Artigo

Banalização das narrativas falaciosas

Imagem Banalização das narrativas falaciosas

Cada vez mais nos deparamos com a banalização das narrativas falaciosas, mentirosas, em detrimento dos fatos reais escancarados

Publicado em 21/12/2020, às 06h25        Victor Pinto

Li muito no Twitter esses dias publicações das pessoas com a seguinte menção: ficar atualizado das notícias no Brasil por 24 horas é ficar 24 horas irritado. Se para o leitor soa assim, imagine para nós, jornalistas, trabalhadores, escravos e operários dos fatos e das notícias? É revoltante nos depararmos com narrativas falaciosas, mentiras descaradas, de diversas autoridades, das engravatadas as togadas (que o diga a operação Faroeste). 

Situações recentes nos remetem a esse tipo de enquadramento que nos desconfortam e alimentam uma visão de cenário de revolta cidadã na seara institucional. O primeiro caso versa sobre a vacina. Ouvir do ministro da Saúde o questionamento do “pra que tanta ansiedade” sobre a vacina do novo coronavírus e do presidente da República que a pandemia está no fim ou que passamos bem por ela é de faltar chão para por o pé. 

A discussão envolvendo o STF sobre a obrigatoriedade da vacina nos faz deparar, principalmente nas redes sociais, com discursos sem noção. Como bem disse o Ministro Fux: ninguém “será puxado pelo cabelo” para tomar vacina. Toma quem quer, mas sanções serão aplicadas. Nós todos somos obrigados a votar, mas ninguém nos pega pelo braço e nos leva a urna. Mas se a gente não votar, temos as consequências. 

A aplicação compulsória da vacina é lei, compete ao governo Federal escolher qual seria obrigatória, mas no cenário da pandemia isso foi feito pelo próprio Jair Bolsonaro em 6 de fevereiro deste ano, quando sancionou a lei 13.979 no artigo terceiro, inciso terceiro. Só jogar no Google que acha a legislação completa. O que o Supremo discutiu foi algo que já estava claro e evidente em lei. 

Outra falácia essa semana disse respeito ao 13º do Bolsa Família. Em live, o presidente culpou Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara, por não aprovar a MP 1000 que garantisse o pagamento, mas um dia depois o ministro da Economia disse que não seria possível pagar esse dinheiro, mesmo aprovado pelo legislativo. Ué? Quem tá mentindo então? Agora Maia quer pautar e Guedes suspendeu suas férias para negociar isso por causa de uma mentira dita pelo presidente da República. 

Cada vez mais nos deparamos com a banalização das narrativas falaciosas, mentirosas, em detrimento dos fatos reais escancarados em nossa cara e sem um combate mais aguerrido. Isso é de uma complexidade sem tamanho para uma sociedade já efêmera e líquida (como diria Bauman) em diversos aspectos, principalmente o político. Antes era algo mais subjetivo quando se tratavam das instituições, mas agora é escancarado como se a vergonha e a moral não valessem de nada. Mas será necessário passar por isso? Sim. Resta saber se vamos tirar aprendizado disso tudo, durante a revolta.

Victor Pinto é editor do BNews, jornalista formado pela Ufba, especialista em gestão de empresas em radiodifusão e estudante de Direito da Ucsal. Atua na cobertura jornalística e na área administrativa de rádios em Salvador. 

Twitter: @victordojornal

Classificação Indicativa: Livre