Artigo
Publicado em 06/04/2020, às 06h00 Victor Pinto
Certa vez escrevi um artigo o qual mencionava o DEM acometido pela Síndrome da Viúva Porcina - personagem de Roque Santeiro, novela de Dias Gomes da TV Globo. Porcina foi viúva de marido vivo. Resumindo: foi sem ter sido. Argumentava, na ocasião, que o DEM não se colocava como base de Bolsonaro, mas toda sua postura no Congresso Nacional remetia a atividades e ações que, no fim das contas, beneficiavam o inquilino do Planalto. Essa mesma síndrome volta com força e atinge o ministro da Saúde, Henrique Mandetta, também do DEM.
Mandetta, que anda se bicando com Bolsonaro e ausente de humildade em suas medidas, palavras do próprio presidente em entrevista, se tornou o ex-ministro que ainda não é ex. Flerta com a paciência dos Bolsonaristas e do próprio Bolsonaro frente as ações do combate ao novo coronavírus. O médico se atém na defesa das medidas técnicas e científicas desde o início. O presidente com a linha ideológica e partidária e só, repito mais uma vez, pensando naquilo: palanque eleitoral.
Nas idas e vindas, o ainda ministro da Saúde se queimou pelo caminho ao tentar mesclar o discurso ministerial com o discurso político imposto pelo chefe do Executivo. Quase foi um caminho sem volta. Aquilo foi uma atitude clara para não ser demitido. Bolsonaro não digeria a opinião pública e a imprensa exaltarem Mandetta ao tempo que ganhava muito mais visibilidade do que ele.
Após perceber que estava em uma enrascada custosa pra sua carreira e sua história, Mandetta chutou o pau da barraca. Não pediu demissão e, conforme relatos da revista Veja, avisou ao presidente que se ele quiser, o demita. Nem Bolsonaro é bobo o suficiente para fazer isso: sabe que trocar um General no campo de batalha em plena guerra, sem emergência, só para atender caprichos, é um tiro no pé. E nós estamos em guerrilha contra um inimigo invisível, letal e até então sem uma vacina que venha curá-lo: o Covid-19.
O DataFolha já nos mostra a opinião pública apontando Bolsonaro como um personagem que mais atrapalha do que ajuda. Seus aliados mais próximos discordam da sua conduta. Ministros da primeira linha preferem ficar ao lado de Mandetta do que dele: vide as últimas atitudes do Posto Ipiranga (Paulo Guedes) e o Super Ministro (Sérgio Moro), ambos defensores do isolamento social.
Essa mesma opinião pública, como já mencionei, flerta com Mandetta e este tem certeza que vai ser demitido quando o turbilhão passar. Surfou na onda as lives pelo Youtube com famosos cantores e passou o recado da defesa da quarentena como forma de controlar as infecções. Tomou pra si uma pseudo cadeia nacional para a transmissão da sua recomendação técnica, totalmente diferente do seu futuro ex-chefe, utilizador da rede nacional formal (rádio e televisão). Tacada de mestre! Falou para um público diverso, principalmente aos mais de 3 milhões que acompanharam o show de Jorge e Matheus, e conseguiu repercussão imediata nas redes e na imprensa.
O deputado federal Osmar Terra, que foi retirado do primeiro escalão de Bolsonaro para Onyx Lorenzoni ser acomodado em seu lugar (que é do DEM), fez uma menção clara, como se tivesse enviado o currículo para o presidente, com uma série de publicações no Twitter negando o isolamento social com afirmações, sem nenhum embasamento concreto, de serem prejudiciais e mais facilitadoras da propagação do vírus. Terra se candidatou, nas entrelinhas, descaradamente, a futura vaga vacante de Mandetta.
O democrata sabe que cairá e segue, atualmente, no mesmo patamar das lideranças da sua sigla: Rodrigo Maia (DEM) e ACM Neto (DEM). Mandetta foi um, antes do Ministério, e será outro quando deixá-lo e tudo leva a crer em um patamar superior.
E fica a recomendação: sem saúde não há vida plena que resulte no trabalho, no emprego. Fiquemos em casa! Remeto uma frase de um bolsonarista de carteirinha, defensor ferrenho do presidente, contudo, o bordão, de autoria de Paulo Cintura, pode ser aplicado cirurgicamente para defender o isolamento: saúde é o que interessa, o resto não tem pressa.
* Victor Pinto é jornalista formado pela Ufba, especialista em gestão de empresas em radiodifusão e estudante de Direito da Ucsal. É editor do BNews e coordenador de programação da Rádio Excelsior da Bahia. Atua em outros veículos e com consultoria. Twitter: @victordojornal
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