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Europa em pé de guerra: O que se sabe sobre a onda de protestos que se espalham por países e deixam milhares de detidos

Da revolta estudantil na França à crise de moradia na Espanha e greves na Bélgica, continente enfrenta escalada de violência urbana, mais de 6.800 prisões e instabilidade política.  |  Reprodução / X

Publicado em 09/10/2026, às 12h37 - Atualizado às 13h55   Reprodução / X   Gabriel Dinis

A Europa entrou na primeira quinzena de outubro sob uma onda simultânea de paralisações, manifestações de massa e distúrbios civis que ameaçam a estabilidade política de governos centrais no continente.

O que começou com protestos pontuais contra a precariedade de colégios públicos na periferia de Paris e a revolta contra a crise imobiliária em Madri transformou-se, em menos de três semanas, em um levante de diversas camadas com centenas de milhares de pessoas nas ruas, mais de 6.800 detenções, confrontos com forças de choque e a convocação de eleições antecipadas na Espanha.

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Grandes jornais internacionais como o francês Le Monde, o britânico The Guardian e a agência Reuters apontam que as mobilizações refletem uma saturação social acumulada, ou seja, a população cansou da combinação de orçamentos nacionais de austeridade, inflação contínua nos serviços básicos, moradia inacessível para a juventude e o esgotamento da infraestrutura pública.

Cronologia dos fatos

Em 18 de setembro, uma faísca acendeu-se na região metropolitana de Paris, no distrito de Créteil. Estudantes do Lycée Saint-Exupéry organizaram bloqueios nos portões em solidariedade aos professores que protestavam contra a falta crônica de docentes e as más condições das instalações.

A revolta dos estudantes rapidamente ganhou um alvo principal: a Parcoursup, plataforma digital que controla a entrada nas universidades na França. Chamada pelos jovens de “injusta”, a ferramenta passou a ser acusada de favorecer alunos de escolas ricas e prejudicar quem vem de bairros mais pobres e periféricos. Em apenas três dias, os protestos se espalharam por colégios de várias regiões do país, como Bretanha, Lyon e Marselha.

Madrid, Sevilha, Salamanca, entre muitas outras cidades, assinalam este 2 de Setembro de 2026 como um dia de profunda contestação a um Governo de extrema-esquerda que, refém da sua própria deriva ideológica, levou centenas de milhares de espanhóis às ruas em protesto. Perante uma crise política desta dimensão, o Rei de Espanha deveria assumir o seu papel institucional como moderador e promover o diálogo entre as forças políticas, facilitando a demissão do Governo e a transição constitucional de poderes através de novas eleições. A fórmula política de Sánchez tem muitos fãs em Portugal, e esta imprudência política merece redobrada atenção nacional para que não sejamos levados a cometer os mesmos erros.

— Manuel Poêjo Torres (@mpoejotorres) September 2, 2026

No dia 23 de setembro, enquanto a França via seus colégios serem trancados por barricadas de lixeiras, a Espanha entrava em ebulição com o despejo forçado de María del Carmen Abascal, uma aposentada de 87 anos em Madri, após um aumento de 230% no valor do aluguel. A imagem da idosa sendo retirada de casa pela polícia converteu-se no símbolo da crise habitacional espanhola, mobilizando o Sindicato de Inquilinas e movimentos populares.

Já em 29 de setembro, uma greve geral de servidores públicos na França funcionou como catalisador definitivo: as centrais sindicais uniram-se aos grêmios secundaristas e universitários, transformando reivindicações educacionais em um protesto amplo contra o plano de corte de gastos do governo francês.

No dia 3 de outubro, na Espanha, dezenas de milhares de manifestantes marcharam em mais de 50 cidades. Nas mais famosas, Madri e Barcelona, ativistas ergueram acampamentos permanentes na Puerta del Sol e na Plaza Catalunya, exigindo o congelamento imediato dos aluguéis, o banimento de fundos imobiliários internacionais e o fim de todos os despejos.

Esse video impactante dos protestos na Espanha, oriundos do despejo de Maricarmen, senhora que morava havia cerca de 70 anos no mesmo apartamento no bairro do Retiro, em Madri. Ela faleceu no dia 7 de outubro. https://t.co/sGzZfCkqRq

— Sérgio Santos (@ZAMENZA) October 9, 2026

Nos dias 4 a 6 de outubro, cerca de 500 escolas de ensino médio e dezenas de universidades foram totalmente paralisadas na França. Uma marcha nacional reuniu entre 250 mil e 450 mil pessoas em Paris, Marselha, Nantes e Lille, com episódios de depredação de agências bancárias e queima de veículos.

Em 6 de outubro, começaram a se intensificar as ações de estudantes e movimentos sociais que ocuparam praças de Roma para contestar a aprovação da reforma eleitoral Stabilicum pela Câmara dos Deputados e o novo “Decreto de Segurança” do governo Giorgia Meloni, que criminaliza bloqueios de trânsito em manifestações.

Choques violentos

A tensão atingiu o ápice com o endurecimento das operações policiais. No norte da França, em Lens, um estudante de 15 anos teve a mão decepada após a detonação de uma granada de dispersão lançada pela polícia antimotim (CRS). O episódio provocou indignação internacional e levou a Anistia Internacional e a ONU a emitirem advertências sobre o uso desproporcional da força contra menores de idade.

#Catalonia — Today in Barcelona, hundreds of thousands of people took part in a mass demonstration for the right to housing. https://t.co/EDWXhU9oAF

— Antifa_Ultras (@ultras_antifaa) October 5, 2026

A reação institucional foi reforçada pela Comissão Nacional Consultiva de Direitos Humanos (CNCDH), entidade vinculada às Nações Unidas, que apontou o "caráter manifestamente desproporcional de algumas intervenções policiais e procedimentos judiciários" que visam os estudantes. O documento da comissão adverte que a ordem de firmeza emitida pelo Ministério do Interior não pode servir de justificativa para desrespeitar a vulnerabilidade dos menores e a proporcionalidade no uso da força.

Para conter o conflito, a comissão convocou as autoridades acadêmicas e o governo a "restaurar de urgência um espaço de diálogo" com os estudantes, professores e pais. A nota conclui que a resposta essencialmente repressiva apenas aprofunda a liderança da violência e a perda de confiança nas instituições, reiterando que a palavra dos jovens deve ser ouvida e levada em consideração, e não tratada como caso de polícia.

Pressionado, o Ministério do Interior francês anunciou a suspensão temporária do artefato e o Ministério da Educação prometeu a convocação emergencial de 3 mil professores substitutos.

O efeito cascata

Como historicamente acontece, a França serve de exemplo para manifestações democráticas e a agitação no país se expandiu para o território europeu, como se fosse um “efeito cascata”.

O clima de tensão se espalhou pelo continente em diferentes frentes políticas e sociais. Na Espanha, a repercussão da crise de moradia provocou uma reviravolta institucional, após a rejeição de um pacote emergencial de habitação pelo Parlamento, o primeiro-ministro Pedro Sánchez dissolveu o Legislativo e convocou eleições antecipadas.

Já na Alemanha e no Reino Unido, as atenções se voltaram à segurança pública durante manifestações polarizadas que marcaram três anos do conflito no Oriente Médio. Em Berlim e Londres, fortes esquemas policiais e prisões preventivas foram mobilizados para isolar bairros governamentais e representações diplomáticas.

Em 9 de outubro, eclodiu na Bélgica uma greve nacional convocada por sindicatos. Entre 30 mil e 50 mil manifestantes marcharam pelo centro de Bruxelas contra medidas de austeridade fiscal. O ato ganhou contornos violentos quando grupos encapuzados entraram em confronto com as forças de segurança perto da sede da União Europeia, provocando incêndios debelados com canhões de água e gás lacrimogêneo.

Balanço

A escalada dos protestos pela Europa deixou um rastro de danos materiais, comoção pública e paralisia de serviços essenciais, forçando governos a lidarem com o desafio de conter a violência urbana sem agravar o rombo nas contas públicas. Os números da repressão policial, concentrados apenas na França, apontam para mais de 6.800 pessoas detidas. A grande maioria é formada por menores de 18 anos, gerando forte reação de juristas e entidades de proteção à infância.

Além dos detidos, estudantes, funcionários escolares e mais de 300 agentes das forças de segurança ficaram feridos nos confrontos, levando o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, a classificar a crise como o  preço mais pesado pago pelo sistema escolar em décadas.

No âmbito econômico, o impacto das mobilizações ameaça o já frágil sistema orçamentário dos países da Zona do Euro. Na França e na Bélgica, a queima de veículos, o vandalismo contra agências bancárias e a depredação de fachadas de colégios e prédios públicos acumulam prejuízos diretos aos cofres públicos. O maior impasse reside na pauta dos sindicatos estudantis e docentes, que exigem um aporte emergencial de 10 bilhões de euros em investimentos na educação pública. Demanda que eleva a forte pressão sobre os títulos da dívida pública francesa no mercado financeiro internacional.

🇧🇪 BELGIQUE : Manifestation de plusieurs dizaines de milliers de personnes à Bruxelles contre la rigueur budgétaire. La police a déclaré avoir dû faire usage de canons à eau et de gaz lacrymogène après avoir essuyé des jets de projectiles de la part de jeunes gens souvent vêtus de noir et masqués. Des feux ont été allumés au niveau de la Gare centrale à celle du Midi.

— Infos Françaises (@InfosFrancaises) October 9, 2026

No cenário político, a Espanha viu o seu primeiro-ministro Pedro Sánchez antecipar as eleições gerais diante da crise habitacional. Na França, os partidos de oposição articulam moções de censura no Parlamento, acusando o Poder Executivo de negligência com a educação e autoritarismo na gestão da segurança pública. A tentativa do governo de rotular os manifestantes como “arruaceiros profissionais” foi rechaçada e aumentou a polarização.

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