Política
Publicado em 22/10/2026, às 06h30 - Atualizado às 09h50 Reprodução/TV Globo e Reprodução/Instagram Redação Bnews
O diretor-executivo do RenovaBR, organização política apoiada pelo apresentador Luciano Huck, participou de um programa de intercâmbio financiado pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, segundo investigação publicada pelo site americano Payday Report, nesta terça-feira (20).
A viagem ocorreu entre junho e julho, integrando o projeto "Freedom 250: Youth in the Political Process", e levantou discussões sobre possíveis articulações para o processo eleitoral brasileiro de 2026.
Viagem aos EUA e treinamento
Documentos obtidos pelo veículo mostram que o dirigente da organização foi convidado por meio do Consulado-Geral dos Estados Unidos em São Paulo para integrar o International Visitor Leadership Program (IVLP). A iniciativa levou Cobra a passar três semanas em cidades americanas como Washington, D.C., Reno, Carson City, Charleston e Filadélfia.
O programa abordou estratégias de liderança para campanhas, habilidades de comunicação, preparação de centros eleitorais e procedimentos de segurança na apuração de votos. Após o retorno, Cobra publicou em sua rede social que iniciou conversas com representantes do IVLP e do consulado sobre uma iniciativa voltada a líderes políticos do Brasil focada em transparência eleitoral e gestão pública.
A organização não respondeu aos questionamentos do site sobre o volume de eventual apoio financeiro recebido.
Em sua conta oficial no LinkedIn, o diretor-executivo do RenovaBR, Rodrigo Matsumoto Cobra, detalhou a viagem e confirmou sua participação no programa. Na postagem, ele destacou que integrou a equipe focada em jovens e no processo político do IVLP.
Segundo o dirigente, o intercâmbio reuniu mais de 180 líderes de cerca de 100 países ao longo de 22 dias e passou por quatro cidades americanas, incluindo Washington, D.C., onde ocorreram discussões no Congresso e no Departamento de Estado, além de visitas a órgãos locais de registro eleitoral e cívico em Nevada, Charleston e Filadélfia.
Na mesma publicação, Cobra afirmou ter iniciado conversas com representantes do IVLP e do Consulado-Geral dos Estados Unidos em São Paulo para futuras iniciativas voltadas a lideranças políticas brasileiras.
O apresentador Luciano Huck, que comanda o programa Domingão com Huck na TV Globo (Televisão Globo), atua há quase uma década como a principal figura pública do RenovaBR, entidade que recruta, treina e financia candidatos.
No fim de setembro, Huck usou seu espaço televisivo para lançar o aplicativo “Have My Vote”, desenvolvido em parceria com a Coalizão pelo Voto Consciente. A ferramenta prometia cruzar prioridades dos eleitores com candidatos alinhados aos seus valores, mas gerou críticas após ativistas apontarem uma recomendação excessiva de nomes ligados à direita.
“A plataforma foi completamente manipulada e indicava praticamente apenas candidatos de direita”, afirmou a deputada federal Fernanda Melchionna. “O eleitor tem direito a informações transparentes, não a uma ferramenta tendenciosa apresentada como se fosse neutra.”
Os criadores suspenderam o aplicativo e atribuíram o problema à inteligência artificial.
“O conjunto de candidatos participantes não era suficientemente diverso e havia pouco tempo para ampliá-lo, o que comprometeu a eficácia da plataforma como ferramenta de comparação. Por isso, optamos por suspendê-la neste ciclo eleitoral”, disseram em nota.
O Ministério Público do Rio Grande do Sul investiga o apresentador e a emissora por suposta violação da legislação eleitoral federal devido à divulgação da ferramenta na televisão.
Procurado pela reportagem internacional, o advogado de Luciano Huck, João Fábio Azevedo e Azeredo, enviou uma declaração por e-mail rechaçando qualquer envolvimento com interferência externa.
“O Sr. Huck nunca aceitou, solicitou ou recebeu financiamento destinado a influenciar qualquer eleição no Brasil, nem participou de qualquer esquema envolvendo influência de governos estrangeiros no processo eleitoral brasileiro”, escreveu o defensor.
A investigação do Payday Report situa o caso em meio a outras iniciativas do governo Trump relacionadas ao processo eleitoral brasileiro. A publicação menciona a destinação de US$ 1 milhão do Departamento de Estado a um programa chamado “Countering lawfare and censorship in Brazil”, revelada pelo jornal britânico The Guardian em setembro.
Segundo a reportagem, o programa tinha como objetivo atacar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que condenaram o ex-presidente Jair Bolsonaro e buscaram limitar interferências estrangeiras nas eleições brasileiras.
O site também cita a atuação de Brad Parscale, diretor digital da campanha de Trump, como consultor na campanha do candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), além de medidas comerciais adotadas pelo governo americano em retaliação à condenação do ex-presidente brasileiro.
A reportagem afirma que autoridades brasileiras têm manifestado preocupação com possíveis interferências dos Estados Unidos nas eleições de 2026. O governo Lula também negou vistos a integrantes do governo Trump diante do receio de atuação política estrangeira no país.
O Payday Report informou ainda que autoridades da Polícia Federal brasileira e da área de inteligência alertaram para o aumento da atuação americana no processo eleitoral.
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