Saúde
por Cibele Gentil
Publicado em 01/10/2026, às 06h00
Depois de décadas, a mamografia continua sendo considerada o principal método de rastreamento para a identificação precoce do câncer de mama em todo o mundo. O procedimento chegou até mesmo a ‘roubar’ o protagonismo do autoexame das mamas na divulgação do Outubro Rosa, que costumava ser o carro-chefe da campanha anual nas edições iniciais.
Isso porque a mamografia é capaz de revelar microcalcificações, assimetrias e pequenas distorções nos tecidos da mama antes que essas alterações possam se tornar algo palpável. A técnica, que utiliza raio-X, consegue rastrear o problema antes que o autoexame ou o exame clínico, realizado por um médico, consiga perceber os nódulos em formação.
Apesar de a mamografia ser consenso entre os profissionais e autoridades da área da saúde como a principal ferramenta de rastreio para o diagnóstico precoce do câncer de mama, existem divergências sobre quando o exame deve ser incluído na rotina das brasileiras. A faixa etária recomendada pelo Ministério da Saúde é mais restrita do que a indicada por órgãos da classe médica no Brasil.
No entanto, havendo a prescrição médica, a mulher brasileira não encontra resistências para acessar o exame gratuitamente através do Sistema Único de Saúde (SUS). Desde 2025, o entendimento da Saúde no país é de que a mamografia seja adotada para as usuárias sempre que um médico solicitar que seja realizado o procedimento.
Segundo o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de mama permanece como a neoplasia mais incidente entre as mulheres brasileiras. Os órgãos também preveem um crescimento no número de casos em todo o país.
Até 2025, o Inca calculava que, a cada ano, surgiam mais de 73 mil novos casos no Brasil. Para o triênio de 2026 a 2028, as estimativas apontam um aumento da incidência da doença, com cerca de 78.610 novos casos por ano durante esse período.
A Bahia também vai sentir um crescimento nos números de câncer de mama. “Esse nível vem crescendo ano após ano. Até 2025, estava em cerca de 4.100. Para o triênio de 2026 a 2028, estimam-se 4.480 novos casos por ano. Então realmente é um câncer com incidência progressiva, que tem aumentado”, informou André Dias, coordenador do serviço de mastologia do Hospital da Mulher, em Salvador.
Conforme explicou o mastologista, com exceção de um tipo de câncer de pele não-melanoma, que não tem tanta agressividade, o câncer de mama é o principal tipo de câncer que atinge a população feminina. Em campanhas anteriores, as estimativas eram de que, de todos os casos de câncer em mulheres, 25% estariam ligados ao câncer de mama. Mas essa relação também cresceu.
“A própria estimativa do Inca também atualizou isso. Já está em 30,04%. Tem aumentado de maneira significativa, tanto pelos números absolutos anuais como os proporcionais, em comparação com outros tipos de câncer”, esclareceu o médico.
O diagnóstico precoce possibilita que o tratamento do câncer de mama seja introduzido ainda nos estágios iniciais da doença, o que pode fazer toda a diferença para a cura e para que as sequelas sejam minimizadas. De acordo com um estudo do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), o rastreamento regular por mamografia pode reduzir em até 30% o número total de óbitos.
Conforme explica André Dias, o diagnóstico precoce possibilita começar o tratamento em um ponto em que as intervenções são mais simples e efetivas. “Para se ter uma ideia, quando a gente faz um diagnóstico precoce, na fase mais inicial que existe, que é o chamado carcinoma incito, a gente tem uma chance superior a 95% de cura”, afirmou.
À medida em que se demora para investigar e iniciar o tratamento, as chances de cura se tornam muito mais difíceis. “Do outro lado, se eu faço um diagnóstico em uma paciente já avançada, quando ela já tem metástase em órgãos à distância, após uns 5 anos de evolução, a taxa cai para 16% de pacientes sobreviventes ao câncer de mama. É drástica a diferença entre o diagnóstico precoce e o tardio”, comparou o médico.
Para se encontrar as primeiras microlesões existentes, ainda antes que se tornem detectáveis através do tato, a realização periódica de mamografias é fundamental. Formalmente, o Ministério da Saúde e o Inca recomendam que o rastreamento mamográfico seja feito para mulheres entre 50 e 69 anos, a cada dois anos. No entanto, desde 2025, o SUS atualizou os protocolos e ampliou o acesso, garantindo a realização do exame também a mulheres de 40 a 49 anos ou acima de 70 anos.
A inclusão das novas faixas de idade para o rastreamento da doença é defendida por instituições como o Colégio Brasileiro de Radiologia, a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). As entidades de profissionais apontam para evidências que ampliam a faixa etária ideal para o rastreamento periódico.
A frequência recomendada pelas sociedades médicas também é menor. Os profissionais indicam que o rastreamento por mamografia seja adotado para mulheres a partir dos 40 anos, além de indicar a realização do exame anualmente.
“Os estudos mostram que a partir de 40 anos de idade, toda mulher tem benefício em realizar mamografia anual. Por conta disso, ao redor do mundo e também aqui no Brasil, as entidades de especialidade médica vão recomendar mamografia a partir de 40”, defendeu o coordenador do hospital.
Segundo André Dias, os protocolos do Ministério da Saúde devem, inclusive, ser atualizados em breve. Ele explica que, a faixa entre 50 e 69 anos é de fato mais vulnerável à doença. “É o recorte de maior risco. A faixa etária é um fator de risco para o câncer de mama, que aumenta com a idade. De 50 a 69 anos, a paciente se encontra em seu maior risco”, esclareceu o mastologista.
Contudo, cerca de 25% dos casos acontecem em mulheres abaixo dos 50 anos. “É um número considerável”, falou o mastologista, defendendo a realização de mamografias periódicas a partir dos 40 anos para todas as mulheres. O especialista afirmou, ainda, que o serviço público oferece o exame e que há sobra de vagas para a realização de mamografias.
“Na Bahia, a gente tem observado, anos após anos, que milhares de mamografias disponibilizadas não foram realizadas. Inclusive, nas campanhas, colocam-se quais são as distribuições de mamografia e muitas não têm sido realizadas”, informou. O médico acredita que muitas mulheres não sabem da informação, embora exista a disponibilidade do serviço e a divulgação dos locais onde é ofertado, especialmente durante as campanhas do Outubro Rosa.
O coordenador do serviço de mastologia do Hospital da Mulher também alerta para fatores de alto risco, quando as mulheres têm maior probabilidade de desenvolver câncer de mama. Nesses casos, é recomendável que a mamografia anual aconteça antes mesmo dos 40 anos.
“A gente já teve pacientes diagnosticadas aqui com 23 anos, 21, e uma recentemente com 19 anos. É uma coisa absolutamente rara, claro, mas que pode ocorrer”, disse o médico. Contudo, há um limite de idade para a eficiência do rastreamento mamográfico.
Conforme explica o mastologista, a depender dos fatores de risco que envolvam as mulheres mais jovens, como a ocorrência de câncer de mama ou ovários em parentes de primeiro grau, a mamografia pode ser indicada a partir dos 30 anos. “Mas não adianta abaixar essa idade, abaixo de 30 anos”, afirmou.
André Dias esclarece que, para mulheres muito jovens, a própria técnica se torna ineficaz, por causa da constituição dos tecidos. “Abaixo dos 30, a mama é muito densa. Quanto mais jovem, a mama é mais densa e dificulta a técnica da mamografia.
Uma das pacientes do hospital que descobriu um câncer de mama antes dos 40 anos foi a comerciária Tamilis Matos de Oliveira. Atualmente com 37 anos, ela descobriu um nódulo no seio em 2023, aos 34 anos de idade.
Tamilis confessou que, ao perceber os primeiros sintomas, acabou negligenciando um pouco. Ela contou que não passou por sua cabeça que, com tão pouca idade, pudesse de fato ser um câncer de mama. “A gente, por ser jovem e por não ter ninguém com a doença na família, acaba deixando de lado qualquer sintoma que vem aparecer desde o início. Comigo foi dessa forma”, desabafou.
A operadora de caixa contou que sentiu um pequeno caroço enquanto tomava banho. “Eu achava que era uma espinha interna, era bem acima, no peito”, falou. Tamilis relatou que, em poucos meses, o caroço cresceu rapidamente e ela buscou a orientação de uma amiga enfermeira.
Durante a investigação médica, foi indicado que Tamilis precisaria realizar uma cirurgia. Ela lembra que foi um período de muita tensão e também de desconforto por conta das intervenções. “Antes, precisava fazer a punção e a biópsia para saber o tipo. Fiz a punção e, depois, ele inflamou e infeccionou. Então, ele cresceu mais”.
A comerciária relatou que, a partir daí, as coisas correram rapidamente e ela conseguiu realizar os exames e as consultas necessários. No mesmo dia da visita à médica para verificar os exames realizados, ela pediu para marcar o procedimento cirúrgico. No retorno para a revisão, o resultado da biopsia com o material da cirurgia já estava disponível e ela confirmou que se tratava de câncer de mama.
“Eu estava sozinha nesse dia, assim como nos outros. E foi ali que eu descobri que eu seria uma paciente oncológica, onde o meu mundo abriu um buraco e eu entrei”, Tamilis desabafou. “A médica me falou que eu estava com um câncer muito agressivo para minha idade, que era um dos piores entre os tipos de câncer de mama”.
Seria necessário fazer uma nova cirurgia e investigar se havia metástase. “Eu saí de lá com um turbilhão de coisas na mente. Eu não contei pra ninguém, eu só sabia chorar. Eu tenho dois filhos, uma menina que hoje está com 13 e um menino de 9. Eu imaginava muito como dar esse resultado para os meus filhos e para a minha mãe, que já é de idade. E eu já havia sofrido muito antes, com o meu divórcio. Eu estava erguendo a minha vida”.
Tamilis passou por cirurgias e tratamento oncológico entre 2023 e 2024. “Eu fiz duas cirurgias, oito quimioterapias e nove radioterapias. E, para a honra e glória de Deus, eu não fiquei usando nenhum tipo de medicamento”, comemorou. Ela continua fazendo os acompanhamentos necessários, antes a cada três meses e agora a cada seis, até completar cinco anos, para garantir que permanece livre da doença.
Para agendar uma mamografia gratuitamente através da rede pública na Bahia, as usuárias do SUS podem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou o posto de saúde mais próximo de sua residência. Outra opção é utilizar a plataforma digital da Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab), onde é possível agendar exames oferecidos em mutirões, feiras e campanhas de saúde promovidos pelo estado.
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