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Publicado em 18/08/2026, às 12h55 Divulgação Redação Bnews
A idosa, de 62 anos, resgatada pela Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT) em condições análogas à escravidão após 55 anos de trabalho sem salário não está mais na casa dos empregadores, em um condomínio de luxo no Eusébio, na Grande Fortaleza, no Ceará. Segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), a rescisão foi concluída e a mulher não possui mais vínculo de trabalho no local.
A informação foi confirmada pelo MPT, que não informou para onde a vítima foi encaminhada. O órgão afirmou que o processo segue em tramitação e está sob sigilo. A defesa da família empregadora, por sua vez, informou que a idosa deixou a residência em 27 de julho para passar uma temporada com a irmã e outros parentes no interior do Ceará.
O caso começou a ser investigado após uma denúncia anônima feita pelo Disque 100, canal do Governo Federal para recebimento de denúncias de violações de direitos humanos.
De acordo com a Auditoria-Fiscal do Trabalho, a mulher chegou à casa da família ainda aos sete anos de idade e permaneceu no mesmo núcleo familiar durante praticamente toda a vida. Ela não estudou e passou 55 anos sem receber salário.
A história começou com a mãe da vítima, que também havia trabalhado para a família. Segundo a auditora fiscal do Trabalho Maria Neuzeli, a mãe se casou aos 14 anos e voltou para Padre Marcos, no Piauí. Anos depois, a matriarca da família foi até a cidade para buscá-la novamente e trouxe também duas das filhas dela.
Antes de morrer, a mãe teria "dado" a menina de sete anos à família empregadora. Aos auditores fiscais, a trabalhadora contou que, naquela época, "fazia coisa de criança: lavava roupa e limpava a casa".
A criança permaneceu na primeira residência até 1982. Aos 18 anos, passou a trabalhar para o núcleo familiar formado pela filha da primeira empregadora.
Em 2014, ela foi levada para a casa de Zaamarah Alencar Brasil Andrade, onde passou a cuidar dos filhos e das atividades domésticas.
Segundo a fiscalização, a trabalhadora permaneceu durante mais de 50 anos em uma relação sem remuneração, marcada pela dependência econômica, pela privação de oportunidades educacionais e pela permanência contínua no mesmo núcleo familiar desde a infância.
No momento do resgate, ela cuidava de duas crianças, de 11 e sete anos, preparava refeições e realizava as atividades domésticas necessárias ao funcionamento da residência.
Segundo os fiscais, a idosa não tinha vida pessoal independente. Ela não saía sozinha, não sabia ler ou escrever, não tinha conta bancária e passava parte do dia realizando tarefas domésticas.
Maria Neuzeli afirmou que a trabalhadora nunca havia namorado e não possuía amizades no condomínio onde vivia.
"Ela não sabe se locomover na cidade, tem medo da violência lá fora. Ela se sentia 'paga' pelos trabalhos porque recebia roupa, comida e moradia. Mas a rotina dela ficava em torno das crianças", disse a auditora.
Após o resgate, a mulher chegou a permanecer temporariamente na casa dos empregadores. Segundo os órgãos responsáveis, ela não tinha autonomia suficiente para morar sozinha e havia criado um vínculo com a família.
A Auditoria-Fiscal do Trabalho afirmou que a permanência não descaracterizava a situação constatada durante a fiscalização.
Durante a fiscalização, segundo a Auditoria-Fiscal do Trabalho, o empregador reconheceu a prestação de serviços sem formalização do vínculo e admitiu que os pagamentos não eram feitos regularmente.
Foi firmado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). A estimativa é de que os salários não pagos, férias, 13º salários, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), verbas rescisórias e horas extras façam os créditos trabalhistas ultrapassarem R$ 1,5 milhão.
Entre as obrigações previstas estão a regularização dos recolhimentos previdenciários, o pagamento de R$ 50 mil em verbas rescisórias, dividido em dez parcelas de R$ 5 mil, e a aquisição de um imóvel residencial para a trabalhadora, no valor mínimo de R$ 150 mil, com mobiliário e eletrodomésticos essenciais.
O acordo também prevê o custeio das contribuições previdenciárias até que a mulher consiga a aposentadoria e uma complementação financeira de até R$ 12 mil caso ela complete 64 anos sem acesso ao benefício previdenciário.
A Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará informou que a mulher continua recebendo atendimentos multidisciplinares frequentes, com foco no incentivo à autonomia.
"O acompanhamento seguirá de forma contínua, dando seguimento ao apoio psicossocial necessário no pós-resgate e à articulação com os órgãos competentes para acesso à rede de proteção e aos serviços públicos, a partir das demandas que venham a ser identificadas", informou a pasta.
A defesa da família, por outro lado, nega que tenha ocorrido situação análoga à escravidão. Em nota, afirmou que a idosa deixou a residência em 27 de julho e foi passar uma temporada com a irmã e outros parentes no interior do Estado.
"A defesa reitera que a inexistência de qualquer situação análoga à escravidão será devidamente demonstrada e comprovada pelos meios próprios, no âmbito das instâncias competentes."
O caso segue em tramitação e sob sigilo no Ministério Público do Trabalho.