Meio Ambiente
Publicado em 14/06/2026, às 05h00 Imagem gerada por IA Alex Torres
Considerado o maior bioma do planeta, os oceanos cobrem cerca de 70% da superfície da Terra e são fundamentais para a regulação do clima, a produção de oxigênio e a manutenção da biodiversidade. No entanto, esse ambiente tão precioso para a manutenção da vida humana tem sido gradativamente danificado por uma ameaça silenciosa: a poluição.
Em linhas gerais, grande parte desse problema passa despercebido pela população. No entanto, os efeitos já são sentidos na vida marinha, assim como na pesca, no turismo e até na qualidade de vida das futuras gerações. Durante o projeto Bnews Junho Verde, especialistas têm alertado para a necessidade de ampliar a conscientização e adotar medidas capazes de reduzir os impactos desse problema que ameaça o futuro dos mares.
Apesar da importância dos oceanos para a manutenção da vida no planeta, a percepção sobre sua relevância ainda é limitada. Em conversa com o Bnews, o coordenador de pesquisa e conservação do Projeto Tamar, Paulo Lara, afirmou que acredita que a distância física entre a população e os mares contribui para essa falta de conscientização.
"Apesar de enormes, os oceanos são distantes para a maioria das pessoas. Eles são a principal fonte do oxigênio que nós respiramos, e muita gente ainda fala que a Amazônia é o nosso pulmão. A Floresta Amazônica é fundamental para o nosso clima, é claro. Mas há poucos olhares sobre a importância dos oceanos, principalmente porque a maior parte deles está realmente distante da população e até mesmo das regras de um país", afirmou o pesquisador.
O afastamento da população em relação aos oceanos contrasta com a gravidade dos problemas enfrentados pelos ecossistemas marinhos. Coordenador do Instituto Baleia Jubarte, Gustavo Rodamilans explicou que, entre os principais danos, estão a poluição química, sonora e o descarte inadequado de resíduos, que afetam diretamente milhares de espécies.
A poluição vai afetar diretamente os animais, de forma que muitos desses poluentes são contaminantes químicos. Então, os animais podem se contaminar quimicamente por conta desses poluentes, como também podem ficar engasgados com sacos plásticos, podem ter algumas patologias que podem ser provocadas, podem ter perfurações no intestino se ingerirem algum objeto perfurocortante [...] Todos esses animais estão sendo diretamente impactados pela poluição nos oceanos", afirmou Rodamilans ao Bnews.
Entre os animais mais afetados com a poluição, estão os mamíferos marinhos, tartarugas e diversas espécies de peixes. Redes de pesca podem se embaraçar nos animais e debilitá-los até que venham a óbito, além da possibilidade de ingestão de plásticos descartados de forma irregular e a poluição sonora, principalmente no caso de baleias e golfinhos.
Poluição além do plástico
Apesar dos resíduos sólidos serem os tipos mais comuns e mencionados quando se fala de poluição, especialistas destacam outras formas nocivas, mas que não são tão percebidas no cotidiano. Além das substâncias químicas e esgotos sem tratamento, existem os ruídos provocados por embarcações e até a iluminação artificial em áreas costeiras como grandes ameaças.
"Os oceanos estão poluídos de diferentes formas. A poluição sonora provocada pelos motores das embarcações comerciais tem causado distúrbios na comunicação de baleias e golfinhos. A poluição luminosa tem provocado muito estrago em áreas costeiras, mas a poluição química é a que mais afeta os oceanos", afirmou Paulo Lara.
Gustavo Rodamilans também reforçou a importância da destinação adequada de equipamentos utilizados na atividade pesqueira: "O descarte correto de redes de pesca, dos apetrechos de pesca, que muitas vezes são perdidos e, quando ficam à deriva no mar, se tornam uma ameaça, é fundamental para esses animais".
Vale destacar que os impactos causados pela poluição nos oceanos não afetam somente a biodiversidade. Setores que dependem diretamente desses recursos marinhos, como o turismo, por exemplo, também sofrem diretamente com os efeitos da degradação ambiental.
Para o turismo, um lugar degradado não tem valor algum. É muito importante que isso seja considerado nas áreas de exploração econômica do mar. Temos muitos exemplos mundiais de indústrias pesqueiras que exploraram os recursos até esgotar seus estoques e hoje estão falidas", explicou Paulo Lara
Os especialistas ainda garantem que um manejo sustentável já se mostrou bastante efetivo na hora de conciliar preservação ambiental com o desenvolvimento econômico. Áreas protegidas e o uso responsável dos recursos naturais têm contribuído para a recuperação de estoques pesqueiros e para a geração de renda em comunidades costeiras.
Papel da sociedade
Mesmo esses problemas tendo dimensões globais, algumas simples mudanças de hábitos da população já são capazes de reduzir a quantidade de poluentes que chegam nos oceanos. Descarte correto do lixo, redução de plásticos descartáveis e o fortalecimento de políticas públicas voltadas para a gestão de resíduos são algumas das medidas apontadas como fundamentais.
"A sociedade tem um papel importante porque precisa rever seus padrões de consumo, bem como a forma como determina o que é lixo e como faz o descarte dele. A redução do plástico de uso único é muito importante. A vida útil das embalagens deve ser repensada", ressaltou o pesquisador do Projeto Tamar.
Para Rodamilans, a mudança também passa por escolhas individuais. "A gente tem visto uma sociedade de muito consumismo. Então, a mensagem que eu procuro deixar para as pessoas é que elas pensem nos resíduos que estão produzindo, pensem para onde esses resíduos estão indo", concluiu.
Invisível para a grande parte das pessoas, a poluição dos oceanos já produz efeitos concretos na biodiversidade, na economia e na qualidade de vida das futuras gerações. Os impactos tornam urgente a adoção de medidas capazes de proteger um dos recursos mais importantes do planeta. No entanto, pesquisadores reforçam que a preservação também depende de uma combinação entre conscientização, políticas públicas e mudanças de comportamento.