Saúde
Publicado em 25/06/2025, às 12h46 Reprodução / Freepik Leonardo Oliveira
De vilão a herói? Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Pensilvânia, nos Estados Unidos, conseguiu transformar um fungo tóxico que não só afeta as safras, como foi associado a mortes em escavações de sepulturas antigas num potente composto anticancerígeno. Conhecido como Aspergillus flavus, as moléculas do fungo foram modificadas e experimentadas contra células leucêmicas.
A descoberta abre perspectivas para novos medicamentos derivados desses organismos situados entre o mundo vegetal e o animal: "Os fungos nos deram a penicilina. Agora, estes resultados demonstram que estão por se descobrir muitos mais medicamentos derivados de produtos naturais", comenta a professora de bioengenharia Sherry Gao, principal autora do estudo publicado na revista Nature Chemical Biology.
Da maldição a transformação
O A. flavus teve fama de vilão através da "maldição do faraó". Arqueólogos liderados por Howard Carter abriram a câmara funerária do soberano egípcio Tutancâmon (1341 a 1323 a.C.), na década de 1920, e uma série de mortes misteriosas entre a equipe de escavação deu origem à lenda. Décadas mais tarde, houve a conclusão de que os esporos (amarelos, daí o epíteto latino "flavus") do microrganismo, latentes há séculos, poderiam ser os causadores.
Até a década de 1970, a tragédia se perpetuou quando 12 cientistas penetraram na sepultura de Casimiro 4º da Polônia (1427-1492). Dentro de poucas semanas, dez deles morreram de forma prematura. Ocorreu a revelação da presença do fungo em análises posteriores, cujas toxinas provocam infecções pulmonares.
No entanto, a partir do atual estudo, a reputação do Aspergillus flavus poderá mudar radicalmente. Ele pode ser útil na terapia do câncer que se baseia numa classe de peptídios (moléculas compostas de dois ou mais aminoácidos) modificados.
Identificados pelo acrônimo RiPP (ribosomally synthesized and post-translationally modified peptide), eles são substâncias sintetizadas pelos ribossomos (estruturas que fabricam proteínas nas células) e posteriormente modificados para intensificar suas propriedades anticancerígenas.
A equipe analisou geneticamente uma dúzia de cepas, chegando ao A. flavus, após pesquisas anteriores demonstraram que o fungo podia conter RiPPs.
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Ação específica promissora
Após purificar quatro RiPPs distintos, descobriu-se que as moléculas partilhavam estruturas de anéis entrelaçados, que foram batizadas "asperigimicinas". Duas dessas quatro variantes demonstraram efeitos anticancerígenos potentes ao serem combinadas com células leucêmicas humanas, mesmo sem modificações.
Em uma terceira variante, os cientistas da Pensilvânia acrescentaram um lipídio também encontrado na geleia real das abelhas: o composto funcionou tão bem quanto a citarabina e a daunorrubicina, dois fármacos aprovados pelas autoridades sanitárias dos EUA, empregados há décadas no tratamento da leucemia.
Outros experimentos indicaram que as asperigimicinas tem a provável capacidade de interromper o processo de reprodução celular. "As células cancerosas se dividem de modo descontrolado. Esses compostos bloqueiam a formação de microtúbulos, essenciais para a divisão celular", explica a professora Sherry Gao, líder do estudo.
Ainda foi possível notar que os compostos tinham pouco ou nenhum efeito sobre células do câncer de mama, fígado e pulmão, ou sobre diversas bactérias e fungos. Isso sugere que a ação disruptiva das asperigimicinas é específica para certos tipos de célula, uma característica fundamental para eventuais usos terapêuticos.
A pesquisa revelou que outros fungos também possuem genes semelhantes, sugerindo que há mais RIPPs fúngicos a serem descobertos. O próximo passo é testar as asperigimicinas em modelos animais, visando futuros ensaios clínicos em humanos.
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