Saúde
Publicado em 14/10/2026, às 06h00 Apesar dos avanços, dados mostram que nem todas as mulheres conseguem ter um fácil acesso a eles. - José Cruz/Agência Brasil Elisa Martins
Durante o Outubro Rosa, o incentivo das campanhas gira em torno do diagnóstico das pacientes e da importância da checagem anual no combate ao Câncer de Mama. No entanto, para um enfrentamento eficiente da doença, os principais avanços ocorreram na fase de tratamento. Oncologistas afirmam que a área está em sua era de precisão e que isso está permitindo mais mulheres vencerem a doença, independente do estágio que estiverem.
Essas inovações foram aceleradas desde 2019, com a formulação de novos medicamentos e métodos. Com isso, as operações cirúrgicas na mama e na axila têm sido cada vez menos necessárias para a paciente, se ela estiver sendo cuidada adequadamente.
Para cada classificação da doença há diversos tipos de tratamento. Ao contrário do que o muitos acreditam, ela não se trata de uma doença homogêna, e sim de um grupo plural de enfermidades.
A oncologista clínica e especialista em câncer de mama, Maíra Tavares, relatou que observou muitas pacientes que generalizam o diagnóstico quando conversam entre si. Contudo, a doença pode ser dividida em três grandes grupos: a Hormonal, na qual os tumores crescem ‘captando’ os dois hormônios femininos (o estrogênio e a progesterona); o HER2, o qual leva o nome da proteína que influência no crescimento das células cancerígenas; e o Triplo-Negativo, o mais agressivo dos três.
Enquanto os dois primeiros tiveram tratamentos direcionados se modernizando conforme o passar dos anos, os estudos em relação ao triplo-negativo levaram mais tempo. “Para o triplo-negativo a gente não tinha [tratamentos alvo], porque, inicialmente, não conseguíamos identificar a partir do quê esse tumor crescia”, explica a médica.
Nesse caso, um dos avanços mais destacados é a Imunoterapia, que estimula o sistema imune do paciente para combater o tumor.
Neste ano, a novidade mais recente foi a aprovação no Brasil do uso de uma nova classe de medicação, chamada de Anticorpos Conjugados (ADCs). Eles 'carregam' a quimioterapia e a libera em uma célula-alvo.
“É como o cavalo de Troia, que venceu a guerra porque os soldados estavam dentro do cavalo de madeira, mas que os troianos acharam que era um presente. Quando entraram no reino, o cavalo de madeira se abriu e os soldados saíram para lutar. No caso do ADC é a mesma coisa. Essa quimioterapia não poderia ser feita no paciente diretamente pela veia, porque ela é muito tóxica. A quimio não é inteligente, ela mata as células boas e ruins”, exemplifica a oncologista.
Os ADCs permitiram que pacientes em estágios mais avançados, como na metástase (quando células do tumor se espalham por outras partes do corpo) e sem célula-alvo definida, pudessem ser tratados, o que a imunoterapia não conseguia fazer. Segundo a médica, dois anticorpos autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) se destacam: o Datopotamabe e o Sacituzumabe.
Essa mesma classe pode ser utilizada no tratamento do câncer de mama tipo HER2. O nome dado à medicação neste combate é o Trastuzumabe Deruxtecana (T-DXd).
“Passamos mais de uma década o utilizando para pacientes com a doença HER2 inicial, ainda curativa, junto com a quimioterapia. No entanto, nós vimos que usando o TDXD também no tratamento inicial, no lugar da quimioterapia, conseguíamos fazer com que mais de 10% do tumor sumisse”, contextualiza.
No cenário hormonal, já é possível medicar os pacientes com comprimidos que atuam como bloqueadores, que fazem parte da hormonioterapia. Mas a principal novidade se dá no nível metastático. Neste caso, os pacientes passam por um exame de sangue, no qual será avaliado se o DNA do tumor têm uma mutação específica. Para os casos de confirmação, o uso de dois medicamentos aprovados neste ano podem ser usados: o Imlunestrant e o Camizestranto.
Para a especialista, essa é a terapia individualizada mais interessante do último ano.
“Esse paciente com doença metastática segue a vida normal, mas fazendo exames de imagem para detectar se aquela metástase aumentou ou não. A partir do momento que a metástase cresce, a gente troca o tratamento daquele paciente para uma outra hormonioterapia. Ao trocar pelo Camisastranto, é possível reduzir os riscos de morte da paciente”, complementa a doutora.
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Apesar das novas descobertas e melhorias na medicina oncológica, o acesso aos tratamentos ainda não é possível para todos. Parte das medicações citadas não estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS).
Sobre isso Ana Amélia Viana, oncologista e especialista em tumores de mama, ressalta que as inovações permitiram que a mortalidade pelo câncer caísse. Porém, essa realidade não é a mesma em populações vulneráveis do Brasil.
“O que temos no SUS é basicamente quimioterapia e bloqueio hormonal. Nem todos estão conseguindo se tratar e ter acesso aos novos tratamentos como os pacientes da rede particular", afirma.
De acordo com os estudos do Departamento de Pesquisa da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), mesmo os estados brasileiros com melhores qualidades de vida, ainda não é oferecido uma assistência suficiente às mulheres diagnosticadas com câncer de mama.
“No sistema privado nós ainda temos dificuldades, porque às vezes elas [medicações e terapias] são aprovadas fora do país, mas demoram de ser liberadas para o uso aqui. Se compararmos o sistema público e o privado, a dificuldade fica ainda maior”, complementa a especialista.
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