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Política

Emendas milionárias de Flávio Bolsonaro vão parar em entidade “inexistente”, empresas alvos da PF e instituto ligado a miliciano

Recursos indicados pelo senador foram usados para pagar entidade classificada como “inexistente”, empresas investigadas pela PF e projeto ligado a tratativas com miliciano  |  Lula Marques/ Agência Brasil

Publicado em 01/10/2026, às 06h36 - Atualizado às 06h46   Lula Marques/ Agência Brasil   Redação Bnews

Emendas do senador Flávio Bolsonaro (PL) foram usadas para pagar uma entidade classificada pela Receita Federal como “inexistente de fato”, empresas investigadas pela Polícia Federal por suspeita de fraude em licitações e um instituto que teve recursos tratados com um miliciano, segundo levantamento publicado pelo Uol nesta quinta-feira (1º).

Desde 2020, Flávio teve mais de R$ 300 milhões reservados para emendas no orçamento federal. A reportagem rastreou empresas e entidades contratadas por órgãos públicos que receberam recursos indicados pelo senador.

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Procurado, Flávio afirmou que não indica as empresas que recebem os valores destinados por suas emendas.

Entidade recebeu R$ 666 mil em Mesquita

Em 2024, Flávio destinou R$ 3,1 milhões para a atenção básica de saúde de Mesquita (RJ), município governado pelo PL. Desse montante, R$ 666 mil foram pagos, em agosto de 2025, ao Instituto de Medicina e Projeto (IMP).

Em junho deste ano, a Receita Federal classificou o IMP como “inexistente de fato”. Segundo documento do órgão, existem “razões que evidenciam que a empresa foi constituída para prática de fraude fiscal, inclusive em proveito de terceiras empresas”.

O instituto é investigado pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) desde 2024 e foi contratado por diferentes municípios do estado para administrar serviços de saúde. Em Mesquita, os contratos firmados com o IMP ultrapassaram R$ 580 milhões entre 2019 e o fim de 2024, segundo documentos consultados pelo UOL.

O levantamento também identificou emendas de outros três deputados, do PL, PSDB e PSD, utilizadas para pagar despesas do instituto no município.

TCE-RJ apontou suspeitas de irregularidades

Segundo a reportagem, o IMP não tem site desde 2021. Os e-mails informados nos contratos não funcionam e o telefone registrado na Receita Federal não atende.

O presidente do instituto era um idoso, beneficiário de um programa social e morava de favor, conforme reportagem do G1 publicada em 2023.

Em acórdão de 2025, o TCE-RJ apontou suspeitas de irregularidades na relação entre a Prefeitura de Mesquita e o IMP. Entre elas estavam a ausência de estudos técnicos antes da transferência da gestão da saúde municipal para o instituto e indícios de conluio na concorrência vencida pela entidade.

O tribunal também registrou que uma das pessoas que assinavam documentos do IMP estava morta desde 2017. Após o caso, a Prefeitura de Mesquita decretou, em abril deste ano, que o instituto não poderia assinar novos contratos com o município por dois anos.

No processo administrativo, a prefeitura informou que o IMP “não apresentou defesa escrita, não constituiu advogado e não manifestou interesse na produção de provas”.

A Prefeitura de Mesquita afirmou que rescindiu os contratos com a entidade, que foi condenada ao pagamento de multa de R$ 3 milhões e declarada inidônea por dois anos. O caso também foi encaminhado ao Ministério Público.

Empresas investigadas receberam recursos

As emendas de Flávio também foram usadas em despesas do Governo do Rio de Janeiro com empresas investigadas pela Polícia Federal por suspeita de fraude em licitações envolvendo equipamentos de proteção balística para a Polícia Militar.

A Glágio do Brasil recebeu R$ 569 mil entre maio e junho em convênios com emendas de Flávio. A maior parte dos recursos veio de um convênio que também recebeu dinheiro de Daniela do Waguinho (Republicanos) e Hélio Lopes (PL).

A Inbra-Tecnologia, integrante de outro grupo citado na investigação da Polícia Federal, recebeu R$ 1,1 milhão no mesmo convênio da Glágio. Uma nota de empenho publicada pelo Ministério da Justiça identifica a emenda do senador em uma compra de 342 capacetes balísticos da empresa.

A Glágio e uma empresa do grupo Inbra foram alvo de buscas na Operação Perfídia, em setembro de 2023. A Polícia Federal apontou suspeitas de divisão de contratos públicos para proteção balística, com alternância de vitórias conforme o tamanho dos equipamentos e a região do país.

Durante a investigação, uma mensagem de um representante da Glágio afirmou que o general Walter Braga Netto “prometeu interferir” para que uma aquisição fosse concluída. Segundo a Polícia Federal, o autor da mensagem era um oficial da reserva contratado em 2019 para “fazer lobby junto ao alto escalão do Governo” e tentar reverter a suspensão do processo de compra dos coletes.

A apuração envolvendo as empresas corre sob sigilo.

Emenda para projeto ligado ao Vasco entrou na mira da CGU

Outro caso envolve uma emenda de R$ 4 milhões destinada em 2025 a um projeto esportivo ligado ao Vasco da Gama. Segundo reportagem do colunista Juca Kfouri, o recurso entrou na mira da Controladoria-Geral da União (CGU).

Do total, R$ 684 mil, equivalentes a 93% dos gastos do projeto, foram destinados a um único fornecedor: a microempresa individual Luiz Armando Marcondes de Oliveira ME, registrada em uma sala comercial em Sapopemba, na Zona Leste de São Paulo.

Os pagamentos foram feitos entre março e maio deste ano para a compra de materiais esportivos.

Miliciano tratou de emenda com assessora

Em outro episódio, Flávio destinou R$ 200 mil ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP) para um projeto esportivo em Taquara, no Rio de Janeiro. O mesmo portal havia publicado, em setembro de 2025, uma reportagem sobre indícios de irregularidades na destinação dos recursos.

Mensagens reveladas pelo Estadão mostram que Robson Calixto, conhecido como Peixe e condenado no caso da morte da vereadora Marielle, tratou da liberação das emendas com uma assessora de Flávio.

Outro recurso indicado pelo senador foi destinado ao município de Resende (RJ). No local, a empresa Valle Sul recebeu nove pagamentos que totalizaram R$ 6,61 milhões para obras de revitalização do aeroporto municipal.

Segundo a revista piauí, máquinas da empresa foram flagradas trabalhando dentro de uma propriedade privada pertencente a Renato Araújo, amigo de Flávio.

O que diz Flávio Bolsonaro

Em nota, o senador afirmou que nem ele nem assessores do gabinete indicam empresas para receber os recursos.

“Sobre a destinação de emendas parlamentares, nem o senador ou qualquer assessor do gabinete indicam empresas para os beneficiários. A atuação do gabinete limita-se às atribuições institucionais relacionadas à indicação das emendas, de acordo com a legislação e critérios de cada ministério.

As decisões e procedimentos relativos à contratação são de responsabilidade dos respectivos beneficiários, observadas as normas legais e os procedimentos aplicáveis. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei.”

A Prefeitura de Mesquita informou que os contratos com o IMP foram rescindidos após processo administrativo e que a entidade foi condenada a pagar multa de R$ 3 milhões e declarada inidônea por dois anos. A prefeitura também afirmou que a continuidade temporária dos serviços ocorreu para evitar a interrupção da assistência à população durante a transição contratual.

Segundo o município, os recursos das emendas destinadas à saúde foram repassados ao Fundo Municipal de Saúde e aplicados no custeio dos serviços. A prefeitura afirmou ainda que a escolha da execução dos serviços compete ao município, sem participação do parlamentar, e que contratos, pagamentos e demais atos administrativos estão disponíveis no Portal da Transparência.

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