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Um centenário para saudar a Ciência e a Universidade

Imagem Um centenário para saudar a Ciência e a Universidade

Publicado em 28/03/2021, às 18h29        Penildon Silva Filho

No dia 26 de março último foi realizado o Simpósio de Farmacologia: 100 anos do Profº Penildon Silva, uma promoção da Universidade Federal da Bahia (UFBA), da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e do Instituto Magister. Na abertura, os reitores da UFBA, João Carlos Salles Pires da Silva, da UNEB, José Bites de Carvalho, e a reitora Maria Luísa Carvalho Soliani, da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP). O Seminário foi promovido por ex-alunos e orientandos, atualmente professores e pesquisadores do campo das Farmacologia, e homenageou profº Penildon Silva, falecido em dezembro de 2019. (para assistir acesse o link da TV UFBA . 

Penildon Silva nasceu a 26 de março de 1921, na Ribeira, em Salvador, de família de classe média e trabalhou desde cedo na farmácia de manipulação do seu pai, de onde veio o interesse pelo estudo das drogas, pela Medicina e pela Ciência. Sua primeira formatura foi em Farmácia em 1941, sua segunda formatura em Medicina em 1948, sendo que ele iniciou os estudos enquanto ainda era a Faculdade de Medicina da Bahia, criada em 1808, a mais antiga do Brasil, mas já se formou em Medicina na recentemente criada Universidade Federal da Bahia, de 1946. Logo depois fez o curso de Pós Graduação em Medicina e Saúde Pública – Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP, com término em 1953 e a distinção do primeiro lugar na turma.

Iniciou suas atividades docentes como professor do curso secundário de Ciências Físicas e Naturais do Instituto Baiano de Ensino de 1947 a 1949, de Química do Ginásio da Bahia e de Biologia Educacional do Magistério Secundário e Normal do Estado de São Paulo, por concurso em 1956. Foi professor contratado em Biofísica pela Universidade Federal da Bahia, na Escola de Enfermagem, 1956; professor contratado em Física Aplicada à Farmácia UFBA, também em 1956, e professor contratado de Bioquímica na UFBA na Escola de Veterinária de 1958 a 1966 e na Escola de Nutrição de 1960 a 1970. Posteriormente integrou os quadros do Instituto de Ciências da Saúde (ICS), criado em 8 de fevereiro de 1968 na UFBA, tendo permanecido com enorme destaque na instituição até a sua aposentadoria e depois desta, pois continuou a lecionar até os 80 anos, e a pesquisar e atualizar sua obra da Farmacologia até depois disso.

Seu doutorado foi em Farmácia pela Faculdade de Farmácia e Odontologia do Rio de Janeiro em 1961; fez concurso e foi aprovado para professor catedrático na UFBA com a tese sobre Liofilização; depois foi professor titular em Farmacologia do Instituto de Ciências da Saúde da UFBA, professor emérito da UFBA em 1993 e professor Emérito da Baiana no mesmo ano. Desde a década de 1970 também lecionava na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, até de aposentar naquela instituição na década de 1990, tendo sido responsável pela modernização do ensino da Farmacologia por meio de um convênio que estabeleceu com a Escola de Medicina de Ribeirão Preto.

No campo das pesquisas realizada, teve pelo menos registradas 20, sempre no campo da Farmacologia, geralmente de caráter experimental. Trabalhou como chefe do Serviço de Pesquisas Terapêuticas da empresa multinacional Rhodia, onde coordenou muitos ensaios clínicos de novas drogas provenientes da Europa. Suas publicações iniciaram-se em 1940 com “Estudo Farmacotécnico das Pomadas”, passando por diversas publicações em periódicos de Medicina, Farmácia, Física, Tuberculose, Medicina Veterinária e outros, no Brasil e no exterior, tendo registros hoje de pelo menos 50. Sua participação em congressos, reuniões científicas, cursos, conferências e palestras totalizam 52 registros.

Além do ensino e da pesquisa, se dedicava muito à didática da Farmacologia e da Bioquímica, tendo inspirado muitos a seguir por essa carreira e se preocupado em elaborar livros que pudessem ajudar aos alunos na sua trajetória de formação. Exemplos desse esforço se encontram na publicação do livro “Bases Farmacológicas do Sistema Nervoso Central” de 1977, e principalmente no “Farmacologia” com a primeira edição em 1980, que foi seguido por sete novas edições nas décadas seguintes. Esse último se tornou livro texto de cursos de Medicina em todo o Brasil e bibliografia básica obrigatória em concursos de médicos e professores em diversas instituições do país. “Farmacologia” foi um compêndio de qualidade internacional, essencial para uma boa formação na área, com um estilo objetivo, claro, interdisciplinar e sistêmico, revelando uma outra habilidade do professor Penildon Silva, a de coordenar um amplo grupo de professores e pesquisadores de diversas especialidades e motivá-los a escrever capítulos, depois revisando esses e dando um sentido de unidade na obra.

Esse trabalho em equipe ao lado do papel destacado para consolidar a pesquisa em Farmacologia e Bioquímica na Bahia e no Brasil e formar docentes e entusiastas pela Ciência dão testemunho de uma qualidade importante no mundo acadêmico naquele tempo e mais ainda nos dias atuais: o sentido da cooperação acadêmica que se sobrepõe à competição; a busca pelo desenvolvimento da Ciência com preocupação no bem estar da Humanidade, sem limitações ideológicas e sem preocupação com a vaidade e prestígio social. Na verdade, apesar de ser muito sociável na faculdade com os alunos, com colegas mestres e técnicos, tinha pouca paciência para encontros sociais ou qualquer pretensão de visibilidade pública.

Apesar disso, desempenhou funções administrativas na Universidade, foi vice diretor (1976-1980) e diretor do ICS (1980-1984); integrou a Associação Bahiana de Medicina, a Academia de Medicina da Bahia, foi fundador da Sociedade de Farmácia da Bahia e fundador de Sociedade Brasileira de Farmacologia, Secção Bahia.

Além disso tudo, clinicou durante quase toda a vida depois de formado, compatibilizando a vida acadêmica de professor e pesquisador com a de clínico geral, pelo menos até 1995. E mais ainda, foi professor de Inglês da ACBEU-Associação Cultural Brasil Estados Unidos, sendo que lia, falava e escrevia Inglês muito bem. Lia, escrevia e falava também o Francês e o Alemão, e seu estudo sistemático de línguas foi uma paixão até o fim da vida. Gostava muito de literatura, especialmente a inglesa, com destaque para Willian Shakespeare, assim como de Filosofia e Cinema. Uma pessoa de caráter realmente universitário, pois se aprofundava num campo do conhecimento, mas a curiosidade sempre o levava a outros, tinha diferentes interesses, diferentes aptidões, inclusive no campo da Cultura e das línguas. Essa apetência o fez a criar laços com pesquisadores em outros países, especialmente na Europa, onde sempre estava presente em congressos e realizava parcerias em pesquisas. O ambiente universitário serve para essa finalidade de se aprofundar num campo do conhecimento sem perder uma visão geral da Ciência, da Cultura e da Sociedade, um ambiente que preze mais pela colaboração que pela competição desenfreada que muitas vezes não tem resultados científicos significativos por estar numa lógica produtivista e apressada, quando sabemos que a Ciência e a pesquisa têm seus próprios ritmos e dinâmicas.

Em momentos de tantos ataques à Universidade, à Ciência, à Cultura, aos valores da Civilização de urbanidade, aos valores da paz, da inclusão social, do respeito aos diferentes, é importante celebrar quem sempre se dedicou a tudo isso, não como obrigação profissional apenas, mas com a paixão pelo conhecimento, pela constante busca do saber, pelo prazer em transmitir conhecimento aos alunos e iniciar vários deles na pesquisa. Foi um exemplo de dedicação à instituição universitária e à Ciência, e também exemplo de civilidade, urbanidade e principalmente de capacidade didática em sala de aula com seus alunos, sendo um dos professores pioneiros na história da UFBA, um dos responsáveis pela sua consolidação e excelência acadêmica.

O universo profissional, afetivo e simbólico de profº Penildon Silva era a Academia, a UFBA, as outras universidades. Só se aposentou da UFBA pela compulsória, mas depois permaneceu com suas atividades letivas e de pesquisa normais, tendo carga horária equivalente ou superior a vários professores da ativa. Continuou atualizando o Farmacologia até quando a Saúde deixou, em 2010, com a 8ª edição. Foi um docente que exercitou o conceito de universidade humboldtiana, da Universidade alemã, ao lado da Universidade brasileira: ensino, pesquisa e extensão integrados e mutuamente potencialidores, um exemplo de dedicação à Ciência, aos alunos, à universidade, ao conhecimento amplo, à racionalidade, tão importantes em tempos embrutecedores e anti-científicos.

Penildon Silva Filho é professor da UFBA e Doutor em Educação

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