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"Decifra-me ou te devoro": um debate sobre racismo e futebol

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20 de Novembro de 2019 às 08:11 Por: Leonardo Queiroz 0comentários

Com apenas sete meses morando em Salvador, o atual treinador do Esporte Clube Bahia, Roger Machado, parece já ter percebido como as relações de poder são firmemente marcadas pelo racismo na capital baiana. O comandante tricolor declarou, recentemente, que a elite soteropolitana é formada, em sua grande maioria, por pessoas brancas. A novidade está no fato de que este parece ser o indesvendável enigma que condena Salvador a um sofrimento secular, semelhante à epidemia que assolava Tebas, cidade natal de Édipo.

A aludida declaração, coincidentemente ou não, foi precedida por dois casos de racismo no futebol. Um deles, envolvendo um suposto torcedor do Botafogo, clube do Rio de Janeiro, e o outro, sofrido por jogadores brasileiros que atuam no futebol ucraniano. Ambos os casos não trazem consigo nenhuma novidade. É o racismo de sempre, espalhado por todas as partes deste nosso imenso planeta.

O caso carioca ilustra a expressão cotidiana do sentimento de superioridade dos não negros diante dos afrodescendentes. Fortalecido, na ocasião, por um marcador de classe, tendo em vista que o gatilho para a agressão foi a tentativa de um funcionário do estádio de reprimir o torcedor racista, quando este tentava agredir torcedores do time adversário.

A manifestação de racismo ocorrida na Ucrânia, por sua vez, nos permite a reflexão sobre o papel dos jogadores de futebol brasileiros, diante de temas que são caros aos próprios, em particular, e à nação, como um todo. Os posicionamentos frequentes dos astros do basquete norte americano servem como excelente parâmetro para demonstrar a carência de engajamento político dos protagonistas do esporte mais popular do Brasil.

Pelé, atleta negro, e o mais famoso do futebol mundial, coroado como "Rei" desse esporte, muito pouco ou quase nada contribuiu, com a sua fama, para ajudar a combater o racismo. O que aconteceu com Taison e Dentinho, na Ucrânia, se repete há décadas, inclusive com celebridades, a exemplo do lateral esquerdo Roberto Carlos, que já figurou na lista dos três melhores jogadores do mundo.

A atuação desses atletas, participando voluntariamente de campanhas, aproveitando do espaço nas diversas mídias e até mesmo realizando doações para projetos de combate ao racismo no mundo, seria de fundamental importância para a proteção deles próprios e dos seus familiares. Ainda que não percebam a necessidade de contribuir com questões humanitárias, pela simples compreensão de que todos são merecedores de uma vida digna, que o façam para defender a própria pele.

Enquanto os atletas, a parte mais importante de um esporte que movimenta bilhões de dólares, não pressionarem a Fifa e as confederações nacionais para que hajam punições mais severas, terão ainda muito que chorar e se esquivar das bananas arremessadas contra os seus corpos negros. Nos parece que este seja o enigma apresentado aos nossos atletas: ou eles reagem, como vem brilhantemente fazendo o ex-jogador Roger, ou continuarão sofrendo com o racismo. Não do mesmo tipo imposto ao funcionário do estádio do Engenhão, mas tão doloroso quanto.

 

* Leonardo Queiroz é advogado

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