Saúde
Publicado em 15/09/2026, às 07h00 Foto: Ilustrativa / Pexels Cibele Gentil
O sofrimento mental é dolorosamente democrático e pode atingir a qualquer pessoa; não distingue idade, etnia, classe social ou localização geográfica. Os dois últimos aspectos, no entanto, serão determinantes para que a ajuda necessária a quem passa pela dor emocional possa chegar a tempo e evitar que a aflição individual se torne estatística.
De acordo com o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), no ano passado, houve 9.895 casos registrados de violência autoprovocada na Bahia, que incluem automutilação e suicídio. Entre janeiro e agosto de 2026, já foram contabilizadas 540 mortes por suicídio e 5.273 notificações de violência autoinfligida para o estado no sistema do Ministério da Saúde.
Os dados foram fornecidos pela Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab). Mas, para além das referências oficiais, os números podem ser ainda maiores, pois os casos de automutilação podem estar subnotificados.
Em geral, quanto menor é a cidade, menor é a estrutura pública para oferecer suporte desta natureza aos cidadãos. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece à população atendimento gratuito através da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). O cuidado acontece em unidades de saúde de diferentes níveis, desde os postos de bairro até hospitais especializados.
Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são os principais pontos de atendimento da rede. Eles oferecem assistência multidisciplinar, com psicólogos e psiquiatras. No entanto, apenas cerca de metade dos 417 municípios da Bahia podem contar com as unidades especializadas. No estado, as cidades menores, geralmente abaixo de 20 mil habitantes, não têm um CAPS fixo próprio.
Contudo, seria um engano pensar que em localidades do interior a incidência do sofrimento mental seria menos frequente, apenas por conta de um ritmo de vida menos acelerado que nos grandes centros. Dificuldades pessoais, isolamento geográfico, desemprego e escassez de atividades culturais são alguns dos fatores que acabam trazendo forte impacto psíquico.
Duas cidades baianas, Paulo Afonso e Jequié, trazem uma série histórica alarmante, com os maiores índices proporcionais de mortes por suicídio e autolesão. Em Paulo Afonso, localizada ao norte do estado, na região do Rio São Francisco, a taxa proporcional atingiu uma média de 12 casos a cada 100 mil habitantes. No ano de 2019, a cidade, com 117.782 habitantes, chegou a registrar 14 mortes autoinfligidas.
A média do município ficou 12 vezes maior que a de Salvador e também muito acima da média nacional. Embora a capital tenha números absolutos maiores, é ultrapassada quando se faz a relação de ocorrências e população local. A cidade de Jequié, na região Sudoeste da Bahia, ocupa o segundo lugar do ranking estadual, com uma proporção que ficou em 6,2 casos a cada 100 mil habitantes.
Nos municípios menores, sobretudo nas comunidades rurais, que não têm uma estrutura pública própria especializada em saúde mental, o principal canal para a identificação dos problemas da população e encaminhamento para tratamento é exercido pelos agentes comunitários de saúde. E esse é um trabalho com inúmeros desafios.
Através das visitas domiciliares, os profissionais tentam reconhecer os sinais de depressão ou outros transtornos mentais. Porém, muitas vezes, a própria pessoa ou a família tentar esconder o problema.
"O primeiro obstáculo, muitas vezes, é a omissão da própria família, que tenta esconder que tem alguém com transtorno. A gente tem muito isso de ver que a família ainda tem essa questão de não dizer que aquele indivíduo tem problemas, nega, esconde, até o momento em que essa pessoa tem um surto. Só aí é que vem a solicitação de mais ajuda", relatou Lázaro Figueiredo dos Santos, coordenador de políticas sociais do Sindicato dos Agentes Comunitários de Saúde da Bahia (Sindacs).
De acordo com o agente de saúde, os profissionais recebem capacitação para lidar em situações que envolvem questões de saúde mental, através de curso oferecido pelo Ministério da Saúde. No entanto, a falta de recursos da própria rede do SUS se torna um gargalo para que o indivíduo em sofrimento possa receber a atenção necessária.
Lázaro Figueiredo explicou que, quando os agentes identificam a demanda, muitas vezes o usuário do serviço público esbarra nas dificuldades de deslocamento para polos maiores e na alta procura das unidades, extrapolando em muito a capacidade de atendimento. “Ele tem que se dirigir à cidade mais próxima, vir para a casa de um parente, no local que tenha um profissional”, explicou.
Conforme avalia o coordenador, apesar de haver muitos psicólogos no interior, nem sempre estão disponíveis pelas prefeituras e nem toda a população pode recorrer ao atendimento particular. Outro ponto destacado por ele é a alta procura pelos serviços. “Quando a prefeitura se preocupa em fazer convênio, aí tem o convênio, mas aí o volume é tão grande que não dá conta”, relatou.
Outro problema descrito por Lázaro Figueiredo é a capacidade de atendimento das unidades da rede menor que a demanda, gerando uma grande fila de espera. "As unidades de saúde recebem essas pessoas, dão uma referência, encaminham até surgir a vaga para que essa pessoa possa ir até o local. Se ela conseguir, ótimo. Se ela não conseguir, ela vai esperar ser regulada, ou os parentes vão ter que se virar", expôs ele.
O agente de saúde também alertou sobre a administração inadequada de medicamentos. Muitos pacientes têm os primeiros atendimentos, mas não fazem o acompanhamento com um psiquiatra regularmente. Com isso, eles acabam interrompendo o tratamento por conta própria ou usam os remédios que já não correspondem à sua necessidade ou em doses inapropriadas.
"Se ele já foi a primeira vez no médico, eles vão comprar a mesma medicação com a mesma receita ou vai renovar, indo a outro médico ou quando vai um médico da família. Se não tem um psiquiatra, outro médico vai precisar renovar essa receita para que esse paciente não fique, pelo menos, sem a medicação, até ele conseguir uma consulta com o psiquiatra em uma cidade mais próxima”, contou Lázaro Figueiredo.
O coordenador do Sindacs ainda desabafou sobre os desafios diários enfrentados pelos agentes comunitários e o adoecimento atribuído ao exercício da função. As pressões psicológicas, a sobrecarga de trabalho, o assédio e a exposição à violência nas áreas visitadas acabam por impactar a saúde mental dos próprios profissionais.
"Nós temos agente de saúde que surtou e também está com transtorno devido ao trabalho, devido ao assédio moral, devido às cobranças constantes, devido à violência na área”, lamentou o sindicalista. De acordo com ele, diversos trabalhadores da categoria que desenvolveram transtornos e que já tiraram ou tentaram tirar a própria vida.
“Nós temos pessoas que hoje não conseguem sair de casa porque receberam alguma violência, revolver apontado para a cabeça, para a boca. Hoje, estão com problemas seríssimos de transtorno, de pânico, não saem mais de casa”. O sindicalista também chama os gestores para essa responsabilidade, apontando que os agentes adoecidos não recebem o apoio devido, mesmo que a situação tenha acontecido devido ao exercício profissional.
Quem passa por sofrimento emocional e psicológico precisa de ajuda. Caso em sua cidade não tenha CAPS, o paciente ou um familiar deve ir à Unidade Básica de Saúde (UBS) ou Posto de Saúde da Família (PSF) mais próximo. O médico fará a avaliação e acionará a rede para encaminhar o paciente ao CAPS da cidade-polo da região. Esta é a melhor forma de assegurar que a pessoa receba o atendimento necessário através do serviço público.
Também é importante lembrar que, em caso de emergência, o atendimento não precisa seguir essa burocracia. Em locais onde não há CAPS, o paciente deve se dirigir a uma UPA ou o Hospital Geral Local, que acionará a regulação estadual.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) pode ser acionado a qualquer momento. Qualquer pessoa que se sinta em sofrimento e precise de alguém para conversar, pode entrar em contato com os voluntários da organização. Eles estão disponíveis 24 horas pelo telefone 188. A ligação é gratuita e garante anonimato e sigilo absoluto.