Saúde

Os sinais de transtorno bipolar que não podem ser ignorados

Reconhecer os sinais iniciais do transtorno bipolar é crucial para um tratamento eficaz e prevenção de crises mais graves  |  Ilustrativa / Magnetic

Publicado em 24/09/2026, às 06h00   Ilustrativa / Magnetic   Cauan Borges

Durante o Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização e à valorização da vida do próximo, a discussão sobre saúde mental também passa pela identificação de transtornos que podem elevar o risco de comportamento suicida. Entre eles está o transtorno bipolar, condição marcada pela alternância entre episódios de mania ou hipomania e períodos de depressão.

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 A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que pessoas com transtorno bipolar apresentam risco aumentado de suicídio e destaca que existem tratamentos eficazes, que podem combinar medicamentos e intervenções psicossociais.

De acordo com dados divulgados pela Associação Brasileira de Transtorno Bipolar (ABTB), entre 30% e 50% (podendo chegar a 60% em algumas revisões) dos pacientes diagnosticados com transtorno bipolar tentam o suicídio ao longo da vida. 

O alerta ganha uma particularidade no caso da bipolaridade, já que o risco não está restrito aos períodos de depressão. Em entrevista ao BNews, o psicólogo André Dória, coordenador do Programa de Tratamento do Transtorno Bipolar da Holiste Psiquiatria, episódios de mania também podem colocar o paciente em situações de extremo risco.

O risco de suicídio é alto nos dois polos do transtorno: mania (também chamada de euforia) e depressão. Na mania, caracterizada pela aceleração do pensamento, aumento de energia e perda da censura, a pessoa pode se envolver em situações que põe em risco a sua vida. Ela passa a ter uma ideia patológica de que é um ‘super-humano’, com poderes ilimitados. E é justamente essa ideia de imortalidade que pode, em alguns casos, conduzir à morte. Dirigir em alta velocidade, fazer esportes radicais são atividades que, quando realizadas por profissionais preparados, não costumam oferecer riscos tão intensos do que quando realizadas por pessoas em mania”, explicou.

Segundo o psicólogo, a passagem de um episódio de mania para um quadro depressivo também pode ser marcada por uma mudança profunda na maneira como o paciente percebe a própria existência durante o cotidiano.

Já a depressão bipolar costuma, em alguns casos, surgir logo após o fracasso dessa solução maníaca que a pessoa adota, inconscientemente, para resolução dos seus conflitos internos. Quando o ‘super-humano’ perde os ‘superpoderes’, o que vem é um esvaziamento radical que se traduz por uma perda importante de interesse pela vida, que costuma se arrastar por um bom tempo. Nessa fase, o risco de suicídio é marcado não mais pelo cálculo errado da imortalidade maníaca, mas pela angústia insuportável que passa a fazer parte da existência”, afirmou Dória.
Transtorno bipolar - Foto: Ilustrativa / Magnetic
Transtorno bipolar - Foto: Ilustrativa / Magnetic
Transtorno bipolar - Foto: Ilustrativa / Magnetic
Transtorno bipolar - Foto: Ilustrativa / Magnetic
Transtorno bipolar - Foto: Ilustrativa / Magnetic
Transtorno Bipolar - Foto: Ilustrativa / Pexels

Sinais podem passar despercebidos

Um dos desafios relacionados ao transtorno bipolar está justamente na identificação das mudanças de comportamento. A fase inicial de uma crise nem sempre aparece para familiares como um problema.

O aumento da disposição, da energia e da produtividade pode ser interpretado como uma melhora no humor ou como uma característica positiva da personalidade, retardando a busca por atendimento especializado.

Dória explica que a hipomania pode permanecer por períodos prolongados sem produzir prejuízos evidentes, o que dificulta ainda mais a percepção de que existe uma alteração que precisa ser acompanhada. 

Em casos iniciais, os sinais podem demorar a ser percebidos. A mania, ou euforia, pode começar com um aumento da energia, da disposição, o que pode ser visto até como algo positivo por familiares e até pela própria pessoa. Essa fase, digamos, mais branda da elevação do humor também é chamada de hipomania. Já vimos pessoas que passaram meses, e até anos, em hipomania, sem nenhuma repercussão ou prejuízo da sua vida, até irromper um episódio maníaco”, relatou.

De acordo com o especialista, a diferença fica mais evidente quando o quadro evolui para a mania. A OMS descreve o momento como uma fase que pode envolver aumento intenso de energia, redução da necessidade de sono, autoestima inflada, pensamento acelerado, distração e comportamentos impulsivos ou de risco. Já nos episódios depressivos podem aparecer humor deprimido e perda de interesse ou prazer nas atividades.

O episódio maníaco é mais radical porque, se na hipomania a pessoa ainda se conectava com o mundo, na mania essa conexão se rompe. A crise fica explícita para os familiares em função dos sentimentos de grandeza e, por vezes, de sintomas como delírios e alucinações. Na depressão há também um rompimento, mas pela via oposta da desinibição maníaca, o que existe agora é uma importante inibição notada pela família”, explicou o psicólogo.

As causas não se resumem à genética

Outro ponto que dificulta a compreensão da bipolaridade é a variedade de fatores envolvidos no surgimento e na manifestação do transtorno. Embora exista evidência de componente genético, Dória afirma que reduzir a condição exclusivamente à hereditariedade deixa de lado aspectos individuais da história de cada paciente.

Existem muitos fatores envolvidos, e a nossa experiência nos mostra que a resposta só pode ser dada no caso a caso. Por exemplo, há um consenso na literatura de que há um forte componente genético. Na nossa prática é comum percebermos que existem em vários casos outras pessoas da família com o mesmo diagnóstico, mas também são inúmeras as ocorrências em que não há casos familiares prévios. A saúde mental é complexa. Por isso, tratar o transtorno bipolar somente como algo genético é uma leitura reducionista que exclui uma verdade inconveniente para a ciência: por sermos seres atravessados pela linguagem, o que transmitimos para nossos filhos é muito mais do que nossos genes”, avaliou.

Tratamento envolve paciente, família e rotina

A identificação precoce dos sinais pode contribuir para que o paciente receba acompanhamento antes do agravamento do quadro. Dória ressalta que o tratamento da bipolaridade também deixou de estar restrito à combinação entre medicamentos e psicoterapia. 

Em ambos os casos o início precoce do tratamento é sempre melhor, quando possível. E por falar em tratamento, ele avançou bastante, tanto do ponto de vista farmacológico quanto do ponto de vista das demais intervenções. Aquele modelo centrado no remédio e na psicoterapia se ampliou, devido à complexidade da bipolaridade, com a entrada de novos profissionais no circuito”, enfatizou.

O psicólogo explicita que a complexidade do transtorno exige a participação de diferentes profissionais e atenção à rotina do paciente. Além disso, o especialista destaca ainda a importância de organizar hábitos e atividades cotidianas durante o acompanhamento.

Sabe-se que a rotina das pessoas com transtorno bipolar fica de ponta-cabeça e o trabalho do acompanhante terapêutico é fundamental para fazer com que a organização da rotina repercuta diretamente na organização psíquica. Atualmente, sabe-se também que existe maior risco de comorbidades clínicas, como infarto e AVC, em quem tem bipolaridade, e o trabalho do educador físico é fundamental para ajudar a diminuir esses perigos à saúde. Em muitos casos, a família também precisa de tratamento e orientação especializada, sem a qual o suporte ao paciente fica mais frágil”, completou.

A OMS também aponta que o transtorno bipolar pode estar associado a outras condições de saúde e reforça a existência de diferentes possibilidades de cuidado, com medicamentos e intervenções psicossociais. No Brasil, o tratamento do transtorno bipolar também integra protocolos e diretrizes do Sistema Único de Saúde.

O Setembro Amarelo reforça a importância de tratar a saúde mental como uma questão de saúde pública e de ampliar o acesso ao cuidado. Em situações de crise ou quando houver risco imediato, é importante procurar um serviço de emergência ou atendimento de saúde. O CVV também oferece apoio emocional pelo telefone 188, de forma gratuita, em todo o Brasil.

Classificação Indicativa: Livre


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