Saúde
Publicado em 08/11/2025, às 06h00 - Atualizado às 06h01 Bruno Peres/Agência Brasil Verônica Macedo
Na véspera da primeira etapa das provas do Exame Nacional do Ensino Médio – Enem, é normal bater aquela ansiedade nos candidatos, tanto os de primeira viagem quanto os que vão realizar os testes mais uma vez. Por isso, o BNews entrevistou Luana Dantas, psicóloga e coordenadora do Núcleo Infantojuvenil da Holiste para falar sobre o assunto e dar algumas dicas para ajudar no melhor desempenho dos alunos neste domingo (8).
Segundo a especialista, é normal sentir uma certa ansiedade, um certo nervosismo frente a uma prova, a um momento onde a pessoa ser desafiada e avaliada, mas é preciso estar atento para alguns detalhes. “Deve-se preocupar e buscar a ajuda profissional quando se percebe que essa ansiedade toma uma forma maior. Por exemplo: quando ela começa a impedir que o jovem coma ou durma; questões básicas”, explica.
Ao abordar o estresse ocasionado pela preparação para o exame, remete-se logo ao extenso e pesado cronograma de estudo que a maioria dos alunos se impõem ao longo do ano e, até mesmo, na véspera do Enem. Sem planejamento adequado, o nível de esgotamento de cada candidato atrapalha sim o desempenho na hora das provas. Por isso, a psicóloga salienta que é fundamental ter equilíbrio nas atividades.
Estudar 12 horas por dias, mesmo no dia anterior às avaliações, sem pausa para o cérebro, o corpo – que fica na mesma postura por horas – exaure o organismo, que necessita de estímulos diferenciados, descanso para apreender as informações de forma catalisadora. “É preciso equilíbrio porque se ficamos focados por um número muito alto de tempo em uma mesma atividade, podemos ter a sensação de rendimento, mas, ao mesmo tempo ,o nível de cortisol, de estresse, é altíssimo, até mesmo pela postura adotada, que não muda e, portanto não estimula o estímulo, que precisa de alternância de lugar, e isso também estressa o cérebro”, alerta Luana.
A psicóloga salienta também que, quando se está estudando e concentrado para uma prova, o normal é deixar os amigos um pouco de lado. “Agora, deixar de comer, dormir ou de fazer coisas básicas da vida, são sim sinalizadores de que a gente precisa, de repente, cuidar dessa ansiedade, cuidar desse quadro que está se abrindo aí”, salienta.
De acordo com Luana, quando isso ocorre, é porque, geralmente, são jovens que já têm uma ‘relação ansiogênica’ com exames desde a história escolar. Então, o Enem, como uma prova de avaliação nacional, com o peso que tem em ser o direcionador do futuro, gera uma maior angustia nesses jovens. “Agora, como essa angústia vai refletir na rotina deles, é que a gente tem que ficar atento mesmo”.
Quando questionada sobre a influência da ansiedade na memória e no desempenho em provas, Luana esclarece que é fundamental ressaltar que a capacidade de atenção, ou seja, a habilidade de se concentrar em uma atividade por um período específico, é individual. No entanto, em situações de tensão, como crises de ansiedade recentes ou no dia da prova, ou em momentos de luto, o foco atencional pode ser alterado. “Da mesma forma, a ansiedade, o estresse e as crises de pânico afetam o foco atencional e a capacidade de evocar memórias, que é a habilidade de recuperar informações armazenadas”, reassalta.
Para a psicóloga da Holiste Psiquiatria não existe uma solução única no que diz respeito às técnicas para controlar a ansiedade. Ela pontua que o que funciona para uma pessoa pode não ser eficaz para outra. Algumas pessoas se beneficiam de estratégias como o uso de objetos que auxiliam na concentração, permitidos em ambientes avaliativos, mas essa é uma escolha individual. Outras podem recorrer a métodos tradicionais, como uma alimentação equilibrada e um sono adequado nos dias que antecedem a prova. “Recomenda-se, em geral, um período de sono de sete a oito horas, pois o sono regulariza o sistema nervoso e contribui para o controle da ansiedade”, frisa.
Portanto, o nível de tensão e estresse pode, sim, comprometer a memória e o foco atencional. A especialista ainda evidenciar que as técnicas para lidar com tal aflição variam, mas é essencial identificar o que proporciona uma sensação de segurança, pois a ansiedade frequentemente evoca a sensação de perigo, levando ao desejo de escapar. A respiração consciente e a visualização de pensamentos positivos são estratégias úteis.
E complementa: “Em geral, é importante identificar e questionar os pensamentos que nos invadem e nos colocam em uma posição de vulnerabilidade. Se a ansiedade, o nervosismo ou o pânico surgem durante a prova, é provável que pensamentos intrusivos estejam presentes, como a crença de não ser capaz, de não ser suficiente ou de não ter estudado o suficiente. Em alguns casos, essa percepção pode ser válida e o estudante precisará lidar com as consequências. No entanto, em muitos casos, a ansiedade surge mesmo após um período de estudo adequado”.
Então o que fazer? “A chave é questionar esses pensamentos, desafiando-os. Por exemplo, em vez de se deixar levar pela ideia de "não dar conta", é útil questionar: "Será mesmo? E se eu conseguir cumprir metade do que preciso?" Em suma, auxiliar a pessoa a questionar esses pensamentos intrusivos e a evitar a postura de "fuga-esquiva" é fundamental”, revela Luana.
Saúde mental e autoconfiança em meio à pressão externa para ter bom desempenho no Enem
A psicóloga e coordenadora do Núcleo Infantojuvenil da Holiste orienta considerar sempre a verdade como o melhor consolo para qualquer desempenho em avaliações. “Nesse sentido, a gente precisa pensar que, o melhor consolo para manutenção da saúde mental e da autoconfiança em meio às cobranças externas e à autocobrança relacionadas a qualquer exame, e não somente ao Enem, é o estudo e o aprendizado que se obteve com a carga de estudo para a realização das provas”, diz Luana Dantas.
Segundo ela, alguns jovens vão conseguir lidar com isso de uma forma relativamente saudável, dentro de um limite. Têm outros que não, que vão achar insuportável esse olhar do outro, essa cobrança, essa autocobrança. E aí, nesse caso, o profissional, psicólogo, precisa orientar os pais a lidarem com os filhos, e não somente esses estudantes, analisando o quanto esse grau de cobrança, de ansiedade está atrapalhando as rotinas básicas, as relações de amizade, o sono minha, a capacidade de comer. Esses são sinais importantíssimos.
“Alguns pais também precisam ser orientados pelo especialista porque, às vezes, com a intenção de motivar, acabam fazendo o oposto. Essa cobrança vem da exigência de sucesso e, às vezes, a gente vai passar por uma fase difícil, pois, até estudou mas a gente teve um término ou a gente perdeu alguém que ama... então,necessita-se questionar esses pensamentos invasivos que nos dizem o tempo todo que não seremos suficientes para essa prova”, ressalta Luana.
A suma importância do sono
A melhor estratégia em termos até mesmo cognitivos é que esse jovem se prepare com boas noites de sono antes da prova e não necessariamente só uma noite de sono antes do dia do exame. A psicóloga explica que é preciso, pelo menos, uma semana de um sono regular anterior à prova, um descanso satisfatório que possibilite que esse estudante realmente relaxe.
“O sono é o melhor regulador não só do humor, mas também possibilita os processos de aprendizagem, cognitivos. Entretanto, um sono regular para cada um varia, mas as atividades físicas são fundamentais para as regulações hormonais, pois todos precisam de uma rotina com variação de estímulo, afim de que, inclusive, à noite, a pessoa consiga ter liberações hormonais suficientes para relaxar profundamente e conseguir equilibrar uma rotina puxada de estudo”, complementa Luana.
Se o estudante conseguir fazer uma rotina equilibrada de atividades e de estudos anterior a essa prova, ele já estará fazendo um preparo importante, não só de saúde mental, mas também física. E, como dica complementar, a profissional da Holiste sugere que os candidatos não deixem para fazer o Enem, por exemplo, no último ano do ensino médio. “Como muitos já fazem, submetam-se à avaliação em anos anteriores para conhecer as provas, descobrir seu ritmo nas disciplinas e, com habilidade, combater o estresse provocado pelo desconhecido”, finaliza Luana.
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