 2020, quando o Grupo Globo entrou na Justiça para tentar renegociar valores previstos no contrato com a Fifa. A emissora buscava rever o pagamento de US$ 90 milhões, referente ao período entre 2015 e 2022, diante dos impactos financeiros provocados pela pandemia.

O impasse durou alguns meses e terminou com um acordo entre as partes em 2021. No ano seguinte, porém, a Globo perdeu a exclusividade dos direitos digitais da Copa do Mundo do Qatar, e a Fifa passou a negociar com a LiveMode.

Segundo fontes ouvidas pela reportagem, 2022 foi um momento decisivo para o afastamento entre Globo e Fifa. Naquele ano, a emissora confirmou que não teria os direitos digitais do Mundial seguinte e também decidiu não adquirir todos os jogos da Copa de 2026.

Custos da Copa pesaram na decisão
Dois fatores financeiros são apontados como importantes para a escolha da Globo. O primeiro foi o impacto da pandemia nas contas do Grupo Globo.

Segundo o jornalista Ernesto Rodrigues, autor de uma trilogia sobre os 60 anos da TV Globo, a empresa passou por um período de cortes.

"Como várias outras empresas, a Globo precisou fazer muitas demissões em consequência da pandemia. Se não fosse o sucesso de publicidade do Big Brother Brasil [de 2020], teria sido ainda pior", afirmou.

Naquele período, havia uma meta de reduzir R$ 1 bilhão por ano em despesas, segundo Rodrigues.

Outro ponto foi o aumento dos valores cobrados pelos direitos de transmissão esportiva. O custo da Copa do Mundo cresceu ao longo dos anos, impulsionado pelo tamanho do evento e pela entrada de grandes empresas digitais na disputa.

A venda dos direitos de transmissão representa uma das principais fontes de receita da Fifa. Na Copa de 2022, o valor chegou a US$ 3,4 bilhões. No Mundial deste ano, alcançou US$ 4,3 bilhões.

Globo diz que buscou equilíbrio entre investimento e retorno

Em nota, a Comunicação da Globo afirmou que a decisão fez parte de uma análise estratégica sobre investimentos. A emissora disse que "revisa suas dinâmicas, processos e estratégias frequentemente e, durante a pandemia, quando foram renegociados alguns direitos incluindo os de transmissão da Copa do Mundo, o principal objetivo foi garantir o equilíbrio entre investimento e geração de valor".

Segundo a Globo, para a Copa de 2026, a prioridade foi adquirir "o pacote composto por todos os confrontos da seleção brasileira, a final e mais a metade das outras partidas do campeonato".

A empresa também afirmou que a disputa pelos direitos esportivos acontece em um ambiente de concorrência crescente.

"É preciso considerar que a Globo sempre conviveu em um ambiente de forte concorrência. Primeiro na TV aberta, depois na TV por assinatura e agora também no digital. Inclusive em Copas passadas, quando dividiu a exibição do campeonato com outros players. O grande desafio hoje é combinar duas realidades: a escalada dos custos de direitos e a receita que a exploração deles gera", informou a nota.

A Comunicação da Globo acrescentou que a transmissão envolve outros investimentos além da compra dos direitos.

"A discussão é bem mais ampla do que apenas ter o direito de exibir as partidas porque o investimento não termina na compra dos direitos. A Globo trabalha para entregar a melhor experiência para as pessoas, investindo em qualidade técnica, equipes e talentos, criatividade, tecnologia, inovação e distribuição", declarou.

Decisão dividiu opiniões dentro da Globo

Nos bastidores, há diferentes versões sobre quem teve maior influência na decisão de não adquirir todos os jogos da Copa. Uma corrente aponta Jorge Nóbrega, presidente-executivo do Grupo Globo entre 2017 e 2022, como um dos responsáveis pela mudança de estratégia.

"Ele começou a pegar pesado contra a TV aberta. É dessa época a decisão de não gastar muito dinheiro com esporte", disse Ernesto Rodrigues. Questionado pela reportagem, Nóbrega respondeu: "Tenho por princípio não falar de questões internas da Globo desde que saí de lá".

Outra ala defende que uma decisão desse tamanho envolveu diferentes setores da empresa e contou com participação dos acionistas do Grupo Globo, além de Manuel Belmar, diretor de produtos digitais, finanças, jurídico e infraestrutura da Globo, e do próprio Nóbrega.

A emissora, segundo Renato Ribeiro, diretor de esportes da Globo, pretende disputar novamente todos os direitos da Copa do Mundo de 2030. "Estamos de olho no novo ciclo e na Copa feminina, que acontece aqui no Brasil no próximo ano. Queremos mostrar que só nós entregamos uma Copa em massa para a Fifa", afirmou.

Classificação Indicativa: Livre


TagsfutebolCopa do mundoGloboCazé TV