Meio Ambiente
Publicado em 16/06/2026, às 05h00 - Atualizado às 05h20 Reprodução/Redes sociais/Unsplash Antonio Dilson Neto
Uma blusinha que chega por e-mail com desconto. O talher de plástico que o garçom entrega sem perguntar. O eletrônico que troca de modelo antes mesmo do anterior quebrar. No dia a dia, quase tudo o que consumimos segue uma mesma lógica: alguém extrai a matéria-prima, fabrica o produto, nós usamos — e depois descartamos.
Esse modelo tem nome: economia linear. E, segundo especialistas, ele chegou ao limite. O acúmulo de décadas de produção em escala, somado ao crescimento populacional e ao aumento do consumo, criou um sistema que o planeta simplesmente não consegue sustentar. A natureza não repõe os recursos na mesma velocidade em que eles são retirados.
📲 Mantenha-se informado! Siga o CANAL DO BNEWS NO WHATSAPP e receba as principais notícias diretamente no seu dispositivo. Clique e não perca nada!
É nesse cenário que ganha força um conceito que começou a se popularizar no início dos anos 1990: a economia circular. A proposta é simples de enunciar e complexa de executar — em vez de colocar produtos no mercado sem nenhuma responsabilidade sobre o que acontece com eles depois, pensar desde o início no que será feito quando aquele material chegar ao fim da sua vida útil.
Uma garrafa de plástico, por exemplo, não precisa ser lixo e pode ser matéria-prima de novo.
A economia linear prioriza a extração intensiva de recursos naturais e o consumo sem freio, com pouca ou nenhuma circulação posterior dos materiais. O resultado já é bem conhecido: degradação ambiental, poluição, desmatamento, emissão de gases de efeito estufa e perda de biodiversidade.
A economia circular nasce como resposta a esse cenário. Em vez de um ciclo curto (produzir, usar, descartar), ela aposta na continuidade. Resíduos se transformam em novos recursos, materiais ganham vida útil estendida, e o objetivo passa a ser manter tudo em circulação pelo maior tempo possível.
Na prática, isso aparece em gestos que muita gente já faz sem nomear. Reparar um objeto em vez de substituí-lo. Comprar de segunda mão em brechós e feiras. Compartilhar ferramentas e equipamentos de uso pontual — hoje já existem até empresas especializadas nesse tipo de aluguel.
E, claro, reciclar de forma correta, o que evita poluição em rios, mares e aterros, além de sustentar o trabalho de milhares de catadores pelo país.
Para a pesquisadora Luana Vilutis, do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura da Universidade Federal da Bahia (CULT/UFBA), socióloga e educadora que atua com formação e pesquisa em políticas públicas e desenvolvimento territorial, a economia circular não é exatamente uma novidade — pelo menos não para todo mundo.
A cultura influencia profundamente a forma como uma sociedade entende o que é necessário, o que é excesso, o que tem valor e o que pode ser descartado", explica.
Segundo ela, consumo e descarte não são apenas decisões individuais ou econômicas: eles expressam modos de vida, relações com o território, com o tempo, com a natureza e com a coletividade.
A pesquisadora observa que as sociedades modernas, marcadas pelo consumo de massa, foram educadas a associar progresso à expansão permanente da produção. "A ideia de progresso ficou muito vinculada ao novo, ao rápido, ao descartável, à substituição constante. Isso cria uma cultura em que o descarte parece natural, quando na verdade ele é resultado de um modelo histórico, econômico e cultural", afirma.
É aí que entram os povos e comunidades tradicionais, não como curiosidade folclórica, mas como fonte de conhecimento prático. "Não se trata de romantizar essas comunidades, mas de reconhecer que existem conhecimentos históricos sobre manejo, circularidade, equilíbrio e pertencimento que são muitas vezes desvalorizados pelo pensamento econômico dominante", diz Luana.
Segundo ela, em muitas culturas originárias a relação de complementariedade com a natureza é tão profunda que não há separação entre território e corpo, entre as matas, os rios e as pessoas.
A pesquisadora cita o campo da Política Nacional Cultura Viva como exemplo dessa lógica. Muitos Pontos de Cultura, segundo ela, trabalham com práticas tradicionais, tecnologias sociais, saberes ancestrais, redes de troca, reaproveitamento de materiais, produção comunitária e formas não monetárias de circulação de recursos.
Essas experiências mostram que a circularidade não é apenas uma inovação empresarial ou ambiental. Ela também pode ser uma prática cultural, comunitária e política, baseada em vínculos, território e cuidado coletivo", destaca.
A redução do consumo intensivo diminui a demanda por extração de recursos naturais, o que significa menos desmatamento, menos degradação do solo e menos perda de biodiversidade. Menos extração também significa menos energia consumida e, consequentemente, menos emissão de gases de efeito estufa.
Mas o impacto não se limita ao ambiental. Do ponto de vista econômico, a transição para modelos circulares abre espaço para negócios em áreas como logística reversa, remanufatura e desenvolvimento de materiais a partir de resíduos. E gera empregos: reparo, reutilização, reciclagem e design para circularidade são frentes de trabalho que crescem junto com esse modelo.
Quando perguntada sobre o que seria possível se a economia circular fosse adotada em larga escala, Luana Vilutis vai além da reciclagem e fala em transformação cultural.
Ela nos convida a sair de uma lógica predatória baseada na extração, no excesso, no descarte e na concentração de riquezas para uma lógica orientada pelo cuidado, pela regeneração, pela cooperação, pela distribuição de poder e pela responsabilidade coletiva", afirma.
Para a pesquisadora, o risco é reduzir o conceito a uma estratégia de eficiência produtiva. "O desafio é fazer com que ela seja também uma transição cultural, social e política. Não basta reciclar mais ou produzir com menos impacto; é preciso transformar nossa relação com o consumo, com o trabalho, com os territórios, com os bens comuns e com o tempo", diz.
Ela enxerga conexões diretas entre a economia circular e experiências que já existem nos territórios brasileiros — economia solidária, mutirões, trocas, uso compartilhado de recursos, saberes tradicionais. "Essas experiências mostram que outro futuro não começa apenas nas grandes tecnologias empresariais, mas também nas formas cotidianas de colaboração, pertencimento e imaginação política", afirma.
A síntese que Luana propõe é, ao mesmo tempo, simples e ambiciosa: uma sociedade circular não seria apenas aquela que aproveita melhor os materiais, mas aquela que aprende a fazer circular também cuidado, conhecimento, renda, poder, reconhecimento e esperança.
Natureza, cultura, território e vida comunitária fazem parte de um mesmo tecido", resume.
Mineradora australiana inicia perfurações em busca de terras raras na Bahia
Junho Verde: Brasil perde cinco árvores por segundo em ritmo alarmante de desmatamento