Esporte

Jornalistas apontam racismo estrutural após vaias e fortes críticas a treinador ex-Bahia: “400 anos de escravidão”

Jornalistas discutem como a rejeição ao técnico Roger Machado reflete o racismo estrutural no futebol brasileiro  |  Felipe Oliveira / EC Bahia

Publicado em 27/04/2026, às 14h46 - Atualizado às 14h59   Felipe Oliveira / EC Bahia   Cauan Borges

As jornalistas Alicia Klein e Milly Lacombe afirmaram que parte da rejeição ao técnico Roger Machado, ex-comandante do Bahia, por torcedores do São Paulo está ligada ao racismo estrutural presente no futebol brasileiro, durante o programa “Jogou Onde", em meio ao debate sobre as críticas recebidas pelo treinador.

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Alicia contestou a ideia de que a insatisfação com Roger seja motivada exclusivamente por questões esportivas. De acordo com a jornalista, as vaias direcionadas ao técnico mesmo após uma vitória e uma atuação considerada positiva diante do Juventude, na última terça-feira (21), evidenciam um cenário que vai além do desempenho em campo.

Flávio Prado, sobre a pressão em cima de Roger Machado no São Paulo:

“Tem fator político, porque interessa para muita gente no São Paulo que o clube perca; acho que tem parte de racismo e também tem a ver com a memória curta das pessoas. Porque o trabalho do Crespo foi muito… pic.twitter.com/U2TlsciPG4

— Planeta do Futebol 🌎 (@futebol_info) April 27, 2026

Durante a análise, a comentarista destacou dados sobre a desigualdade racial no futebol brasileiro. Alicia lembrou que mais de 60% dos jogadores do país são negros, enquanto apenas dois clubes da Série A contam atualmente com treinadores negros.

Para Alicia, a baixa presença de profissionais negros em cargos de liderança do cenário futebolística revela uma estrutura que também impacta a forma como técnicos como Roger são avaliados.

É impossível tirar o componente racial das cobranças ao Roger. Ontem, para mim, foi um dos maiores, porque o São Paulo está bem, jogou bem, continua vencendo, mesmo com as mudanças que ele fez depois da saída do Crespo, e ainda assim ele não tem um minuto de paz. E o pessoal da direção do São Paulo, não aparecem para amenizar as porradas que o Roger está tomando, o que aí sim, para mim, é um problema sério de profissionalismo e possivelmente de ética mesmo”, disparou Alicia Klein.

Milly Lacombe reforçou que o racismo nem sempre se manifesta de maneira explícita, mas pode operar de forma estrutural e até inconsciente, influenciando percepções e julgamentos.

A jornalista relacionou o debate ao legado histórico da escravidão no Brasil e à falta de políticas efetivas de inclusão após a abolição. Segundo Lacombe, a sub-representação de pessoas negras em posições de comando no futebol e em outros espaços de poder é reflexo direto dessa herança.

Não é que a torcida do São Paulo vai lá, ‘vai ao Roger e fala, vamos aqui’, não é assim que o racismo funciona. É óbvio que tem o racismo entendido como esse desvio moral, que é esse racismo na cara, mas existe a necessidade de a gente entender que um país que passou 400 anos escravizando pessoas, 400 anos escravizando pessoas, foi o último país, 35% das pessoas sequestradas de África foram trazidas para o Brasil, 35%. Durante quatro séculos, a base da economia brasileira foi a escravidão”, comentou Milly.

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