Salvador
Publicado em 04/09/2026, às 04h30 Reprodução/Bnews TV Analu Teixeira e Victoria Alves
Aos quase 50 anos, Adalberto Santos carrega uma história que se confunde com as próprias ruas de Salvador. Conhecido como Coroa, ele calcula ter passado cerca de quatro décadas nelas. Foi entre calçadas, amizades, sol, chuva e sereno que encontrou uma forma de viver, e também aquilo que hoje mais deseja deixar para trás.
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“Meu sonho é sair disso aqui. Me livrar do vício. Me livrar do vício”, disse, emocionado, ao BNews.
Coroa é um dos personagens encontrados pela reportagem em uma busca para conhecer quem existe por trás de uma realidade que faz parte da paisagem diária da capital baiana. As histórias mostram que não existe um único caminho que leve alguém às ruas, nem uma solução simples para sair delas.
No caso dele, a relação começou ainda na infância. Coroa conta que nunca teve uma convivência fácil com a família e que encontrou entre as pessoas que conheceu nas ruas um afeto que sentia faltar em casa.
“Eu achava mais carinho com o povo da rua do que com a minha mãe”, contou.
Hoje, ele dorme sobre papelão e com um lençol. Ao falar sobre o dinheiro que consegue, reconhece que parte dele é consumida pela dependência química. “Eu gasto R$300 todo mês de droga. Esses R$300 que eu gasto de droga, eu não podia pegar um cantinho para alugar?”, questionou.
A relação de Denise Conceição com as ruas é diferente. Aos 68 anos, ela tem onde morar, mas é nas ruas que busca doações, alimentos, roupas e companhia. Conhecida como “Vó”, Denise afirma não ser aposentada e não possuir renda. “Eu venho por causa das doações. Porque eu não sou aposentada, não tenho renda nenhuma. Eu venho para ajudar minhas duas filhas com meus seis netos”, explicou.
Ao mesmo tempo em que depende do que encontra nesse ambiente, Denise conhece os riscos que ele oferece. Por isso, faz questão de tentar manter os netos afastados da realidade que presencia diariamente.
Para Márcio, a chegada às ruas veio depois de uma sequência de perdas. Cantor e compositor, ele deixou o interior da Bahia após se casar e construiu uma vida em Salvador. Teve filhos, trabalhou e viveu com a família até começar a enfrentar diferentes lutos.
Primeiro, perdeu os pais, depois, o filho mais velho. Há dois anos, segundo contou à reportagem, morreu a esposa. Pouco tempo depois, ele também perdeu o filho com quem mantinha maior proximidade.
Além da dor, Márcio passou a conviver com o preconceito. “Você nunca é considerado. Você é considerado um qualquer. Não é considerado um ser humano, um irmão, um cidadão, um trabalhador”, desabafou. “É considerado: ‘Cuidado, é ladrão’. Não é assim. Há um pai de família que está passando sofrimento.”
Márcio também enfrenta a dependência química. No momento em que conversou com o BNews, comemorava estar há seis dias sem usar drogas. Quando questionado se conseguiria abandonar definitivamente o vício, porém, respondeu: “Não consigo”. Ele contou já ter passado um ano e dois meses sem fumar.
Apesar das dificuldades, ainda encontra na música uma forma de se conectar com a vida que tinha antes.
As três histórias ajudam a chegar a uma pergunta que vai além de oferecer uma vaga em um abrigo: como fazer com que uma pessoa saia das ruas e consiga permanecer fora delas?
Segundo Ivana Ramos, assistente social e coordenadora do Serviço Especializado em Abordagem Social, existem diferentes fatores por trás dessa realidade e as políticas públicas precisam considerar também as particularidades de cada pessoa. “Por mais que a gente crie políticas públicas, se o sujeito também não se implicar nesse processo, a gente não consegue avançar. Hoje, a gente tem porta de saída”, explicou.
Entre as iniciativas citadas pela coordenadora estão auxílio-moradia, auxílio complementar para mobiliar residências e ações voltadas à empregabilidade. Um dos projetos acompanhados por Ivana reúne 50 pessoas que estavam em situação de rua e passaram a ter uma rotina de trabalho. “É uma rotina diferente, mas está dando certo, porque eles querem que dê certo”, afirmou.
A complexidade aparece até mesmo entre pessoas que já conseguiram uma moradia. Ivana relatou ter encontrado, no Campo da Pólvora, pessoas beneficiadas com auxílio-moradia que continuavam frequentando e dormindo nas ruas.
Ao perguntar a uma delas por que permanecia ali mesmo tendo uma casa alugada, ouviu que preferia dormir com a “maloca”. Para a assistente social, os vínculos e a relação de cumplicidade construídos ao longo do tempo também precisam ser considerados. “Não é só números, são vidas, são histórias. São várias violações de direitos que levam eles a estar naquela condição”, destacou.
Além da rede municipal, a população em situação de rua também é atendida por iniciativas como o Corra para o Abraço, do Governo da Bahia, enquanto o programa Vida Nova integra as ações municipais de atendimento e acolhimento.
No fim, as histórias voltam para desejos muito particulares. Coroa quer vencer o vício. Denise quer ver os netos crescerem longe dos riscos que conhece. Márcio quer voltar a cantar.
Três pessoas que podem ser vistas diariamente apenas como alguém dormindo em uma calçada, pedindo ajuda ou recebendo uma doação. Quando são ouvidas, porém, as ruas passam a carregar nomes, memórias, perdas e planos para o futuro.
Veja a reportagem completa: