Vida
O fim das cirurgias e da quimioterapia contra o câncer de mama nem sempre representa o encerramento da doença para as mulheres que passaram pelo tratamento.
Depois da rotina de consultas, biópsias e procedimentos, muitas precisam lidar com um novo corpo, dores, mudanças na vida sexual, medo da recidiva e a dificuldade de se reconhecer diante do espelho. Para a psicóloga hospitalar e especialista em psico-oncologia Viviana Aragão, esse período ainda recebe pouca atenção.
Durante o Outubro Rosa, campanhas reforçam a importância da mamografia e do diagnóstico precoce. A prevenção e a descoberta da doença em estágios iniciais são fundamentais, mas o cuidado não termina quando a fase mais intensa do tratamento chega ao fim.
O câncer de mama pode provocar mudanças profundas na relação da mulher com o próprio corpo. A mastectomia, as cicatrizes e a perda de sensibilidade na região podem afetar a percepção de feminilidade, sensualidade, maternidade e afeto.
“O tratamento não modifica apenas a biologia ou a estética do corpo. Ele mexe profundamente no jeito como essa mulher se reconhece, como se relaciona, como lida com o trabalho, o sexo e o próprio futuro”, ressalta Viviana.
Segundo a especialista, esse processo pode ser entendido como um luto relacionado à identidade e à autoimagem.
“Surge aí o que chamamos de luto da identidade diante da alteração da autoimagem”, pontua Viviana.
“A paciente se depara com aquele novo contorno e se questiona: quem eu me torno agora? Não dá para reduzir isso a capricho estético. Trata-se de pertencimento, de estranhamento com o próprio reflexo.”
Mesmo quando há cirurgia reparadora ou reconstrução da aréola, a experiência do corpo pode continuar diferente. A mama reconstruída não apresenta necessariamente o mesmo toque, temperatura ou sensibilidade da original.
Outro desafio aparece quando familiares e amigos entendem que o fim da fase aguda significa que a mulher deve simplesmente retomar a vida anterior.
Na prática, o tratamento pode continuar por anos. Algumas mulheres enfrentam hormonioterapia, menopausa precoce, dores articulares, fadiga crônica, oscilações de humor e o medo da recidiva diante de exames de sangue ou de imagem.
“As pessoas dizem ‘pronto, passou, comemore’, enquanto a mulher ainda está tentando entender quem sobrou no meio de tantos remédios e mudanças”, avalia a psicóloga.
“Sobreviver ao câncer não é dar um passo para trás e adotar a postura de que será a mesma de antes. É aprender a conviver com as perdas, que elaboradas e integradas em si, promove um movimento em si de (re)existência com reconstruções de sentido à vida."
A vida íntima também pode ser afetada após o câncer de mama. Alterações hormonais e a insegurança provocada pelas cicatrizes podem reduzir o desejo e exigir novas formas de diálogo e adaptação dentro do relacionamento.
Algumas pacientes preferem interromper temporariamente a vida sexual enquanto redescobrem a própria intimidade. Outras passam a questionar aspectos da vida que existiam antes da doença, incluindo o trabalho e o ritmo da rotina.
É nesse período que ganha espaço no Brasil o conceito de survivorship, voltado aos cuidados durante a sobrevivência ao câncer. A proposta é ampliar a linha de cuidado para o período posterior ao tratamento quimioterápico.
A reabilitação envolve fisioterapia, acompanhamento médico continuado e assistência psicológica e nutricional.
Para Viviana, a psicoterapia nessa fase não deve transformar a experiência da doença em uma cobrança por positividade ou em uma obrigação de “superar” o câncer.
“Não se trata de ensinar a paciente a ‘superar’ nada como se fosse um desafio motivacional. O papel do acompanhamento é dar um espaço seguro para ela expressar as emoções deste caminho, na convivência com as dores residuais estabelecer a autonomia na busca de viver melhor daqui para frente.”
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