Polícia
Publicado em 22/07/2026, às 06h13 - Atualizado às 06h30 Divulgação / MPSP Redação Bnews
Três coronéis da Polícia Militar de São Paulo foram citados em relatórios do Ministério Público do Estado que embasaram a Operação Janus, deflagrada nesta terça-feira (21).
A ação mira um núcleo suspeito de movimentar valores ilícitos em favor do PCC (Primeiro Comando da Capital) e de participar dos chamados tribunais do crime. A decisão judicial autorizou 18 prisões e operações de busca e apreensão. As informações foram obtidas pela Folha de São Paulo.
Coronéis mencionados
Entre os nomes citados está o coronel José Augusto Coutinho, ex-comandante-geral da PM paulista até abril deste ano e atualmente na reserva. Também aparecem o coronel Luiz Carlos Pereira Martins, ligado a um grupo de WhatsApp, e um coronel identificado apenas como Patrício.
A defesa de Coutinho declarou que não teve acesso à investigação e afirmou: “Sem prejuízo da análise dos elementos da investigação, a defesa reafirma a integridade e a correção com que o coronel Coutinho sempre exerceu suas funções”. Disse ainda estar certa de que, no curso do procedimento, será demonstrada a inexistência de qualquer envolvimento de sua parte.
A reportagem não identificou quem representa a defesa de Pereira Martins.
Conversas interceptadas
Uma das mensagens interceptadas pela investigação mostra suspeitos discutindo a necessidade “de recursos financeiros para pagar a polícia”, segundo decisão da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da capital.
Coutinho foi mencionado em conversas envolvendo o operador financeiro Amjad Ahmad, apontado como responsável por serviços de “troca de TED por dinheiro vivo” e com conexões com integrantes do PCC. Até a operação desta terça, não havia outros elementos além dessas menções.
Já o coronel Patrício aparece em uma planilha como cliente de um dos operadores. Em operação anterior, uma anotação indicando pagamento de R$ 1 mil em favor dele foi encontrada na casa de um investigado.
O coronel Pereira Martins, por sua vez, participava de um grupo de WhatsApp com suspeitos de lavagem de dinheiro. “Destaca-se a participação de ambos em grupo de WhatsApp denominado ‘Aniversário general’, ativo ao menos até 21 de novembro de 2023, no qual eram enviadas mensagens de caráter pessoal e social, inclusive relacionadas a eventos e celebrações, evidenciando relação de proximidade para além de contatos meramente ocasionais”, diz a decisão.
Troca de dinheiro vivo
Segundo as investigações, os alvos da operação, Cléber Azevedo dos Santos, Robson Martins de Souza e Amjad Ahmad, apontados como financiadores da facção, “demonstraram possuir influência sobre policiais civis e militares”.
Os suspeitos atuavam na conversão de transferências eletrônicas em valores em espécie e vice-versa. O esquema era descrito pelos próprios envolvidos como “troca de TED por vivo”.
Quem tinha dinheiro em espécie proveniente do tráfico entregava as cédulas ao grupo e recebia uma transferência bancária com aparência lícita, sustentada por justificativas econômicas. O processo ocorria por meio de empresas de fachada.
Omissão e suspeitas anteriores
O nome de Coutinho já havia aparecido em manifestação da Promotoria de Justiça Militar, que apontou indícios de possível prevaricação ou condescendência com comportamentos criminosos. Ele teria deixado de determinar investigações sobre vazamentos de operações contra o PCC, mesmo após alertas.
Na época, a Promotoria não mencionava relação direta entre o oficial e a organização criminosa. A apuração mirava subordinados de Coutinho na Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), entre 2020 e 2021.
Desdobramentos
A Operação Janus é um desdobramento das operações Recidere, Bazaar e Sallus et Dignitas. As investigações são conduzidas pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado), braço do Ministério Público especializado no combate a organizações criminosas.